quinta-feira, 24 de maio de 2012

A FORÇA AFETIVA DE INTERAÇÃO INTERPESSOAL

                 REGINA DINIZ

“Vivemos numa era em que esperar se transformou num palavrão. Gradualmente, erradicamos (tanto quanto possível) a necessidade de esperar por qualquer coisa, e o adjetivo do momento é instantâneo. Não podemos mais gastar meros 12 minutos fervendo uma panela de arroz, de modo que foi criada uma versão de dois minutos para microondas. Não podemos ficar esperando que a pessoa certa chegue, de modo que aceleramos o encontro.  Em nossas vidas pressionadas pelo tempo, o cidadão do século XXI  não tem mais tempo para esperar coisa alguma. Com o nosso culto à satisfação instantânea, muitos de nós teríamos perdido a capacidade de esperar.”( Laura Potter – English patience – Observer Magazine – 21-10-2007).

Parar de vez em quando com tudo é abrir um espaço de autodescoberta, é se dar um verdadeiro presente, é escancarar uma janela em nossas vidas totalmente agendadas. O prazer do relax resgatado na prática de uma simples caminhada, apreciando as árvores floridas, que nos alegram, admirando os pássaros que cantando nos dizem: - como a vida é bela!...Sentimos então nascer do fundo do nosso ser a força interior, condição fundamental para o renascimento da auto-estima, que depende da busca de felicidade, que nos oferecemos através do respeito afetivo por nós mesmos.

A maior batalha do ser humano é o crescimento interior, que se revitaliza pelas demonstrações de interesse pessoal, pela compaixão e carinho conosco, para depois exercitar esta força afetiva com as outras pessoas. Quando desejamos nos ouvir com atenção, surge uma longa exposição de novos pensamentos, esperanças e apreensões mais íntimas, que são os valores humanos não-negociáveis. Os valores capazes de tornar a vida mais feliz são os não-monetários, risquemos então os mercados de consumo.

“O homem é dotado de razão, é a vida consciente de si mesmo. Tem consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e das possibilidades de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra a sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com eles e com o mundo exterior”. (Erich Fromm – A Arte de Amar – Editora Itatiaia – Limitada – Belo Horizonte)

Embora a manipulação da personalidade proposta pela sociedade de consumo, seja de identificação restrita a objetos, aprisionando-a quase que totalmente, afastando-a de si mesmo, o ser humano reage. Esta prática milenar é muito conhecida... Atualmente, muitos países divulgam os bens capazes de tornar a vida mais feliz. Despertamos para o suprimento de bens, que só podem ser produzidos de pessoa para pessoa, de grupos para grupos, e só acontecem em ambientes de relações humanas intensas e íntimas, e afetivamente construtivas.

Através das interações humanas nota-se que a empatia, a colaboração e a cooperação são festejadas como os bens mais satisfatórios que podemos oferecer. A união é a maior vertente de felicidade e o mais poderoso anseio do homem. As forças afetivas de interação interpessoal conservam juntos a raça humana, o clã, a família, a sociedade.

“Se você modela a sua vida de acordo com a natureza, nunca será pobre; de acordo com as opiniões das pessoas, nunca será rico. Não há nada que nos provoque problema maior do que o fato de aceitarmos um rumor, pensando que aquilo que ganhou tão ampla aprovação é o melhor, e que, como temos tantos a seguir como bons vivemos pelo princípio, não da razão, mas da imitação. E, finalmente, por sua própria decisão de tomar a multidão como a coisa particularmente importante a evitar, já que quanto maior o tamanho da massa com que nos misturamos, maior o perigo”. (Lúcio Anneo Sêneca -4.a.C – 65 d.C.) – Livro: Da tranqüilidade da Alma - L&PM 2011 – Porto Alegre R.S.).

Meditar sobre possíveis rumos, quanto a sua destinação de como evoluir como pessoa não é tarefa fácil, mas facilitaria se ele admitisse ser interiormente uma pessoa construtiva, e portanto apta a sentir-se confiante no sentido positivo para investir  no crescimento de sua personalidade. Em nossos tempos, devido a I e IIa. Guerras e inúmeros conflitos constantes, o totalitarismo se sobressaiu e ele ficou com medo de acreditar em si mesmo. Desistir das multidões, olhar-se interiormente e escolher um plano de ação pessoal é seguir em frente.

Ao longo de milênios, todas as civilizações apresentaram-se fomentando o conformismo. Nunca foram incentivados os objetivos reais da educação, que é favorecer a independência interior, o crescimento da personalidade, e o refinamento da integridade. As culturas padronizadas têm como objetivo social principal eliminar a criatividade e a espontaneidade. Culturas em que encontramos desenvolvimento maior e apurado de individualidade, investem com seriedade na política da criatividade.

“Crescimento econômico sem investimento em educação não significa crescimento real. Ser a sexta economia do mundo, mas a 70º. em avaliações educacionais demonstra o abismo de desigualdade. Nestes tempos globalizados, de países e mercados sem fronteiras, o conhecimento é o maior patrimônio de uma nação. Em 2037, o sonho é vivenciar um Brasil de espírito empreendedor, inovador, colhendo os frutos de um grande investimento na educação de uma geração de jovens, que se preparam para ser líderes de uma revolução de idéias. (Efraim Filho – Deputado Federal – Fórum da Liberdade – Porto Alegre – RS – Zero Hora – 16/04-2012.)

É inadiável a solução de problemas históricos, investindo no combate à pobreza, na prevenção do uso de drogas e no combate a corrupção. Mas quando será que vamos acreditar nos planejamentos em médio e longo prazo? Não foi absolutamente nada planejado para melhorar os indicadores de desenvolvimento humano. Falam, sonham, mas não operacionalizam, sempre estamos pensando num futuro que não acontece nunca.

O Brasil precisa eliminar os fatores limitantes ao seu desenvolvimento, solucionando a ampliação de investimentos em saúde e educação. Os planejamentos não dizem respeito à decisões futuras, mas às complicações futuras de decisões presentes impreteríveis. Precisamos assumir as gerações de jovens hoje. O nosso amanhã depende da vontade política de hoje.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

PARTIR PARA A VIDA


Regina Diniz

A cidade à noite, pontilhada de diamantes luminosos...
Mas percebo-a pobre, suja, e doente.
No jogo da vida um consumindo o outro...
E a depressão surge como compensação destrutiva...

Eu quero colher conchinhas ao som do marulhar das ondas...

A vida cara demais, difícil demais, violenta demais...
Imploro o surgimento do impulso de superação...
Sinto a vibração destruidora de uns contra os outros...
Reconheço o sangue derramado no reino da desmotivação...

Eu quero admirar a lua refletida nas águas do mar...

Trânsito, poluição, sujeira, violência...
Quem inventou este modelo de vida?
Divertem-se com a nossa fragilidade emocional...
Cultura sádica ri da morte de nós mesmos...

Eu quero contemplar a brandura do infinito céu azul...

O ar irrespirável, barulho ensurdecedor...
É o coração pulsante da motivação materialista...
Objetos, possessões, dinheiro, consumo...
Vendemos a nossa alma ao diabo...

Eu quero inebriar-me com a beleza das flores...

Ouve-se, bebe-se, come-se só o discurso da depressão...
Cantam só o hino da superação das deficiências materiais...
Ouve-se esta canção em todo o planeta...
Matamos a essência da nossa alma para no apagar das luzes,
Não levarmos nada e nada e nada...

Eu quero ouvir o sussurro das águas que cantam o hino da vida...

A cultura está com febre alta e delira...
Espelhou-se na organização compulsiva das formigas...
Escapou o sentido do crescimento de nossa personalidade...
Partirei para a vida real de qualquer jeito...

Eu quero ouvir a sabedoria espiritual na madrugada solitária...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A MULTIDIMENSIONALIDADE DO CRESCIMENTO QUALITATIVO HUMANO

REGINA DINIZ


“Em apenas 1 ano, 2011 o número de guerras e conflitos armados triplicou e esse é o maior número desde 1945 = 20 guerras e 166 conflitos armados. Estas guerras e esses conflitos estão diretamente ligados aos recursos naturais, sobretudo à energia e às políticas de combustível fóssil dos Estados Unidos. Eles tem um império global para extrair recursos naturais. Eles acreditam apenas no crescimento quantitativo ilimitado, num planeta finito, é impossível, mas seus economistas mantém essa ilusão de crescimento quantitativo, que tem que prosseguir perpetuamente. ( Autor: Fritjof Capra – livro: O Tao da Ciência Física).

Em pleno século XXI, assistimos estarrecidos estes comportamentos bélicos, porque 20 guerras e 166 conflitos armados para se apropriarem  indevidamente do combustível fóssil, que já está se esgotando, é inexplicável. Todos nós desejamos que a natureza do nosso planeta seja respeitada e protegida. Precisamos de paz, e somente pela inclusão da consideração ética, e de uma economia totalmente ética é que avançaremos como seres humanos mais inteligentes e felizes.

Já descobrimos novas energias renováveis, e com grande esperança depositamos total confiança em práticas bem mais civilizantes. A voz maior em muitos países, neste século XXI, está na exigência de um sistema financeiro sustentável. Debate-se muito sobre a proteção dos ecossistemas, conservando os seus recursos naturais, respeitando as espécies, purificando os ares, limpando os solos, descontaminando as águas, porque dependemos deles para a sobrevivência de nossa própria vida.

“O que é sustentável numa sociedade sustentável, não é o crescimento econômico, ou a fatia de mercado, ou qualquer uma dessas coisas e sim - a rede da vida – da qual dependemos. O Desenvolvimento no sentido usado pelos biólogos, como um desdobramento multidimensional da vida, das nossas capacidades, não só econômicas, mas culturais, espirituais e intelectuais, então o desenvolvimento sustentável faz sentido”. (Autor – Fritjof Capra – livro: O Tao da Ciência Física).

O crescimento econômico contemporâneo é falso, porque notamos com clareza a cultura de consumo escondendo desesperadamente a pobreza. Compulsivamente, insiste em motivar uma personalização ao nível de objeto, afastando o homem de si mesmo. A sociedade de consumo é predatória, irresponsável, individualista, injusta nos processos de produção, sendo cruel e indiferente com a proteção ao meio ambiente, insensível às energias da fonte da vida.

O mundo inteiro debate outra maneira de avaliar a qualidade de atividade econômica, que seria comparar todos os recursos usados para produzir nossos sustentos e até que ponto eles nos dão qualidade de vida, satisfação e expectativa de vida. Há países que tem uma relação boa com o meio de vida ambiental e a qualidade de vida. Há modelos econômicos que parecem ter melhor cooperação e divisão, onde as pessoas têm mais consciência de seus limites ambientais.

O crescimento econômico quantitativo ilimitado (PIB) retrata o descaso cultural e social dos nossos tempos. Existem inúmeros indicadores mais significativos e informativos para mostrar o resultado do que está acontecendo na economia. O PIB não aborda indicativos culturais, espirituais e intelectuais, bem como escondem o custo dos danos ambientais, e também sonegam o triste custo das pobrezas sociais. Atualmente, torna-se um grande desafio propor novos modelos de formas sustentáveis de estar no mundo.

É imprescindível reservar tempo livre para si mesmo, para pensar, para escrever, para ter uma vida particular de pessoa humana, para ler, para interpretar a vida num mundo pensante, e não só se deixar escravizar pela cultura que valoriza só o crescimento econômico. Mostrar às crianças jardins coloridos de flores, caminhar à margem de uma lagoa, sugerir a apreciação no marulhar das ondas do mar, ensiná-las a perceberem a beleza da natureza que deve ser amada e respeitada. Então elas compreenderiam a rede básica da organização da vida.

Já acontecem mudanças de crescimento quantitativo para crescimento qualitativo em larga escala. O crescimento interior, a maturidade, a complexidade e a sofisticação intelectual estão com valoração ética superior ao crescimento quantitativo. A expressão cultura da sustentabilidade já está sendo aceita por transnacionais do mundo todo. O setor bancário, o setor industrial e o setor financeiro, todos têm departamentos de sustentabilidade, que é o mais importante de seu marketing. O desenvolvimento sustentável acredita no desdobramento multidimensional da vida, das nossas capacidades, não só econômicas, mas culturais, espirituais e intelectuais e é assim que o desenvolvimento sustentável faz sentido.

“O homem é sozinho e, ao mesmo tempo, relacionado com os outros. Ele é sozinho por ser uma entidade original, não idêntica a outrem, e cônscia do próprio eu como uma entidade independente. Ele tem de ficar sozinho quando precisa julgar ou tomar decisões exclusivamente baseado no poder de ser raciocínio. E, no entanto, ele não suporta ficar sozinho, desligado de seus semelhantes. Sua felicidade depende da solidariedade que sente com os outros homens, com as gerações passadas e futuras”. ( Erich Fromm – livro: O Medo à Liberdade – 14 edição – Zahar Editores – 1083)

A maior dádiva que o ser humano recebeu de Deus é a consciência de si mesmo, acompanhada da razão e da imaginação construtiva. O homem olha para o céu e descobre que a sua jornada é breve, e que devido a beleza inigualável da natureza, ela deve primar pela qualidade de interação com todas as outras criaturas. É intimado a prestar contas de si a si mesmo, sobre  as avaliações de seus atos.A nossa autoconsciência enlaçada a total independência, dotada de poderosos arquivos, que demonstram a capacidade de lembrar o passado, de visualizar o futuro dobram a responsabilidade pessoal e social. É a autoconsciência que através da razão nos permite compreender o mundo. É a autoconsciência que através da potencialidade da imaginação ultrapassa os limites dos próprios sentidos. O nosso destino é desenvolver nossas qualidades especificamente humanas.