REGINA DINIZ
“O filósofo Immanuel Kant nos
lembra, que um indivíduo não é uma coisa, “não é algo a ser usado meramente
como um meio”. Não tenho mais direito de dispor da humanidade em mim mesmo do
que em outra pessoa. Para Kant suicídio e homicídio são errados pelo mesmo
motivo. Ambos tratam as pessoas como coisas, e não respeitam a humanidade como um fim em si. O auto respeito e o
respeito ao próximo partem de um mesmo e único princípio. O dever do respeito é
um dever que temos para com as pessoas como seres racionais, que têm
humanidade, sejam elas quem forem. (Autor: Michael J.Sandel – Livro:
Justiça - O que é fazer a coisa certa. –
Editora Civilização Brasileira – 2014).
Milênios se passaram e muitos
filósofos dedicaram a sua vida, aprimorando a ética. Atualmente vivemos numa
economia global, que exige uma ética global, universal. Que ética escolher
entre as várias teorias éticas? Qual o papel das instituições internacionais na
definição, e no cumprimento dos deveres
e dos direitos universais? É bom relembrar a teoria ancestral da reciprocidade,
onde a figura do estrangeiro é sagrada: primeiro alimenta-se e cuida-se do
visitante e só depois se lhe pergunta o nome e de onde vem. Sófocles, faz a
defesa do humanismo dizendo: “Muitos prodígios existem: porém nenhum maior do
que o homem”.
Hume, Hobbes, Stuart Mill e outros grandes escritores, com Rawls na
sua teoria da Justiça, estudaram muito sobre as questões morais com o objetivo
de oferecer a melhor teoria ética.
Atualmente, o estudo centra-se na ética dos afetos e na ética dos direitos. A
primeira preocupa-se com as relações familiares, fraternas e amigáveis. A ética
dos direitos associa-se a preocupação com os direitos individuais. Adam Smith
expõe em seu livro “A Teoria dos Sentimentos Morais e à possível contradição
com a teoria da mão invisível do mercado no livro: “A riqueza das Nações”
ressalta a impossibilidade de conciliar o utilitarismo e a ética utilitarista
com os princípios da justiça, e com os princípios da solidariedade.
Moral e Ética são dois conceitos
que analisam um sistema de regras de conduta da nossa relação com o outro. A
Moral é um conceito que se compatibiliza mais aos sistemas filosóficos, à
teoria. A Ética se adequa mais à prática, às regras de conduta do viver
quotidiano. Deduzimos que o domínio da moral é o da sabedoria da teoria da
reflexão e o domínio da ética é o do sentir, do agir, da interação com os
outros. Pergunto-me: Porque o estudo da moral e da ética não estão presentes
nos currículos escolares, não só no Brasil, mas no mundo todo. Como explicar os
inúmeros conflitos bélicos, que se desenrolam no mundo todo?
“Agir moralmente significa agir
por dever em obediência à lei moral. A lei moral consiste em um imperativo
categórico, um princípio que exige que tratemos as pessoas com respeito, como
fins em si mesmas. Só agimos livremente, quando agimos de acordo com o
imperativo categórico. Isso acontece porque sempre que agimos segundo um
imperativo hipotético agimos em prol de algum interesse ou objetivo externo. Mas nesse caso não somos
verdadeiramente livres; nossa vontade não é determinada por nós, e sim por
forças externas, por nossas necessidades circunstanciais ou por vontades e
desejos que por ventura tenhamos”. (Autor: Immanuel Kant - Título:
Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Citação: Autor: Michael J.Sandel – Livro: Justiça o que é fazer a
coisa certa. 13ª- edição – Ed. Civilização Brasileira – Rio de Janeiro – 2014).
Só podemos evoluir com autonomia,
quando escolhemos jeitos de ser a nós mesmos, e aceitamos que a liberdade e
moralidade estejam interligadas. A
tentativa de basear a moralidade em
algum interesse, ou desejo particular está destinada ao fracasso. O princípio
baseado no interesse não pode ser considerado como lei moral. Kant nos ensina a
tratar todos os indivíduos com respeito, como um fim em si mesmo. Melhor
dizendo “Faça aos outros o que deseja que os outros façam a você”.
O estudo da Ética é inseparável
da discussão sobre a vida justa. E a vida justa como categoria só pode ser
apreendida, quando pensamos a realidade social: a vida com os outros; a
interação coletiva, a esfera pública. O pensamento a propósito da ética implica
reflexões sobre temas como os da solidariedade, da tolerância, da
responsabilidade, das identidades e dos direitos. A ação ética sustenta-se na
intencionalidade da ação, na relação da consciência para consigo mesma, na
integridade do ser humano frente a seus pares. Hanna Arendt defende: compete ao
educador preservar do mundo às novas gerações, para que estas não destruam o
suporte de memória, e o acervo cultural acumulados pela Humanidade no
transcurso de milênios.
O grande desafio é preparar as
jovens gerações para o novo, isto é encaminhá-las rumo ao desconhecido: aquilo
que elas, quando crescidas poderão aproveitá-las na preparação para o novo. A ética é portanto,
a vida boa enquanto vida justa na esfera coletiva. É na ação social e na
relação com os outros que se constitui o fato ético. Amizade como escolha do
outro: como reconhecimento do outro no outro e como encontro de si mesmo nesse
reconhecimento do outro.
Para Aristóteles, o exercício da
amizade estrutura o próprio ideal de autonomia. Já que aos homens não foi
concedida a plenitude divina, pela união mais desinteressada dos mesmos homens
entre si, desenvolver-se-ia o movimento em direção a essa liberdade, autonomia,
à independência do sujeito para encontrar em si e por si os motivos e as
estratégias de ação. Tal autonomia é, contudo, um aprendizado, expresso
fundamentalmente na vida voltada para o convívio ético: vida mais feliz e mais
harmoniosa. Indispensável para o viver coletivo, a acepção de amizade ganha em
Aristóteles um estatuto bastante elevado, para a produção de decisões acertadas
sobre o possível e sobre o desejável.
A conduta virtuosa e a vida boa
pautar-se-iam pela perseverança, quanto a retidão do agir e pela cautela
perante os infortúnios do acaso. A educação ética supõe um certo disciplinar
das vontades, um controle continuado dos instintos e da expressão das
determinações externas. A ética é firmada na avaliação necessária entre o
possível e o almejado, na busca criteriosa da edificação de uma vida
equilibrada e justa, que resiste e recusa ao capricho das paixões.
Segundo Rousseau, a sabedoria
como domínio de si e autoconhecimento traz pistas para remeter para a educação
o debate a propósito da ética. A prudência e o discernimento das paixões, o
domínio dos afetos, esse constante aprender a fazer de si próprio seu senhor, é
o que demarca o campo do que poderíamos compreender como autonomia da vontade,
assim a condição humana seria em sua essência o livre-arbítrio e as demarcações
de escolhas que, sendo autônomas e construtivas no homem bem formado e bem
cultivado, contribuiriam para elevar o nível de suas decisões.
Kant na mesma direção, apresentou
o território da ética como campo da distinção humana, da especificidade e
particularidade do homem
perante sua circunscrição. O
homem é o ser pensante da natureza, destinado a escolher, inclinado a eleger
caminhos e propor trilhas; vocacionado para justificar suas escolhas. A opção
pelo bem apresenta-se como imperativo categórico. A intuição primeira, que
posta como dever, torna-se obrigação da consciência. O ser humano, seria em
certa medida o sujeito que escolhe as normas, que adquirem validade universal,
fazem-se dever de moralidade. A vontade moral estaria, pois em consonância com
leis universais. O modo como atuamos no mundo deverá estar de acordo com a
noção do bem, que nós seres capazes de discernimento entre o bem o mal
consideramos universal.
Gostaríamos de poder tomar como essências de virtude para toda a conduta
humana.
