sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A CONSAGRAÇÃO DA VIDA REAL

Regina Diniz

Já se tornou um lugar-comum a sensação de viver em um perpétuo presente, como uma característica inerente à contemporaneidade. O assunto foi muito debatido nas duas últimas décadas do século XX, como um dos traços do pós-modernismo: um debate marcado pela descrença na linearidade do progresso, pela crise dos grandes projetos sóciopolíticos modernos e do sentido histórico e inclusive, pelo suposto fim da história graças à consagração de um presente eterno e imutável.( Paula Sibilia – Livro – O Show do Eu - Editora Nova Fronteira S.A. 2008)

Anteriormente, era proposto o passado em direção ao futuro. Com o advento da pós-modernidade, foi bloqueado e congelado o futuro, surgindo o presente com objetivos perpetuantes. Mas contraditoriamente, relatos da história pessoal não desapareceram. Aumentaram as viagens auto-exploratórias, tornaram-se viáveis as escavações no próprio eu. Foi valorizada a história individual, e mais do que nunca nasceu uma subjetividade mais fortalecida, valorizando as conquistas valorativas do passado.

A explosão mundial dos blogs, o sucesso de biografias e autobiografias demonstram um sólido interesse pela vida real, tanto do presente como do passado. Impera o subjetivo, demonstrado abertamente, pela vontade de ser diferente do padronizado. Neste comportamento percebe-se, claramente, nas mensagens publicitárias, que já se tornaram uma arma da sedução consumista.

O que se cria nas praias virtuais são “identidades de férias”. São formas subjetivas com regras mais frouxas e flexíveis, que por isso permitem “descarregar-se um pouco do peso da própria vida, dar-se uma nova oportunidade”. (Lejeuve, Philippe. Cher écran... journal personnel ordinateur, Internet. Paris : Seuil, 2000) citação feita por Paula Sibilia no livro O Show do eu). O admirável nestas biografias e auto-biografias, é a aspiração de criar um eu, escavando nos próprios alicerces interiores do passado, e refinando-os no presente. Em todos estes relatos procuram interpretar o sentido da vida.

Já que os valores dominantes em nossa sociedade reduzem-se, para a maioria das pessoas, a ser estimado, aceito, aprovado, grande parte da ansiedade de nossos tempos advém da ameaça de não ser querido, viver isolado, solitário, abandonado. (Rollo May: O Homem à Procura de Si Mesmo – Editora Vozes – 2005). O passo fundamental para enriquecer a interioridade é exercitar a atitude de vivacidade e decisão. Talvez esta pergunta: - Reconheço a responsabilidade pela qualidade de minha subjetividade? Cada um de nós vem com competência para fazer suas próprias opções fundamentais, para aperfeiçoar-se, fortalecendo-se para compreender a vida.

Todos nós almejamos uma percepção mais profunda do significado de nossa existência e do sentido das nossas possibilidades. Acredito que o maior desafio seja escolher valores construtivos. Auscultar a própria pulsação e fazer-se valer, jamais admitindo jeitos de ser que agrida a si próprio e a outros indivíduos. Realizar-se para desenvolver o uso das potencialidades e trabalhar como um ser humano digno.

É necessário empenho para pensarmos em ideais mais positivos, e projetarmos uma cultura, alicerçada no respeito pessoal. É importante admitir que muitos indivíduos dependem de nós para adquirirem coragem, para serem autênticos e se afirmarem em suas convicções.

O que nos falta, atualmente, é a compreensão da coragem amigável, cordial, pessoal, original de um Sócrates ou Spinosa. ( Rollo May – O Homem a Procura de Si Mesmo – Editora Vozes 2005). O tom ideal de coragem, em nossa época de conformismo, é a habilidade para conservar-se firme nas próprias convicções, naquilo que realmente acredita. A coragem para ser e confiar em si mesmo, significa amar, pensar, criar, apesar de possíveis erros. É imprescindível o relacionamento criativo com a sabedoria do passado.

Novas atitudes requerem novas conscientizações. O mundo está mudando. A escolha das biografias e autobiografias, somente com abordagens da vida real, mostra o gigantesco salto que a humanidade deu. É inacreditável. Através da Internet, constatou-se uma explosão de maturidade emocional e social. As manipulações de massa perderam espaço. A padronização sofreu uma grande derrota.

Ainda não temos projetos grandiosos, mas podemos modificar antigos conceitos. Criar um plano de aproximação amigável com as pessoas, um que possa ser exercido sem subjugá-las. Avistamos a possibilidade de compartilhar mais, ampliando nossos relacionamentos em nível de igualdade. Sejamos corajosos e confiemos no conhecimento que existe em nosso coração.

Cada vez que surge uma nova direção em nossa vida, estamos recebendo uma nova oportunidade de crescer. Às vezes começamos quase sem notar, levados por um sonho, uma leitura ou uma conversa. Em qualquer escolha que façamos, podemos estar sendo desafiados a evoluir.

Quando sentimos necessidade de mudar, devemos reconhecer que teremos à frente trabalho duro, escolhas difíceis e algum sofrimento. Grande parte do nosso trabalho já está em andamento em nosso interior. Bastará uma faxina espiritual, uma absoluta honestidade sobre nossos motivos, e poderemos realizar as mudanças que desejamos. Onde estamos é o lugar em que fomos destinados a estar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O MISTÉRIO DAS ESCOLHAS

Regina Diniz

Silenciosa e enigmática,
A Igreja de Caravagio,
Lugar sagrado,
Abençoa Farroupilha.

Do sexto andar de um edifício,
Contemplo-a ao alvorecer,
Quando os primeiros raios de sol,
Iluminam aquele grande recinto de fé.
Magicamente, sou invadida,
Por um forte desejo de mudar,
De pensar diferente.
O santuário me sugere sutilmente,
Que posso construir uma vida,
Plena de emoções puras,
E de ampla expressão...
Aprecio a tranqüilidade criativa.
Sinto que hoje o meu dia
Será cheio de esplendorosa busca,
Do meu ser interior.
A minha mochila emocional
Está cheia de inesquecíveis lembranças.
Hoje aprimorarei os meus rituais
Da compreensão infinita do meu destino de ser.

As devoções são cruciais,
Quero Deus me protegendo.
Contemplo o meu mundo,
Contemplo a minha fé...

As seis horas, numa corrida pausada,
Inicio a subida de uma rua,
Colorida de amor perfeito...
A beleza é tanta que me encanta,
A mensagem de delicadeza destas flores,
Suaviza o meu coração,
Motivo-me de alegria...
Esta comunidade sabe muito
Sobre poderosos jogos psicológicos,
Aqueles que driblam
As inevitáveis derrapagens na estrada da vida.
Prestam atenção e dão importância
Aos tombos ocasionais,
No áspero cotidiano dos nossos tempos.
O termômetro do município marca três graus.
O inverno caiu como uma guilhotina,
É o frio mortal do mês de julho.
Há três quadras do edifício que me hospedo,
Surge outra catedral lindíssima...
É a Igreja de São Pedro,
Incrustada, imponentemente, neste local,
Rodeada de floreiras com amor perfeito.
Não resta dúvida,
É um grande espaço de devoção.
A religiosidade é um grande pilar de força
Dos habitantes desta cidade.
Num canto do logradouro,
Construíram um abrigo para usuários de ônibus,
Coberto e com banheiros extremamente higienizados.
Esta cidade transborda de humanismo.
Acreditam que a pessoa é possível.
Ganharam o meu coração,
Reconforto-me...
Vejo que os caminhos da purificação são viáveis...
Contorno o Templo correndo,
Olhando-o, ouço-o, perguntando-me:
- O que você sabe de ti mesmo?
- Descobriste alguns sinais da magnitude dos significados da vida?
Respondo-lhe:
- Procuro iluminar a minha alma,
- Quero fazê-la brilhar como as estrelas...

A busca do próprio destino
Peregrinação necessária
À formação do espírito,
Impera a força do subjetivo...

Continuo correndo ao redor da igreja,
E pergunto-me:
- Porque são tão raros os Spas exotéricos?
Corri tanto atrás das verdades envernizadas,
Mas agora vejo que muito pouco me adiantou.
A ostentação cognitiva,
O narcisismo dos meus tempos,
Acertou-me em cheio...
Mas sempre é tempo de mudar a direção.
Preocupei-me muito com os outros,
E esqueci de mim mesma...
Medo de assumir-me afetivamente,
Ou medo de ter idéias próprias,
Só minhas...
Que coisa séria!
Como pude consentir,
Que as pessoas me envolvessem tanto...
Perderam precioso tempo comigo,
E eu desperdicei excelentes oportunidades,
De conhecer-me melhor...
Não valorizei o autoconhecimento...
Hoje eu entendo o porquê
De frustrações inexplicáveis...
Hoje eu entendo o porquê,
Das águas serem tão geladas,
Quando batem em meu coração...
Tudo está mais claro.
Devo partir em busca da verdade,
Além das aparências,
E defender sempre,
A minha santa rebeldia.

Purificar a meditação...
Purificar o imaginário...
Aprimorar a busca,
Da morada de Deus.

O mundo dos meus sonhos
Seria habitado só por pessoas criativas,
Que primam pela autodescoberta,
Que corajosamente assumem posturas renovadas.
Sinto forte motivação,
Para buscar mistérios secretos.
Em lugares comuns,
Ou em lugares singulares.
Detesto a cultura padronizada.
São exércitos que abdicaram de crescer.
A passividade custa muito caro,
A pessoa explode de ira represada.
É todo mundo bloqueando todo mundo.
Impera um silêncio assustador.
Ninguém fala nada,
Não têm passado e nem presente,
O futuro é desértico.

O encontro com Deus
Redimensiona a vida.
A religiosidade
É a pureza que motiva.

Um padre abre a porta principal da igreja.
Rajadas de vento tornam o frio mais frio...
Silenciosamente começam a chegar,
Dezenas de pessoas de todas as idades,
Muito bem agasalhadas,
Usam mantas para amenizar o frio intenso.
Procuro ler os traços emocionais destas pessoas.
Tento descobrir a coloração de suas personalidades.
Percebo um olhar de dignidade,
São todas as idades plenamente realizadas.
São seres humanos dedicados,
São indivíduos humanizados.
Sou atraída pela angelitude da Ave-Maria
Cantada por uma senhora.
Do meu peito brota
Uma emoção de intenso júbilo,
A qual invade o meu ser.
Entro na igreja para assistir a missa.
Os aconselhamentos do padre são afetivos.
As exortações são feitas para tocar o fundo daqueles corações,
Que buscam o néctar da imortalidade,
Através da sabedoria espiritual.
Entendo-os como se dissessem:
- Queremos vida boa, limpa e com fé.
Entendo-os como se dissessem:
- Acreditamos na cura da alma
- Pelo trabalho árduo e benéfico.
É uma jornada
A caminho da iluminação.
Querem escapar do materialismo,
E entrar na vida virtuosa.

O silêncio místico
Celebra um Deus em particular.
O homem mostra a devoção
Em santuários sagrados...

O padre pregou com maestria
Sobre a piedade, que fortalece as emoções,
Junto com a caridade evangélica.
Dissertou sobre o malefício do ódio.
Insistiu que só a união na benevolência,
Eleva o homem perante Deus.
Era necessário auscultar o próprio coração...
Eram as escolhas corretas e desafiadoras,
Na batalha perpétua entre o bem e o mal,
Que deveriam ser relembradas,
Em todos os dias de nossas vidas...
O ministro de Deus conclui afirmando:
Que só o bem emerge triunfante,
Em todas as situações.
Tudo o que foi dito,
Era tão real,
Que não era real.
Todos em pé, transbordando muita fé,
Recitaram a oração da Ave-Maria.
Em seguida em coro suplicaram:
- Senhor tende piedade de nós...
Ali não havia dúvidas,
Sobre o complexo significado da vida...
Saíram felizes da Igreja de São Pedro.
Eram heróicos sobreviventes de uma época.
Não se amarguravam com a vida,
O que é uma vitória enorme.
O etéreo é que salva
A minha alma errante,
Que necessita beber nestes mananciais da fé
O puro, o elevado, o celestial.
Todos foram embora para suas casas.
Fiquei admirando os jardins da igreja,
Agora que clareou o dia,
E vejo os pés de amor-perfeito
Bem de perto...
Percebo-os orvalhados...
Este quadro me seduz.
Uma lufada de delicadeza gratifica-me.
É o milagre do estético magnético.
Nas muretas defronte a igreja,
Alguém escreveu:
“Paz, amor, empatia,
Tente sempre melhorar
Para você não ser mais um”.
Ao chegar da minha corrida um jovem gravava,
Na parede do edifício, esta mensagem:
“Existe, então resista e persista”.
Então digo para mim mesma:
Que esta cidade é a capital da Fé,
Em dias melhores...

Verdades:
Pensamentos
Palavras
Ações

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O SENTIDO DE FORÇA INTERIOR

Regina Diniz

O conformismo de autômatos é a solução, que a maioria dos indivíduos normais encontra na sociedade moderna. O indivíduo cessa de ser ele mesmo; adota inteiramente o tipo de personalidade, que lhe é oferecido pelos padrões culturais e, por conseguinte, torna-se exatamente como todos os demais são, e como estes esperam que ele seja. A divergência entre o eu e o mundo desaparece e, com ela, o temor consciente à solidão e à impotência. A pessoa que desiste de seu ego individual e converte-se em autômato, idêntica a milhões de outros autômatos, em torno dela, não mais precisa sentir-se sozinha nem angustiada. O preço que ela paga, porém é alto: é a perda de sua individualidade. (Livro: “O Medo à Liberdade” – Erich Fromm – Zahar Editores – Rio de Janeiro – l983).

A interpretação de que o melhor jeito de enfrentar o mundo exterior é tornar-se um autômato, resulta num erro terrível, porque faz oposição frontal às idéias divulgadas e exigidas pela área humana comportamental contemporânea, a cerca do homem ideal. Atualmente, é idealizada uma personalidade com fecundidade criativa de pensar, agir e sentir. O individualismo moderno surgiu e se espalhou rapidamente, sendo uma exigência de sobrevivência pessoal e profissional. O trabalho braçal, não pensante, foi radicalmente substituído pelo avanço das máquinas da cultura industrial.

É indiscutível, que somos nós que tomamos as decisões. Há milênios o mundo exige o uso racional de nossos bilhões de neurônios. Ficou para trás o tempo de se conformar com as expectativas de outros. A inteligência criativa não nos leva ao isolamento, ao contrário ela nos dá liberdade e conforto emocional para evoluirmos como pessoa.

O conformismo de autômatos deixa o indivíduo em estado de intensa insegurança. A própria identidade é o maior patrimônio de ser humano. Perdê-la é catastrófico. Eu procuro, nutro, recapturo a minha identidade, privilegiando a minha aprovação e o meu reconhecimento. Luto tenazmente para descobrir e manter o meu eu original, seguidamente estou renovando o meu olhar sobre as minhas metas existenciais de ser.

O foco de resistência ainda mais sério, e que está presente em toda a sociedade ocidental moderna, é o da necessidade psicológica de evitar, e de em determinadas formas, reprimir todo o interesse em “ser”. Ao contrário de outras culturas que parecem muito dedicadas ao fato de “ser”, particularmente a indiana e a asiática oriental, e a outros períodos históricos em que esta identidade foi importante. A característica de nosso período no ocidente, conforme citou Marcel, com precisão, está exatamente na falta dessa consciência do “senso ontológico”, o sentido de ser generalizado, o homem moderno encontra-se nessa condição; se ele se sente incomodado por quaisquer exigências ontológicas de ser, torna-se insípido como um impulso obscuro.( Gabriel Marcel, The Philosophy of Existence – l949 – pág. 1)

Essa perda do senso de ser está relacionada com as tendências coletivistas de massa e o conformismo generalizado de nossa cultura. Eu sempre me pergunto, se uma tese mais profunda aparecerá para desnudar os efeitos psicológicos doentios da repressão desta emoção de crescimento pessoal, e da recusa desta necessidade de identificação interior. Em avaliações permanentes de minhas características de busca, procuro identificá-las, pelo valor intrínseco ou significativo que me gratificam, para conseguir qualidade para a autoconsciência.

Ser é aquilo que permanece. É preciso parar para pensar antes de decidir. Dotados de consciência, por isso somos responsáveis pela nossa própria existência. Tornar-se cônscio do próprio ser, do próprio pensamento, nos distingue de outros seres. Estamos permanentemente, passando por atos de ir adiante, para ser alguma coisa, para descobrirmos algo novo, no vasto território do Ser.

O estado de ser é o nosso sentido de força interior, que cada um de nós tem e se torna naquilo que realmente conseguiu alcançar. O fantástico é que temos de estar conscientes de nós mesmos, de nossos atos e sermos responsáveis para sermos nós mesmos.

O indivíduo, com auto-estima saudável, percebe a sua visão de mundo independente do contexto. No caso da pessoa com baixa auto-estima, seu valor pessoal depende do contexto. Mas todas as nossas resoluções são apreendidas em estado emocional, que certamente se modificarão com a mente centrada, no aqui e agora, estamos constantemente coletando novas informações. Esta sofisticação de interpretação nos leva a compreender, que nós todos devemos reformular o contexto para melhor. Correntes e correntes de idéias fluem em torno de nós, e estão sobrecarregadas de razões para reformulação de metas, e para introdução de novíssimas opiniões para maior percepção de nós mesmos.

Acho possível acreditar, que posso ficar mais habilidosa, só em pensar assim aumenta este meu desejo, que exerce um efeito muito positivo no aumento de minha auto-estima. Somos seres únicos com missão a concretizar, e quando menos esperamos somos convocados para renovar, mudar e enriquecer situações. O tempo é especializado em reformas.

Nós somos destinados a ser. Devemos rejeitar totalmente o conformismo de autômatos. Compreendemos a medida que avançamos, e cada nova habilidade de visualizar a vida, lança um olhar mais rico sobre nossos planos de evolução pessoal e espiritual. O crescimento do ser humano é maravilhoso. Aprendemos, repartimos experiências, reformulamos conceitos e renovamos valores.

Precisamos, acima de tudo, nos fazer inúmeras perguntas sobre valoração ética, partindo daí, os horizontes da vida vão se abrindo, nos mostrando o céu, Deus e a nossa felicidade, mas para tanto é necessário empenho. Os valores espirituais dormitam dentro de nós e despertam em seqüências inumeráveis. E cada vez que isso acontecer, mais luz, mais vida se aglomerará em nossos corações. São infinitos os horizontes da vida que nos levam à felicidade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A VELHA GOIABEIRA

Regina Diniz

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio o pôr do sol...
Estou completamente livre das pressões civilizadoras,
Disposta a dedicar um tratamento prestigioso a mim mesma...
Decidida a oferecer às pessoas um diálogo qualificador...

Neste silêncio descubro o desejo de algo novo...
Creio num mundo mais humano...

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio o lago azul...
E vejo que posso refinar o nível das minhas paixões e afetos...
Que são as fontes de minha força de viver,
Tenho consciência de que tudo é comigo mesma e com os outros...

Neste silêncio busco energias psíquicas curativas...
Sinto formas mais elevadas de relacionamento...

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio as curvas do horizonte...
Não mais sinto o peito apertado por temores e desconfianças,
Vejo que fluem os meus impulsos criadores,
É esta singularidade fantástica que percebo...

Neste silêncio integro-me a diversos estímulos subjetivos...
Desvendo o meu autoconhecimento...

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio a montanha sempre verde...
Usufruo a alegria profunda de vivenciar a tranqüilidade,
O caminho é pelo encantamento da capacidade construtiva,
Meu coração arfa de júbilo...

Neste silêncio procuro soluções emocionais...
Vislumbro a real realização humana...

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio a beleza da natureza...
Sempre me assustei com as grandes paixões contemporâneas,
Tremo com medo da sede de poder e de vaidade,
Grandes isoladores da paixão de amor e fraternidade...

Neste silêncio formulo hipóteses de autoconfiança espiritual...
Cultivo humildade diante da grandeza de Deus...

Sentada à sombra desta velha goiabeira aprecio a riqueza do silêncio...
A grande rainha é a razão e não a loucura,
Quero paz para trabalhar criativamente,
Nada existe de maior valor do que idéias de qualidade...

Neste silêncio respeito os meus próprios sentimentos...
É preciso uma sociedade mais sadia...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O VALOR DAS TRANSFORMAÇÕES EMOCIONAIS

Regina Diniz

A figura criada por Platão e consagrada pelos tempos: “Existem no inconsciente diversos corcéis, que mordendo os freios, procuram disparar em diferentes direções”. O nosso inconsciente é um verdadeiro mar de “impulsos”, que se atropelam para se expressarem no mundo exterior. Pulsões positivas e pulsões negativas estão de plantão para serem concretizadas.

A liberdade de escolha nos foi ofertada, entretanto acertar a direção de nossas opções, é um desafio criativo, que impõe elevada compreensão. Este processo seletivo de nosso inconsciente indicará a alternativa correta. O ideal é aprovarmos as formas positivas e nos abstermos das formas negativas.

Esta decisão pessoal flui, quando ponderamos com dedicação em possibilidades sadias de ser. Acredito que as formas neuróticas surgem em situações muito tensas, que levam a pessoa a enganar a si própria. É preciso treinar jeitos contra a prática da derrota de si mesmo. É necessário descobrirmos maneiras de usarmos formas de comportamento socialmente saudáveis, que são totalmente a favor da saúde de nossas emoções.

Nunca me canso de fazer coleções e coleções de alternativas construtivas. Só eu poderia decifrar de fato os meus erros existenciais, para conseguir agir corretamente. Em auto-avaliações, notei que me repetia em atitudes, que se voltavam contra mim mesma, e que muito me constrangia. Descobri que a transformação de caráter era possível e durava a vida inteira.

Se nos compreendermos de fato, atuaremos a nosso favor. É atualíssima a velha máxima socrática: “Saber é fazer”, e “O conhecimento conduz à virtude”. É possível através de uma reflexão de qualidade nos identificarmos com a vontade positiva, e desta forma nos apropriarmos de uma energia extra, que supere a vontade negativa.

Aprendemos a construir uma vontade de coragem, que se apossa do lugar do desespero, eliminando-o. Através de afirmações especificas de coragem, impulsionamos energias saudáveis, que trabalham forças profundas de nossa interioridade até então adormecidas. Trabalhamos, inconscientemente, em mudanças diárias, no manto de nossa personalidade. A nossa responsabilidade final é interagir em prol de nossa própria salvação.

Alguns pensadores afirmam, que começamos a desenvolver a nossa personalidade como seres psicológicos, outros pensadores afirmam, que iniciamos o nosso crescimento como seres transcendentais. De um jeito ou de outro, o simples meditar sobre a nossa própria identidade, significa que já estamos empenhados no desenvolvimento de nossa autoconsciência. Tornar-se pessoa é a experiência mais simples e mais profunda de nossas vidas.

“Entre as obras do homem, que a vida humana se dedica a aperfeiçoar e embelezar, a mais importante é com certeza o próprio homem”. (John Stuar Mill). Quanto mais investimos em nossas potencialidades, tanto mais admitimos a existência profunda da alegria, que é a esperança do ser humano. A alegria é o objetivo maior da vida, pois é a emoção, que sempre está presente nas realizações da nossa natureza como seres humanos.

Todos nós percebemos, que coisas não são capazes de nos tornar felizes. Só um bom coração e uma consciência pura podem fazer isso. Muitas vezes, sem saber porque acreditamos que o entesouramento de objetos seja algo muito importante. É um terrível engano.

O mais misterioso sobre os tesouros de nosso desenvolvimento pessoal e espiritual é que eles são incontáveis, ilimitados, auto-renovadores, inesgotáveis. Temos o poder pessoal de definir a qualidade da nossa mente e a direção que nossos atos tomarão. Primeiro devemos definir a alternativa construtiva como bússola, para depois dar os primeiros passos no caminho escolhido.

As nossas idéias determinam a qualidade de nossa criatividade. Quando as nossas construções mentais são negativas, nossos êxitos são poucos. Se desejarmos, podemos nutrir positivamente nossos pensamentos.

Aonde quero chegar? O que desejo ver? O que desejo colher? O que desejo amealhar em termos de crescimento humano? A auto-avaliação positiva e conversas estimulantes com nós mesmos, tornam-se um hábito, quando é grande a vontade de descobrir e viver à altura de nosso potencial de seres abençoados pelo desenvolvimento de ser. As expectativas que abrigamos na privacidade de nossos sonhos, resultam na aprendizagem que fazemos hoje e sempre. Tudo pode mudar num cintilar do olho da mente. A nossa destinação de evolução pessoal e espiritual é maravilhosa.