REGINA DINIZ
Eduardo
Gianetti lança Trópicos Utópicos em Porto Alegre após publicar sete livros e
dois deles premiados com o jabuti, o professor economista Eduardo Gianetti
chega ao oitavo, Trópicos Utópicos
--Companhia das Letras com uma mensagem otimista, a de que existe, sim,
uma utopia mobilizadora da alma brasileira capaz de confirmar o Brasil como o
país do futuro. Os ensaios buscam identificar a crise civilizatória que acomete
nossos tempos, destrinchar as ilusões, que alimentar e ainda esboçar uma saída
para o problema, sob a perspectiva brasileira.
O
livro Tópicos Utópicos á apresentado como perspectiva brasileira sobre a crise
civilizatória. As três primeiras partes são uma tentativa de mostrar o que há
de errado no mundo moderno. Uma expectativa ilusória que se criou sobre a
capacidade da ciência de elucidar o mistério da condição humana, uma ilusão
muito poderosa em relação a capacidade da tecnologia de controlar a natureza em
benefício do homem e por fim, uma terceira ilusão, de que o crescimento
econômico proporcionaria uma vida mais livre, feliz e digna de ser vivida de
maneira indefinida. A crise civilizatória engloba esses três pontos. A crise a
essas três ilusões da modernidade parte de um ponto de vista brasileiro.
O
Brasil tem na sua cultura, graças a suas raízes não ocidentais, um doce
sentimento e uma capacidade de celebrar a vida que independe da lógica e da
razão científica. Temos um patrimônio ambiental único, o que nos confere uma
enorme responsabilidade em relação à crise ambiental e uma disposição amável e
amigável, que realiza muito o que podemos esperar do crescimento e da renda
como fonte da realização humana.
Tivemos
período de florescimento e euforia econômica cultural na segunda metade dos
anos de 1950, com bossa nova, Brasília, industrialização, Cinema Novo, que se
perdeu logo no início dos anos 1960, que se perdeu logo no início dos anos de
1960 com renúncia de Janio, crise fiscal, inflação e golpe militar. Depois tivemos,
em pleno regime militar, um momento de grande otimismo com a idéia estapafúrdia
do Brasil potencia do milagre econômico. A idéia do Ame-o ou Deixe-o, usinas
nucleares. Ilha de prosperidade em meio ao um mar turbulento. Criou-se uma
fantasia de grandeza que acabou no final da década de 1970 e início dos anos
1980 com a crise da dívida externa e a década perdida. E agora a gente enxerga essa
mesma alternância.
Há
não muito tempo, o Brasil figurava como estrela do mundo emergente nas capas
das revistas internacionais, sede da Copa do Mundo, incluindo milhões de
pessoas no mercado de consumo, crescendo em meio a crise, um estado de quase
euforia. E agora vivemos uma fortíssima reversão de expectativas, com o
desabamento dessa fantasia. Eduardo Giannetti é considerado um dos economistas
que coloca a perspectiva histórica para a gente não se entregar ao momento
sombrio e perder de vista que o Brasil passa por ciclos há muito tempo. Estamos
condenados a estes ciclos. Não. Temos de entender por que nossa imaginação
flutua de maneira tão volátil, e o Brasil vive a alternância dessa embriaguez
eufórica com depressão e prostração que arrasa. Já é mais do que tempo de se
entender isso para evitar que se repita.
Eduardo
Giannetti e o filósofo francês Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma
relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a
natureza interna, mas com a natureza interna ao ser humano. O mundo moderno
nasceu embalado por três PIlusões poderosas; 1 – a de que o progresso da
ciência permitiria banir o mistério do mundo e elucidar o sentido da
existência; 2 – a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao
controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar a ameaça
de grave descontrole da biosfera; 3 – a de que o processo civilizatório
promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas
vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.
O
moderno Ocidente trouxe fabulosas conquistas, mas as suas promessas não se
cumpriram. Se é verdade que uma era termina, quando suas ilusões fundadoras
estão exauridas, então o veredito é claro; a era moderna caducou. Na
encruzilhada do século 21 como enuncia com lapidar clareza a encíclica Saudato
si do Papa Francisco , ”Os desertos externos estão aumentando no mundo porque
os desertos internos se tornaram tão vastos’’.
A
degradação do mundo natural que nos cerca tem um correlato em nosso mundo
interno. Assim como o metabolismo entre sociedade e natureza no mundo moderno
produziu a crise ambiental, de igual, de igual modo a nossa natureza interna
vem sofrendo as consequências inadvertidas e indesejadas de um processo
civilizatório em guerra com o psiquismo arcaico do ser humano e caleado no
culto fanatizado da tecnologia e da máxima eficiência em tudo.
A
crise da ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia instintual imposta
por um processo civilizatório agressivamente calculista e cerebral; uma forma
de vida em que a convenção permeia os vínculos erótico-afetivos enquanto a
competição feroz, a ansiedade e a ambição irrestrita dominam o mundo da
produção e do consumo.
Daí
o fardo do viver civilizado. O ideal de vida da leveza e da ‘’civilização sem
peso’’, como propõe Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação
menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza
interna ao ser humano.
E
o Brasil com isso; Será desvairadamente utópico imaginar que temos tudo para
não capitular á opressiva industriosidade geradora de objetos demais e alegria
de menos do tecnoconsumismo ocidental... Que o Brasil, embora modesto nos
meios, mantém viva sua aptidão para a arte da vida e a capacidade de cultivá-la
a uma perfeição mais plena. Podemos ousar modelos de economia e convivência mais
humanos e adequados ao que somos e sonhamos.
