“De fato, como poderia haver algo de errado com a felicidade? – Felicidade não seria sinônimo de ausência de erro? Da própria impossibilidade de sua presença? Da impossibilidade de todo e qualquer erro? Hoje eu faço estas perguntas, como o foi anteriormente, e com certeza o será no futuro, por pessoas preocupadas. Sociedades como a nossa, movidas por milhões de homens e mulheres em busca da felicidade, estão se tornando mais ricas, mas não está claro se estão se tornando mais felizes. Parece que a busca dos seres humanos pela felicidade pode muito bem se mostrar responsável pelo seu próprio fracasso. Todos os dados empíricos disponíveis indicam que nas populações das sociedades abastadas, pode não haver relação alguma entre mais riqueza, considerada o principal veículo de uma vida feliz, e maior felicidade! (Michael Rustin – What is wrong with happiness? – Soudings, verão 2007) – (Citação de Zygmunt Baumann – Livro- A Arte da Vida).
Os economistas e políticos do século XIX observaram, que o processo de produção era um meio para um fim e não um fim em si. Quando admitido um teto sustentável de vida material, acreditava-se que as energias produtivas fossem reordenadas para o desenvolvimento humano da sociedade. O homem surge na história como um ser cultural. Ao agir, ele age culturalmente, apoiado na cultura e dentro de uma cultura. Esperava-se que surgissem projetos, que estimulassem todos os tipos de cultura mental e de evolução moral e social.
Os economistas e políticos do século XIX estudaram possíveis práticas de motivação, para despertar o progresso da inteligência criativa, a fim de que as mentes não se deixassem dominar pelo “artifício de prosperar”. Ao estudar o consumo Alfred Marshall afirma: “que pouco ou nada contribui para tornar a vida mais nobre ou verdadeiramente mais feliz”. Através de métodos mais dignos de consumo, as pessoas não seriam tão estressadas, e usufruiriam o insubstituível lazer, que se ausentou na modernidade.
Avançaríamos em direção a uma sociedade viva e interessada, se as pessoas e comunidades envolvidas assumissem a operacionalização de projetos com a participação máxima, e a diversidade destes projetos deveria ser o objeto básico e prioritário. Surgiriam novas formas de consumo público, que incluiriam os indivíduos em atividades comunais criativas. Fromm (1941), psicanalista firma que uma pessoa sente dignidade, autoconfiança, amor e bem-estar, dizendo textualmente: “O homem só é verdadeiramente feliz, quando cria na realização espontânea do eu, e se une novamente com o mundo. Durante a criação, seu intelecto e seu sentimento encontram-se em harmonia e ele abraça o mundo com renovado vigor”.
Todos nós sabemos que o ser humano, não funciona convenientemente, se satisfizermos apenas as suas necessidades materiais, garantindo, assim, a sua sobrevivência fisiológica, mas não as necessidades e faculdades que são especificamente humanas, - amor, ternura, razão, alegria etc...
O homem precisa primeiro satisfazer suas necessidades materiais, mas sua história é um registro da procura e da expressão das suas necessidades de transobrevivência, que se expressam através da pintura, da escultura, no mito, no drama, na música e na dança. A religião incorpora esses aspectos da existência humana. A imaginação humana é uma capacidade, que não pode deixar de ser desenvolvida, por que estimula o processo criador e faz parte do processo evolutivo da personalidade. Criação e imaginação são inseparáveis. Dando asas à imaginação o indivíduo liberta-se do mundo dos fatos da realidade, cria imagens mentais e deixa de lado o prosaico, de modo que o pensamento criativo exige invenção, originalidade e liberdade para pensar no que é novo e diferente.
O acesso às condições de vida digna precisa ser pensado e operacionalizado, porque a ausência de investimentos em parques como opção de lazer é inadmissível. Os que existem são muito poucos e só estão localizados em bairros nobres. O desafio maior é transcender essa etapa de desenvolvimento econômico e técnica, construindo sociedades realmente humanas, que não seja definida e avaliada pelo número de carros e aparelhos eletrônicos. Atualmente há mais preocupação com instrumentos do que com idéias.
O importante é gratificá-lo, satisfazendo suas necessidades reais como seres humanos felizes. Aceitar formas mais humanas de consumo social: grande expansão e valorização na educação e saúde pública que nunca foram assumidos. Há muito tempo já deviam ter sido operacionalizados centenas de projetos de recreação popular – parques, - bibliotecas, competições esportivas etc... “No caso dos direitos de realização, trata-se de direitos, cuja satisfação o cidadão espera do Estado moderno. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos podem ser diferenciados cinco tipos de tais direitos: o direito à subsistência e à segurança social, o direito ao trabalho remunerado, bem como o direito de acesso ao sistema de saúde, à formação e à participação na cultura, arte e ciência. Onde estariam as prioridades?”(Thomas Kesselring – livro: Ética, Política e Desenvolvimento Humano - A Justiça na Era da Globalização).
Decisões inteligentes. Resultados diferentes. É inadiável transformar este quadro social de abandono total, pois temos seres humanos tristes, violentos porque perderam a esperança de desfrutar a interação social saudável. Sentem-se em condição de escravos completamente segregados. O poder público tem que oferecer a vida cultural para a população – teatro, música, dança, pintura, arte cinematográfica, esportes para centenas de milhares de comunidades, que infelizmente não tem nenhum sentido real dessa dimensão da existência humana.
Seria a conduta inspirada no desejo de ajudar os outros a maneira mais eficaz de obter a felicidade genuína? Considerem o seguinte. Nós humanos somos seres sociais.Viemos ao mundo em conseqüência de ações de outros. Sobrevivemos aqui, dependendo dos outros. Gostemos ou não, talvez não exista em nossa vida um só momento em que não nos beneficiemos das atividades dos outros. Por esses motivos, não chega a surpreender que a maior parte de nossa felicidade esteja associada ao nosso relacionamento com outros. Nem é tão extraordinário que nossas maiores alegrias ocorram quando estamos motivados pela consideração pelos outros”. (Tenzin Gyatso – Livro: Uma Ética para o Novo Milênio – Ed. Sextante – Rio de Janeiro – 1999.)
Como seres humanos somos basicamente iguais, porque todos nós pertencemos ao mesmo planeta. Acredito que a emoção mais gratificante da vida é o afeto humano na sua esplendorosa universalidade. Com a presença deste sentimento, que nos impulsiona para os entrelaçamentos construtivos conseguiremos vivenciar a genuína felicidade.
Mesmo que todos os habitantes da terra ficassem milionários, sem o desenvolvimento afetivo, não haveria paz ou felicidade duradoura. O afeto, o amor e a empatia do auxílio mútuo são as dimensões espirituais mais importantes para a nossa felicidade. O coração em paz é fundamental para a saúde. Todos somos um.
