REGINA DINIZ
“O
mundo enquanto invocado pela tecnologia é um mundo “desencantado”, um mundo sem
sentido próprio, porque sem “intenção”, sem “propósito”, sem “destino”. Nesse
mundo, “necessidade natural” é abominação e ofensa, à alta e poderosa
humanidade, e toda resistência da “matéria morta” não passa de constrição a ser
quebrada. De outro lado, desejos (bastando ser apoiados por recursos técnicos)
tornam-se direitos humanos que nada poderia questionar, nem se poderia
argumentar para eliminá-los – nem mesmo os desejos de outros humanos (se não
apoiadas por tais recursos). Na modernidade não existe nenhuma ordem do mundo
humanamente significativa... Este mundo destituído de valores, para o qual os
valores são super-acrescentados por escolha humana, é um mundo sub-humano, um
mundo de objetos, de coisas... É um
mundo sem homem, um mundo do qual o
homem se afastou deliberadamente e sobre o qual conseqüentemente ele é capaz
de impor sua vontade”. ( Autor: Louis Dumont – Livro: Essays ou individualism:
moderny ideology in anthropological perspective, University of Chicago Preses –
l986 – pág. 262 ). Citação de Zygmunt Bauman – Livro: Ética Pós Moderna - Ed.
Paulus São Paulo – 1997 – Brasil.).
A
crença de que o progresso social é produto do desenvolvimento econômico, cujo
objetivo é o aperfeiçoamento da sociedade faliu completamente, porque o
desenvolvimento econômico sem o investimento cultural é a razão de toda
desigualdade. A conseqüência de maior frustração social é que todos aceitaram
se comparar, como aceitaram a se medir, tendo como base a desigualdade de
condições. A pedagogia cultural deve centralizar a formação de cidadãos capazes de investir, e contribuir
para a harmonia social e não para a frustração pessoal e social.
É
possível escolher e apoiar a política governamental que elimine a pobreza. Os
indivíduos ambicionam muito mais do que serem pessoas rodeadas por coisas e por
objetos, bem como de serem manipulados para serem robôs de uma cultura que nega
a criatividade humana, desejam urgentemente o crescimento subjetivo. Ninguém
mais agüenta a política do medo cotidiano, mesmo porque é impossível prender os
marginalizados da cultura de consumo que é a população recalcada pela
desigualdade social. Atualmente a dor profunda de não ser, deu lugar à vergonha
de não ter.
“É
extremamente importante saber se a sociedade no sentido atual do termo é o
resultado de uma limitação do princípio de que os homens são predadores uns dos
outros ou se, pelo contrário, ela resulta da limitação do princípio de que os homens
existem para os outros. Será que o social, com suas instituições, leis e formas
universais, resulta da limitação das conseqüências da guerra entre os homens ou
da limitação da infinidade que se abre na relação ética de homem para homem? (
Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ethics and Infinity, pg. 80).
É
valioso recordar a pergunta de Moisés: - Caim onde se encontra Abel? Caim
respondeu indignado: - Serei eu o zelador de meu irmão? Afirmou que não era seu
dever cuidar do irmão. A Ética, por milênios e milênios, tem divulgado que a
conduta deve primar por objetivos solidários, ou seja, a benevolência entre as
pessoas não será moral, se não for desinteressada. Um ato é eticamente moral,
quando ele expressa a manifestação de humanidade impensada, espontânea e
principalmente irrefletida.
A
ética pressupõe que o ser humano sempre deve estar em primeiro lugar, todos
cuidando de todos com responsabilidade. É incompreensível as moralidades atuais,
que são guiadas pelas expectativas de lucro, conforto, notoriedade, reforço do
ego, aplauso público ou qualquer outro tipo de promoção. A razão crucial pela demanda ética, aquela
motivação “objetiva”, o ser moral que resulta do próprio fato de estar vivo, e
compartilhar o planeta com outros seres vivos é o que deve ser, é o que deve
ser multiplicado e não permanecer silenciosa. O outro nos obriga a nos
preocuparmos por sua fraqueza e não pelo seu poder.
“A
cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e
na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda,
sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A
expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que
a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto
quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão,
como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O
sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de
consumo, entre todos espalha a febre
compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura
começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter
coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas, que geram novas
dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo
delitos. O direito ao desperdício, que é privilégio de poucos, afirma ser a
liberdade de todos.( Autor: Eduardo Galeano – Livro:O Império do Consumo).
As
pessoas que aderiram a sociedade de consumo foram condenadas a insônia, pela
ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida destrói as
pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade
dos calmantes, e demais drogas químicas
que são vendidas legalmente ao mundo. Nunca existiu em nosso planeta uma
proposta de mercado tão violenta e atrasada: a diversidade é inimiga da
rentabilidade e a uniformidade é que manda. Os séculos futuros ficarão
horrorizados com tamanha decadência.
A
produção em série, em escala gigantesca impõe em todas as partes suas pautas
obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformidade obrigatória é devastadora. Os ideólogos da Sociedade
Consumista sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a
solidão. Isolaram os seres humanos, silenciaram a interação, tornaram-se
facilmente escravos das coisas.
Mas
as coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem,
ajudam, o perfume beija as pessoas e o carro é o maior amigo que nunca falha. A
cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
“A
sociedade humana é diferente do bando de animais. Nela alguém poderia ajudar
um inválido a sobreviver. É diversa
porque tem condições de conviver com inválidos, tanto que poderíamos dizer,
historicamente, que a sociedade humana nasceu com a compaixão e com o cuidado
do outro, qualidades apenas humanas. A preocupação contemporânea está toda aí:
levar essa compaixão e essa solicitude para a esfera planetária. Sei que
gerações precedentes já enfrentaram essa tarefa, mas vocês terão de prosseguir
nesse caminho, gostem ou não, a começar por sua casa, por sua cidade, e já. Não
consigo pensar em nada mais importante que isso. É por aí que devemos começar”.
( autor:Zygmunt Bauman – Livro: Confiança e Medo na Cidade – Ed. Jorge Zahar – Rio de Janeiro –
2009).
Todos
nós buscamos uma forma de desenvolvimento, mais humanitária, ética e próspera,
incluindo os seres humanos no crescimento pessoal e social, mas necessitamos
fazer a nossa parte, como membros de uma sociedade evoluída. Com simplicidade,
podemos meditar profundamente, conosco e com os outros, e nos motivar a
participar ativamente na construção de um mundo mais justo. A intolerância
social e a pobreza extrema poderão ser resolvidas nos aproximando construtivamente
de nós e de outras pessoas amigavelmente.
Qual
é o benefício maior, que a prática da compaixão nos oferece? Ela nos traz força
interior. Todas as experiências negativas se tornam muito dolorosas.
Curamo-nos, quando nos lembramos dos outros afetivamente através de pensamentos
positivos porque a nossa mente se amplia, e os nossos problemas se apequenam
trazendo a paz duradoura. Quando procuramos consolar o sofrimento de nossos
amigos, essa atitude voluntária abre as
portas para o ser .Mesmo que emaranhada por problemas pessoais, esta atitude
afetiva nos traz uma base de clareza, e a pessoa terá força para se sustentar.