REGINA DINIZ
“Todo
homem tem direito à subsistência: esta verdade fundamental de toda sociedade, e
que reclama imperiosamente um lugar na Declaração dos Direitos do Homem, pareceu ao Comitê ser
a base de toda lei, de toda instituição
política que se propõe extinguir a mendicância. Assim, cada homem tendo direito
à subsistência, a sociedade deve prover à subsistência, de todos os seus
membros que poderão estar carentes dela, e esta benéfica assistência não deve
ser encarada como um favor; é, sem dúvida, a necessidade de um coração sensível
e humano, o desejo de todo homem que pensa, mas é o dever estrito e
indispensável de todo homem que não está na pobreza, dever que não pode ser
aviltado nem pelo nome nem pelo caráter da esmola; enfim, ela é uma dívida
inviolável e sagrada para toda a sociedade”. (autor: Robert Castells – Livro:
As Metamorfoses da Questão Social – Uma
Crônica do Salário – Editora Vozes – 2012).
Aceitando
o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e
dos seus Direitos inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça
e da paz no mundo. Abertamente, a contemporaneidade admite que o
desconhecimento e o desprezo aos Direitos do Homem que conduziram a atos de barbárie
que revoltam a consciência da Humanidade e a possibilidade de um mundo em que
os seres humanos sejam livres para falar e crer, libertos do terror e da
miséria, que foi declarado como a mais alta inspiração do homem. Temos
consciência em proclamar a fé nos Direitos Fundamentais do Homem, na dignidade e
no valor da pessoa humana, na igualdade dos Direitos dos Homens e das Mulheres
instaurando melhores condições de vida aos excluídos (miséria extrema). A
contemporaneidade desrespeita violentamente os Direitos Humanos ao não debater
este problema social, que envergonha e marca-o como o mais atrasado de todas as
civilizações em todos os tempos.
Estamos
no limiar de um grande desafio no século XXI, qual seja manter o respeito à
dignidade humana. O direito à vida à vida é inato: quem nasce com vida tem
direito a ela. O direito a vida significa o direito à comida, às vestes, aos
remédios, à casa. O direito à dignidade humana pressupõe o direito ao salário
mínimo que o direito à existência. O Estatuto da Criança e do Adolescente têm a
proteção à vida e a saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas
que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso em condições
dignas de existência.
“Originalmente, o que prometiam os pensadores
da modernidade emergente era uma liberdade ativa, a liberdade de fazer as
coisas e refazê-las para melhor se
adequarem a existência humana. O que tinham em mente era a liberdade do ser
humano. Liberdade que tinha como elemento primordial a capacidade de dar às
coisas uma forma tal que os membros da espécie não fossem mais impedidos de
agir de acordo com o mais humano dos seus dons naturais: o poder de fazer
juízos racionais e se portar segundo os preceitos da razão. Era na capacidade
humana de agir, na capacidade coletiva da espécie de corrigir erros e descuidos
da natureza e os seus próprios erros e desleixos do passado que se esperava
encontrar um inabalável alicerce para a liberdade individual – liberdade de
seguir o caminho da razão, Só dentro da coletividade todo-poderosa o indivíduo
poderia ser realmente livre – quer dizer, não ser escravo de suas paixões e desejos
pré-humanos ou inumanos”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política
– Ed. Zahar – 2000).
O
ser humano na sociedade pós-moderna vivencia uma individualidade privatizada
que pensando com profundidade, significa essencialmente uma antiliberdade. Luta
desesperadamente para fugir à insegurança e incertezas que o assaltam. “Em 1993
Jacques Pradel diagnosticou – rompemos
com o tudo aprendido até então: que as emoções são sinais de fraqueza, que é
feio e errado chorar”. Por milênios foi cultuado o direito ao segredo que foi
esfacelado pelo direito à publicidade. Tornar público o que quer que desperte
ou possa despertar curiosidade virou o cerne da idéia de uma coisa ser do
interesse público.
As
pessoas ficaram sozinhas para resolver seus problemas e mergulharam na solidão.
Hoje, sabem que só podem contar consigo mesmas, com sua própria vontade e
determinação. Mas milênios de reflexão ética jamais poderiam ter sido
sepultados, ela sobreviveu acima da tudo. Surgiram novas interpretações que
procuraram vivificar o que era essencialmente correto, pois somos herdeiros de
vasto conteúdo ético. Atualmente, qualquer empresa dispõe de especialistas em
comportamento para fazerem a triagem em qualquer trabalho. Os valores éticos
são tão atuais como sempre foram.
“Descrevendo
positivamente o rosto, e não apenas de um modo negativo. O senhor lembra-se
daquilo que dizíamos: a abordagem do rosto
não é da ordem da percepção pura e simples , da intencionalidade que se
encaminha para a adequação. Positivamente, diremos que, desde que o outro me
olha, sou por ele responsável, sem mesmo ter de assumir responsabilidades a seu
respeito; a sua responsabilidade incumbe-me. É uma responsabilidade que vai
além do que faço. Habitualmente, somos responsáveis por aquilo que pessoalmente
fazemos. Digo, em Autrement qu’être, que a responsabilidade é
inicialmente um por outrem. Isto quer dizer que sou responsável pela sua
própria responsabilidade”. (Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ética e Infinito –
Edições 70, Ltda – Lisboa – Portugal -
agosto de 2010 ).
Não
restam dúvidas que o rosto do ser humano me faz uma exigência ética, perante a
qual só eu posso responder. Na realidade, quando alguém me dirige um apelo, a
resposta a esse apelo é sempre da minha responsabilidade, em todas as
solicitações, das mais simples às mais exigentes. Se alguém me diz bom dia devo
responder amavelmente. Se alguém me solicita ajuda para atravessar a rua,
cabe-me a mim ajudá-lo para atravessar a rua, cabe-me a mim ajudá-lo a
atravessar. Se alguém me pede um prato de comida, uma peça de vestuário, uma
palavra de conforto, sou a única responsável pela resposta.
“A
responsabilidade não é um simples atributo da subjetividade, como se esta
existisse já em si mesma, antes da relação ética. A subjetividade não é um para
si: ela é, mais uma vez, inicialmente para o outro”. (Autor :Lévinas - Livro - Ética e Infinito). Trata-se de
afirmar a própria identidade, do eu humano a partir da responsabilidade, isto
é, a partir da posição ou da deposição do eu soberano na consciência de si, de
posição que é precisamente a sua responsabilidade por outrem. A
responsabilidade é o que humanamente me incumbe, pois o meu dever, o qual não
posso recusar. Este encargo é uma suprema dignidade do único. Sou apenas na
medida em que sou responsável.
“Ninguém
esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio
cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente,
ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas
mãos estivessem ensangüentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das
finanças passaram de inveja pública a alvos de desprezo universal. Políticos
viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A
mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que
aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona.
Sem confiança o contrato social se dissolve e as pessoas desaparecem, ao se
transformarem em indivíduos defensivos, lutando pela sobrevivência. Entretanto,
nas margens de um mundo que havia chegado ao limite de sua capacidade de
propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos, e compartilhar a sua
vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para
encontrar novas formas de sermos nós, o povo. ( Autor: Manuel Cartells – livro:
Redes de Indignação e Esperança – Ed. Zahar Ltda - 1ª. Edição – Rio de Janeiro – 2013).
Np
início eram muitos poucos, mas em pouco tempo formaram-se redes de milhares,
que ganharam o apoio de milhões e que com os seus apelos justos, desejavam
recriar dentro de si a esperança de um mundo melhor para todos ultrapassando
ideologias e publicidades demagógicas, para se unir com propostas reais de
pessoas reais que foram reivindicadas. Fizeram uma grande
Descoberta
que se tornou realidade, surgiram as Redes Sociais da Internet, totalmente
autônomas, totalmente livres de governos e empresas, que há séculos haviam
monopolizado totalmente os canais de comunicação, implantando alicerces
profundos de seu poder. Chegou em tempo de articular mentes, recriar novos
significados existenciais, contestando o poder de poucos sobre muitos.
Compartilhando
no espaço público da Internet, unido-se com qualidade entre si, planejando
projetos a partir de múltiplas fontes de ser, formaram redes, e mediando as
suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se, e se ajudaram
em nome de Direitos Iguais para Todos. Conseguiram perceber que a dominação
ultrajante dos poderes constituídos estava totalmente acabada. Da segurança do
ciberespaço, pessoas de todas as idades passaram a ocupar o espaço público,
porque desejavam criar, ao reivindicar seu direito de fazer a história numa
demonstração de autoconsciência que sempre caracterizou os grandes movimentos
sociais.