REGINA DINIZ
“Agressão e liberdade, entre
todas as ameaças aos interesses vitais do homem, a ameaça à sua
liberdade é de importância extraordinária, individual e socialmente. Em
contraposição à opinião amplamen- te admitida de que esse desejo de liberdade é
um produto de cultura e, mais especificamente, de um condicionamento de
aprendizagem, há amplas provas a indicar que esse desejo de liberdade é uma reação biológica do organismo humano. Um dos
fenômenos que apoiam este ponto de vista é o fato
de que, através da história, as nações e as classes lutaram contra os seus
opressores, à menor pos-sibilidade de vitória e, frequentemente, mesmo que não
existisse tal possibilidade." (Autor: Erich From – Livro: Anatomia da
Destrutividade Humana).
A história da liberdade é de luta
pela liberdade, uma história de revoluções, guerras de libertação dos hebreus
contra os egípcios, dos levantes nacionais contra o Império Romano, das
rebeliões dos camponeses alemães do século XVI, das revoluções americana,
alemã, russa, chinesa e vietnamita. Nota-se que haja um impulso inerente no
homem para lutar pela liberdade está no fato de que a liberdade está no fato de
que a liberdade é a condição para o pleno desenvolvimento da pessoa, de sua
saúde mental e de seu bem-estar: a ausência dela torna o homem aleijado e é
mórbido.
A liberdade é um interesse
biológico vital do homem e as ameaças à sua liberdade provocam uma
agressão defensiva como o fazem todas as ameaças aos interesses vitais. É
surpreendente, portanto, que a agressão e a violência continuem a ser
produzidas num mundo em que a maioria esteja privada de liberdade,
especialmente em relação aos povos dos chamados países subdesenvolvidos? A
verdade é que as pessoas desejam não só o que é necessário a fim de
sobreviverem, não só aquilo que fornece a base material para uma vida
confortável; a maioria das pessoas na nossa cultura – e em períodos idênticos
da história - é voraz.
Realmente é voraz por mais
alimentação, mais bebida, mais haveres e mais fama. Sua voracidade pode
referir-se mais particularmente a um do que a outro desses objetos; o que todas
as pessoas têm em comum é o fato de que são insaciáveis e, daí, nunca se acham
satisfeitas. A voracidade é uma das paixões não-instintivas mais fortes do
homem, e é claramente um sintoma de vazio interior e de falta um centro dentro
da pessoa. É a manifestação patológica de fracasso em desenvolver-se
plenamente.
O problema da existência de Deus
é, portanto, único em toda a Natureza: ele saiu da Natureza, por assim dizer,
mas ainda está nela; é em parte divino e em parte
animal; em parte infinito, em parte finito. A necessidade de encontrar soluções
sempre renovadas para as contradições de sua existência, de encontrar forma
cada vez mais elevadas de unidade com a Natureza. Com os seus próximos e
consigo mesmo, é a fonte de todas as forças psíquicas motivadora do homem, de
todas as suas paixões, seus afetos e ansiedades.
A medida em que o homem é humano,
a satisfação dessas necessidades instintivas não é suficiente para fazê-lo
mentalmente sadio. O ponto arquimédico do dinamismo especificadamente humano está nessa
singularidade da situação humana da situação humana; o conhecimento da psique
humana tem de basear-se na análise das necessidades do homem resultantes das
condições de sua existência. Foram necessárias centenas de milhares de anos
para que o homem desse os primeiros passos dentro da vida humana; ele transpôs
uma fase narcisista de magia onipotente, de testemunho de totemismo e de
adoração da natureza até chegar aos primórdios da formação da consciência,
objetividade e sentimento fraterno.
O homem não pode viver
estaticamente porque suas tradições íntimas levam-no a buscar o equilíbrio, uma
nova harmonia, em vez da perdida harmonia com a natureza. Após satisfazer as
suas necessidades animais, ele é dirigido por suas necessidades humanas. Todas
as paixões e esforços do homem são tentativas para encontrar uma resposta para
a sua existência. Tanto a pessoa mentalmente sadia como a neurótica são
impelidas pela necessidade de encontrar uma resposta, e a única diferença está
em que uma das soluções corresponde mais às necessidades totais do homem,
sendo, portanto, mais conducente ao desabrochar de suas capacidades e de sua
felicidade do que outra.
A necessidade de unir-se a outros
seres vivos, relacionar-se a eles, é uma necessidade imperativa da qual depende
a saúde mental do homem. Essa necessidade está por trás de todos os fenômenos
que constituem toda a gama de relações humanas íntimas, de todas as paixões
chamadas amor no sentido mais amplo do vocábulo. É ser capaz de amar a vida e,
não obstante, aceitar a morte sem terror; tolerar a incerteza sobre as questões
mais importantes com que nos defronta a vida e, não obstante, ter fé em nossas
idéias e nossos sentimentos, enquanto são verdadeiros nossos.
O ser humano é capaz de estar
sozinho e, ao mesmo tempo sentir-se identificado com uma pessoa amada, com
todos os irmãos deste mundo, com tudo o que vive: seguir a voz da consciência,
essa voz que nos chama, porém não cair no ódio de si mesmo, quando a voz da
consciência não seja suficientemente forte para ser ouvida ou seguida. A pessoa
mentalmente sadia é a que vive pelo amor, pela razão e pela fé, e a que
respeita a vida e a do seu semelhante.
A consciência de si que o ser
humano tem: seus dons e talentos, sua capacidade para amar, para pensar, para
rir, para chorar, para admirar-se e para criar; sente que a vida é a única
oportunidade que lhe foi dada, e que se a perde terá perdido terá perdido tudo.
Vive em um mundo mais confortável e cômodo do que o que conheceram os seus
antepassados, porém dá-se conta de que, buscando cada vez mais comodidade, a
vida se lhe escapa por entre os dedos como areia. Não pode deixar de sentir-se
culpado por esse desperdício, por esta perda de sua oportunidade.
A obra Die Erziehung des
Menschengesch lechis, influiu fortemente
não apenas no pensamento alemão, mas também no espírito francês. Para
Lessing o futuro seria a era da razão e auto-realização, graças a educação do
homem, realizando-se, assim, a promessa de revelação cristã. Fichte acreditava
no advento de um milênio espiritual Hegel na realização do reino de Deus na
História, traduzindo a teologia cristã, assim, em filosofia material. Toda a
história passada é apenas “Pré-história”, é a história da auto-alienação; com o
socialismo, surgirá o reino da História Humana, de liberdade humana. A
sociedade sem classes, caracterizada pela Justiça, Fraternidade e Razão, será o
início de um mundo novo, para cujo advento se desenvolve toda a história
anterior.
O homem livre é o homem rico, não
no sentido econômico, mas no sentido humano. O objetivo do aperfeiçoamento do
homem é uma nova harmonia entre homem e homem, entre o homem e a natureza, um
desenvolvimento no qual a relação do homem com os seus semelhantes
corresponderá a sua necessidade mais importante. Atualmente o homem desenvolveu
a capacidade para pensar, imaginar, e a autopercepção, o que constitui a base
para ele transformar a Natureza e a si próprio.