terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A MESQUINHARIA QUE MARCA A INTENSIDADE DO hOMEM URBANO

REGINA  DINIZ

“A mais macabra efeméride literária deu-se a 7 de janeiro de 2015, quando Michel Houellebecq lançou seu romance Submissão. Naquele dia, charge sua estampava a capa de revista Charlie Eebdo em que ele dizia: “Em 2015 eu perco os meus dentes, em 2022 eu faço Ramadã”. Às 11 horas e 30 minutos da manhã daquele dia  fatídico, enquanto o autor  ainda concedia entrevistas, ocorreu o atentado à revista e as perseguições, que deixaram 11 vítimas fatais. Tinha início a mais recente temporada de ataques terroristas contra Paris: em 23 de novembro do mesmo ano, mais 130 vítimas. Se alguém nasceu para ser polemista, impossível cenário com maior carga dramática.

Mas não é por isso que alguém encontrará Houellebeq, em livros e sim para pensar junto com um autor de expressão de inteligente, elegante e cínica, com os olhos para o cotidiano de mesquinharias que marca a intimidade do homem urbano. A prosa cética de Houellebecq demonstra o lustro de narcisismos  cevados do imaginário da alta cultura européia, e fustiga, com essencial perícia, o pequeno burguês, alvo histórico da literatura francesa, desde Moliére e seu Burguês fidalgo, escrito em 1670.

Não á toa, Houllebecq é um dos autores franceses mais lidos e traduzidos da atualidade, merecedor do prêmio Gancourt  de 2010, por seu O mapa e o território e o território, onde a trama segue a vida de um artista, Jed Martin, e disseca o mercado da arte e alta sociedade francesa. Outros quatro livros completam a sua estante: Extensão do domínio da luta, Partículas Elementares, Plataforma e a possibilidade de uma ilha.

Em submissão Houellbecq expõe em primeira pessoa o pensamento e a saga de um professor da Universidade Paris, especializado na obra do romancista francês J. K. Hwysmans (1848 – 1907) desencantado com sua condição de decadente e solitário. O  coração do livro, todavia é a ficção política projetada para 2022, quando um candidato da União da Fraternidade Muçulmana, apoiado pela esquerda e pela direita, vence a eleição presidencial francesa e inicia um programa  maometano de reformas transformando a pátria do laicismo contemporâneo  em uma teocracia islâmica.

Isso significa poligamia, sujeição feminina, banimento dos professores ateus em prol dos fiéis e a expansão da França para   o Mediterrâneo, integrando-a aos regimes islâmicos do norte africano e dando a esta a liderança de um novo império europeu. Ironia das ironias, este destino reverte o feito épico de que há séculos se ufanam os franceses: a vitória de Carlos Martel na batalha de Poitiers, em 10 de outubro de 731, que barrou o avanço omíada na Europa medieval e manteve o islã confinado na península ibérica.

Voltando àquele dia de janeiro, em que à sombra desse livro perturbador o periódico iconoclasta banhou-se em sangue evidenciaram-se a gravidade do conflito e, uma vez mais, o drama vivido na França e no mundo. Separados por um oceano e muitas distâncias históricas, que não sentimos tão intensamente o peso deste conflito entre islã a Ocidente cristão (incluindo-se ateus e judeus, mas não sabemos que é um dos principais problemas da era atual juntamente com a degradação ambiental e os exageros do capitalismo globalizado.

A angustia histórica (“onde vamos parar?”) ora não necessita de Sófocles, Shakespeare ou Sartre para ocupar a cena cotidiana e pautar nossa reflexão. Melhor então que façamos com a inteligência de bons autores, como Houellebecq, e melhor ainda se o drama passar-se apenas em uma ficção especulativa, preocupante mas bela, como concerto de idéias e paradoxos da civilização atual. (autor: Francisco Marshall, Historiador e arqueólogo, professor do Departamento de História  e arqueólogo, professor do Departamento de História da UFRCS – 2016 – Fronteiras do Pensamento.

Paris, 2022: François, investigador, universitário, cumpre desapaixonadamente o ofício do ensino enquanto leva uma vida calma e impermeável a grandes dramas, uma rotina de quarentão ocasionalmente inflamada pelos relacionamentos  passageiros com mulheres cada vez mais jovens.  É também com indiferença que vai acompanhando os acontecimentos políticos de seu país. Às portas das eleições  presidenciais a França está dividida. O .recém criado, partido da Fraternidade Muçulmana  conquista cada vez mais simpatizantes, graças ao seu carismático líder, numa disputa direta com a Frente Nacional.

O país obcecado por reality show e celebridades acorda por fim e toma de assalto as ruas de Paris: somam-se os tumultos, os carros incendiados, as mesas de votos destruídas. Afastado da uni  versidade pela nova direção, deprimido, François retira-se no campo, onde espera deixar de sentir as ondas de choque  da capital.  Regres-sa à Paris poucos dias depois de desfecho eleitoral e encontra um país que já não reconhece. É tempo de questionar-se sobre se deve e pode submeter-se à nova ordem. O livro submissão convida a uma reflexão sobre o convívio e conflito entre culturas e religiões, sobre a relação entre Ocidente e Oriente, sobre a relação entre cidadãos e instituições. Um romance que, como é habitual na obra do autor, adianta-se a seu tempo e coloca questões prementes, hoje mais relevantes do que nunca.

Michell Houellebecq confirma-se nestas páginas como um pensador temerário, capaz de detectar as grandes tensões de nosso tempo, interpretando-as com lúcida ironia. Uma fábula política e moral surpreende, Submissão é o romance mais visionário e simultaneamente mais realista de Michel Houellebecq.

Como sempre Michel Houellebec desenvolve temas candentes e fá-lo de uma forma clara e acessível a todos os públicos. Desta vez, a-nalisa o peso cada vez maior do islamismo na Europa e em França, em particular. A prova da atualidade desta obra é a coincidência do seu lançamento em França no mesmo dia em que se deu o ataque  ao Charlie Hebdo. O autor especula sobre a possível eleição para presidente um muçulmano e das suas consequências. Eu que gosto de ler ficção científica e utopia, vibrei com esta leitura, pelo seu realismo e franca probabilidade de vir a acontecer, quem sabe se não mais cedo do que o previsto do livro 2022.

Na verdade, as guerras nos países de tradição islâmicas estão a provocar uma fuga maciça de refugiados  para a Europa que, logicamente, continuam  a praticar a religião em que foram criados, e vem aumentar drasticamente a percentagem  de crentes do islamismo no espaço europeu, que já não era pequena. Por outro lado, o descrédito cada vez maior nos partidos tradicionais de centro esquerda  e centro direita, que tem alternado o poder nas últimas dé cadas, está a criar uma deslocação dos eleitorados para as franjas e a permitir a emergência e crescimento de partidos que, até há pouco tempo, ninguém pensava, que alguma vez teriam qualquer expressão significativa.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A PRESENÇA DO SAGRADO




REGINA DINIZ



Devemos concentrar-nos no que queremos fazer...

Devemos concentrar-nos no que decidirmos escolher...



Quando uma pessoa percebe...

O sentido profundo da sua existência...

Deixa de perder tempo e energia...

Com situações confusas e disputas pessoais...



Uma vez que se percebe o plano divino...

O resto perde importância...



A presença radiante do sagrado...

Passa a iluminar gradualmente...

Os diferentes aspectos da vida diária...

Afinal quem somos?...



Várias vezes nos fazemos esta pergunta...

Voltamos nossos pensamentos para dentro do mundo interno?...



O grande desafio é reorientar...

O grande desafio é redefinir nossa personalidade...

Tornando-nos conscientes de que somos?

Que papéis interpretamos até agora?



Redimensionando nossas responsabilidades...

Redimensionando nossos anseios pessoais...



Ter desejos de crescimento espiritual...

É o que Deus quer para cada um de nós...

Esse é o estado natural...

Como criadores da nossa realidade...



A voz de Deus se faz ouvir no maior sentimento...

Que possa palpitar em nosso coração...



Deus nos responde ainda...

Através de suas leis perfeitas e justas...

Que impõem o progresso do ser...

E desenham a sua felicidade...



Observar as leis universais imutáveis...

Ação correta, verdade...