REGINA DINIZ
“A
medida que avança a sociedade moderna, com o seu consumismo endêmico, mártires
e heróis vão batendo em retirada. Hoje em dia, eles encontram seu último abrigo
entre as pessoas que ainda enfrentam o que para muitos habitantes do planeta
(talvez a maioria) parece uma guerra já perdida contra uma desigualdade
opressora; uma guerra os terríveis
poderes financeiros e militares globais que sitiam os poucos territórios
intocados remanescentes, a fim de implantar seu tipo de “vida nova” aonde quer
que vão – o tipo de vida que significa para os que a recebem, o fim da
existência tal como a conhecem e talvez até o fim da vida em si”. (Autor:
Zygmunt Zahar – Livro: Vida Líquida – Editora Zahar – 2005).
As
nossas expectativas de vida são reconhecidamente instáveis, nossos empregos e
as empresas que os oferecem, nossos parceiros e redes de amizade, a posição que
ocupamos na sociedade e a auto-estima e autoconfiança dela decorrentes. O
“progresso tão festejado”, que já ocupou a maior manifestação de otimismo
social, promessa de felicidade duradoura caiu para o lado oposto
dramaticamente. Nota-se uma mudança inflexível, que não oferece a paz e o
repouso mas crise e tensão permanentes,
impedindo qualquer momento de descanso e
qualquer erro resulta na exclusão.
Por
milênios e milênios se repete a proposta sedutora de grandes expectativas e
doces sonhos de progresso. Procuramos entender para escapar dos indefiníveis perigos que o momento presente nos reserva. Não
agüentamos tal pressão e ficamos depressivos
e hipertensos, e com a saúde abalada caímos em doenças que
nos atiram na obesidade mórbida. Desesperadamente nos endividamos, comprando câmeras
de TV, contratando seguranças, e toda esta pressão confundem as nossas ações,
pois não conseguimos propor uma cultura de paz. A vida urbana ficou arriscada e
imprevisível. Pela ausência de trabalho surgiram os excluídos, que atirados a
própria sorte, assaltam para se alimentarem, muitos deles matam por um prato de
comida.
“A
pobreza vestia apenas um velho saco estreito miseravelmente remendado; era, ao
mesmo tempo, seu casaco e seu saião; era só o que tinha para se cobrir; por
isso, tremia freqüentemente. Um pouco afastado dos outros, estava agachado e encolhido
como um cachorro triste e envergonhado. Maldita a hora em que o pobre foi
concebido, porque ele nunca será bem alimentado, nem bem vestido, nem bem
calçado! Também não será amado, nem educado”. (Autor: M.Mollat, - Livro: Études
Sur L’economie et la societé de
L’Occident
pág:
17.- Citação feita por Robert Castel – Livro – As Metamorfoses Da Questão
Social Uma Crônica do Salário – Ed. Vozes – 10º edição – 1995).
O
filósofo Michel Mollat observa que o pobre é quase sempre representado à porta
do rico ou às portas da cidade, numa atitude humilde e suplicante. Não é
imediatamente autorizado a entrar: primeiro deve estar bem consciente de sua indignidade; e, em todo caso, o
exercício da esmola depende da boa vontade dos ricos. Christine de Pisau dá o
seu parecer a respeito dos pobres: “Como não são nada, é tudo um lixo – De
pobreza é chamada – Quem por ninguém é amada”. E conclui eloqüentemente: Essa
gente não é senão uma molecada”.(Le Livre de la mucacion de Fortune – Paris –
1990).
A
condição social do pobre suscita uma gama de atitudes que vão da comiseração ao
desprezo. Situação que evoca a fome, o frio, a doença, o abandono, a privação
em todos os seus estados, a pobreza é considerada vulgar, de condições
desprezíveis. O avanço da civilização acontecerá quando gostarmos das pessoas
pobres, e então ajudaremos a evoluírem porque sem trabalho e orientação social
continuaram a praticar delitos, sobretudo para o roubo e o homicídio. “Em razão
de sua vida instável e de sua total falta de recursos, a pessoa pobre é, sem
dúvida, freqüentemente levada a transgredir a lei”. (Autor – B.Geremek - Livro Criminalité, vagabondage ,
pauperismo).
“Nas
profundas transformações, que estão atualmente ocorrendo na vida pessoal, a confiança
ativa está atrelada à integridade do outro. Essa integridade não pode ser
tacitamente assumida com base no fato de uma pessoa ocupar uma determinada
posição social. A confiança deve ser conquistada e ativamente mantida; e isso
geralmente pressupõe um processo de mútua narrativa e revelação emocional. Não
existe tempo para relacionamentos duradouros (já que fortes laços entre as
pessoas significam enfrentar com o tempo suas diferenças), não há espaços para
relações desinteressadas, tudo deve ter uma finalidade. Em uma narrativa não partilhada,
em uma história de dificuldades não discutidas, não há destino a ser
partilhado, e nessas condições o caráter se corrói. (Autor: Anthony Giddens –
Livro: Modernidade e Identidade – Trad. De Plínio Dentzien – Rio de Janeiro –
Jorge Zahar – 2002).
A insegurança
nos dias atuais é desencadeada pela suspeita em relação a outros seres humanos
e suas intenções, e pela recusa em confiar na constância e na confiabilidade do
companheirismo humano. Existe uma inabilidade ou indisposição para tornar esse
companheirismo duradouro e seguro. Em nossas relações afetivas nos amedrontamos
em afirmar a potência unificadora da solidariedade. Da confiabilidade, da
amizade e principalmente do amor fraterno, sentimentos que não podem ser
avaliados por critérios quantitativos e cálculos estatísticos.
Conforme
os argumentos de Anthony Giddens a
Modernidade produz diferença, exclusão e marginalização. As instituições
modernas criam mecanismos de supressão, e não de realização do Eu. Nas relações
íntimas, o medo de tornar-se dependente de outra pessoa é uma falta de
confiança nela; em vez disso, prevalecem nossas defesas. É difícil elaborar o
nosso presente e o nosso futuro numa sociedade na qual os indivíduos não estão
seguros de serem necessários aos seus semelhantes e na qual o caráter não
constitui a linha norteadora da vida e ética do trabalho.
“A
Ética do Caráter é a Ética que valoriza as qualidades e características mais
permanentes, íntimas e que, por assim dizer, constituem o alicerce sobre o qual
nos “erguemos” como indivíduos. Os seguintes princípios fazem parte da chamada
Ética do Caráter: integridade, humildade, fidelidade, persistência, coragem,
justiça, paciência, diligência, modéstia e, a regra de ouro, “não fazer aos
outros o que não quiser que os outros lhe façam. É fácil perceber que a Ética
do Caráter é um conceito extremamente mais profundo, difícil e complexo do que
a Ética da Personalidade. A Ética do Caráter não é facilmente aprendida sob a
forma de técnicas, “truques” e ferramentas que rendem resultados rápidos”.
Autor: Stephen R. Covey – Livro: Os 7 hábitos das Pessoas Altamente Eficazes).
Aprender
a Ética é fundamental, porque a modificamos e sempre estamos aprendendo, a
partir de profundas reflexões e que exigem enorme quantidade de paciência. Renovar
qualquer um dos nossos valores ordena uma jornada profunda de observações de nossos próprios
atos e também da qualidade construtiva
de nossos pensamentos e da forma como respondemos aos estímulos do
mundo.A significação dos princípios que formam a Ética do Caráter são básicos
na construção na edificação de uma vida significativa. É saudável dar
importância aos valores éticos esquecidos ou negligenciados.
É
sempre útil e revelador desvendar o nosso caráter mais básico e íntimo.
Acredito que não há um caminho mais certo, do que desejar uma vida ética
saudável porque fortalecer os princípios da ética é obrigatório. O equilíbrio é
o melhor caminho para crescermos como pessoas. A Ética do Caráter é complexa,
íntima e infinitamente mais difícil de ser aprendida. “Uma pessoa de caráter” é
aquela com formação moral sólida e incontestável. A honestidade é a qualidade
de ser verdadeiro, não mentir, não fraudar ou enganar. Honesto é o que repudia
a malandragem, a esperteza, aquele que é transparente e exige transparência dos
outros. As novas gerações devem ser educadas neste padrão ético.
