REGINA DINIZ
“Eles
são menos excluídos do que abandonados, como se estivessem encalhados na
margem, depois que a corrente das trocas produtivas se desviou deles. Tudo se
passa como se redescobríssemos com angústia uma realidade que, habituados com o
crescimento econômico, com o quase pleno emprego, com os progressos da
integração e com a generalização das proteções sociais, acreditávamos esconjuradas:
a existência, novamente, de inúteis, de “inúteis para o mundo”, pessoas e grupos que se tornaram
supranumerários diante da atualização das competências econômicas e sociais.
Esse estatuto é de fato, completamente distinto daquele que ocupavam até mesmo
os mais desfavorecidos na versão precedente da questão social. Assim, o
trabalhador braçal ou operário especializado das últimas grandes lutas
operárias, explorado sem dúvida, não lhe era menos indispensável. (Autor:
Robert Castel
-
livro:As Metamorfoses da Questão Social – Editora Vozes – 2012).
Os
excluídos, a pobreza extrema ocupa o último lugar da sociedade e nunca foi
pensado em todo o mundo uma maneira de inseri-los no quadro de uma possível
integração. Este plano reformista em termos de redução das desigualdades, de
política de salários, de promoção de oportunidades sociais e de meios de
participação cultural nunca foi discutido. Nunca esta vertente humanística em
termos de transformação total da estrutura social para garantir a todos uma
real igualdade de condição foi sugerida.
Por
milênios e milênios o nosso planeta demonstrou uma indiferença humana
inexplicável pelos chamados supérfluos. Tão desprezados e humilhados não
representam um potencial de luta política e não possuem condições de pedir
ajuda. Podemos dizer sem condições nenhuma de pedir socorro para uma vida mais
humana. São considerados supérfluos porque não fazem nada de socialmente útil,
portanto não existem socialmente. Eles estão bem presentes e isso é o maior
problema, pois são numerosos demais.
“Sempre
que a questão do reconhecimento é levantada, é porque certa categoria de
pessoas se considera relativamente prejudicada e não vê fundamento para essa
privação. Como sabemos pelo estudo clássico da injustiça de Barrington Moore
Jr., as queixas de privação raramente eram manifestadas no passado simplesmente
porque grupos de pessoas se encontravam em condições de desigualdade (se isso
aconteceu, o número relativamente pequeno de rebeliões ao longo da história
humana seria um mistério). Baixos padrões de vida, por mais infames, miseráveis
e repulsivos para um observador de fora, foram em geral, suportados com
humildade e não levaram à resistência quando duraram por longo tempo e foram
incorporados pelas vítimas como “naturais”. Os despossuídos se rebelaram não
tanto contra o horror de sua existência como contra uma “volta do parafuso, contra terem que
enfrentar mais demandas ou receber
menores recompensas do que antes; em uma palavra, não se rebelaram contra
condições repugnantes, mas contra a mudança abrupta das condições a que estavam acostumados e
suportavam. A “injustiça” contra a qual estavam prontos a se rebelar era medida
em relação às suas condições de ontem e não pela comparação invejosa com as
outras pessoas à volta”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Comunidade – a busca por
segurança no mundo atual – Ed. ZAHAR – 2003).
Ao
longo de sua história, os homens se colocaram certos objetivos, em que não
apareciam os desejos de felicidade baseada na riqueza. No que diz respeito à
sobrevivência, da estruturação de um grupo social, das operações ou ideologia
técnica, a preocupação com a felicidade não aparecia. (Foi uma novidade
proclamada pela revolução moderna) a possibilidade de produção de abundância e
de garantia de uma vida material melhor, uma vida mais fácil, longe dos perigos,
do cansaço, da doença e da fome.
A
sociedade moderna proclama, que a felicidade não era só a melhoria do padrão de
vida, mas o grau de felicidade dos homens e mulheres envolvidos, que devia
justificar (ou condenar caso aquele grau se recusasse a chegar a níveis cada
vez mais altos) a sociedade e todos as suas obras. Nesta procura desesperada
pela felicidade a esperança de sucesso tornou-se a motivação principal da
participação do indivíduo na sociedade. Esta busca de felicidade materialista
tornou-se até os dias de hoje num dever, e no supremo princípio ético. Os
obstáculos responsabilizados ou suspeitos de bloquear essa busca passaram a constituir o sistema de injustiça
e uma causa legítima de rebelião.
“Eu
sou para o outro, quer o Outro, seja para mim ou não; o seu ser para mim é, por
assim dizer, problema dele, e se e como ele trata este problema não afeta
minimamente o meu ser para Ele (da mesma forma que o meu ser para o Outro
inclui respeito pela autonomia do Outro, que por sua vez inclui meu
consentimento de não chantagear o Outro para ser-para-mim, nem interfere de
qualquer outra maneira com a liberdade do Outro). O que quer que possa conter a
mais o “eu para ti”, não contém uma exigência de repagamento , espelhado ou
“contrabalançado” no “tudo-para-mim”. Minha relação ao Outro não é reversível;
se acontece ser respondida na reciprocidade não passa de acidente do ponto de vista do meu ser-para”. (Autor:
Zygmunt Bauman – livro: - Ética Pós-Moderna – Ed.Paulus – 4ª edição – 2010).
Nos
relacionamentos humanos não podemos chegar como alguém a quem possamos
conhecer, representar, reduzir a uma imagem, dominá-lo como pessoa, mas
tratá-lo como alguém a quem podemos acolher, dar abrigo, permitindo, que tome a
palavra para nos dizer, pedir, propor o que entender. Sendo o outro completamente
exterior a mim, resta-me acolhê-lo e
esperar que ele me fale convidando-me à relação ética. Acolher o outro é, então,
a apreensão, sem choque, daquilo que o outro tem para dizer, vindo de uma
distância da qual nada sei e sobre o qual nada posso.
O
acolhimento pacífico do outro tem a ver com as condições do próprio encontro: o
eu está disponível para acolher, sem ocupar o primeiro plano, sem ditar leis,
sem impor interesses ou vontades próprias; e o outro chega desarmado, despojado
dos seus bens, dos seus títulos e dos seus contextos. Portanto quando acolhemos
alguém, não importa que seja rico ou pobre, desta ou daquela etnia, cultura,
religião, ideologia etc..., exercendo esta ou aquela profissão, desempenhando este
ou aquele cargo, com este ou aquele passado, com este ou aquele presente, uma
vez que nada disso é importante, porque nada disso conta. O ser humano
significa por si mesmo, e isso chega.
“Ser
pessoa moral significa que eu sou guarda de meu irmão. Mas também significa que
eu sou guarda de meu irmão quer o meu irmão veja, quer não seus próprios deveres
fraternos da mesma forma que vejo; e que eu sou guarda de meu irmão não
importando o que os outros irmãos, reais ou putativos, fazem ou podem fazer. Pelo
menos, eu só posso ser adequadamente seu guarda se ajo como se eu fosse o único
obrigado, ou mesmo apto, a agir dessa maneira. Eu sou sempre aquele que carrega
aquela palha que quebrará as costas do camelo da indiferença moral. É essa
unicidade (não “generabilidade”), e essa não- reversibilidade de minha
responsabilidade, que me coloca no relacionamento moral. Isso é o que conta,
quer façam, quer não todos os irmãos do mundo por seu próprio irmão o que eu
estou a ponto de fazer. Seu eu fosse buscar padrões pelos quais deva ser medida
minha responsabilidade moral para se ajustar a meu impulso moral, eu não os
encontraria nas normas que posso exigir razoavelmente que os outros sigam. “ O eu sempre tem uma responsabilidade a mais
que todos os outros”. (Autor: Emmanuel Lévinas – livro: Ethics and Infinity –
1985 – Pittiburgh).
A
minha responsabilidade é sempre um passo a frente, sempre maior que outro.
Sinto o conforto das normas éticas já existentes, que serve para guiar-me, para
assegurar-me de que atingi o limite do meu dever e assim me livrar da ansiedade
a qual chamo de consciência culpada. O padrão pelo qual eu (somente eu) meço a
minha própria responsabilidade é o padrão da justiça ética, é um plano que só
eu posso estabelecer para mim e não posso impor perante outras pessoas como a
medida de sua moralidade. O padrão da justiça ética é um padrão além e acima da
medida da medida de decência moral, medida que é partilhada e universal.
“O
dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que a minha
responsabilidade sente. A simples regra de respeitar a privacidade de outrem e
tornando o respeito visível é fundamental. O resto do tempo, estou em situações
carregadas moralmente, e isso significa
que estou no que me é próprio. Pensar
nas situações-limite é estar no solo em que as morais germinam, crescem,
florescem, murcham e renascem. “A lógica da evolução, a forma que a evolução
deu à sobrevivência, pode afiançá-la: se há vantagens em ser participante de
uma troca recíproca, e se é mais provável que alguém seja relacionado como
participante se tem genuíno interesse por outros, há vantagem evolutiva em ter
genuíno interesse por outros”. (Autor: Peter Singer – Livro: The expanding circle:
Ethics and sociobiology, - 1981).