sábado, 26 de julho de 2014

A NECESSIDADE ATRELADA À INTEGRIDADE DO OUTRO SER

REGINA  DINIZ

      
“A medida que avança a sociedade moderna, com o seu consumismo endêmico, mártires e heróis vão batendo em retirada. Hoje em dia, eles encontram seu último abrigo entre as pessoas que ainda enfrentam o que para muitos habitantes do planeta (talvez a maioria) parece uma guerra já perdida contra uma desigualdade opressora; uma guerra os terríveis  poderes financeiros e militares globais que sitiam os poucos territórios intocados remanescentes, a fim de implantar seu tipo de “vida nova” aonde quer que vão – o tipo de vida que significa para os que a recebem, o fim da existência tal como a conhecem e talvez até o fim da vida em si”. (Autor: Zygmunt Zahar – Livro: Vida Líquida – Editora Zahar – 2005).

As nossas expectativas de vida são reconhecidamente instáveis, nossos empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e redes de amizade, a posição que ocupamos na sociedade e a auto-estima e autoconfiança dela decorrentes. O “progresso tão festejado”, que já ocupou a maior manifestação de otimismo social, promessa de felicidade duradoura caiu para o lado oposto dramaticamente. Nota-se uma mudança inflexível, que não oferece a paz e o repouso  mas crise e tensão permanentes, impedindo qualquer  momento de descanso e qualquer erro resulta na exclusão.

Por milênios e milênios se repete a proposta sedutora de grandes expectativas e doces sonhos de progresso. Procuramos entender para escapar dos indefiníveis perigos  que o momento presente nos reserva. Não agüentamos tal pressão e ficamos depressivos  e  hipertensos,  e com a saúde abalada caímos em doenças que nos atiram na obesidade mórbida. Desesperadamente nos endividamos, comprando câmeras de TV, contratando seguranças, e toda esta pressão confundem as nossas ações, pois não conseguimos propor uma cultura de paz. A vida urbana ficou arriscada e imprevisível. Pela ausência de trabalho surgiram os excluídos, que atirados a própria sorte, assaltam para se alimentarem, muitos deles matam por um prato de comida.

“A pobreza vestia apenas um velho saco estreito miseravelmente remendado; era, ao mesmo tempo, seu casaco e seu saião; era só o que tinha para se cobrir; por isso, tremia freqüentemente. Um pouco afastado dos outros, estava agachado e encolhido como um cachorro triste e envergonhado. Maldita a hora em que o pobre foi concebido, porque ele nunca será bem alimentado, nem bem vestido, nem bem calçado! Também não será amado, nem educado”. (Autor: M.Mollat, - Livro: Études Sur L’economie  et la societé de L’Occident
pág: 17.- Citação feita por Robert Castel – Livro – As Metamorfoses Da Questão Social Uma Crônica do Salário – Ed. Vozes – 10º edição – 1995).

O filósofo Michel Mollat observa que o pobre é quase sempre representado à porta do rico ou às portas da cidade, numa atitude humilde e suplicante. Não é imediatamente autorizado a entrar: primeiro deve estar bem consciente  de sua indignidade; e, em todo caso, o exercício da esmola depende da boa vontade dos ricos. Christine de Pisau dá o seu parecer a respeito dos pobres: “Como não são nada, é tudo um lixo – De pobreza é chamada – Quem por ninguém é amada”. E conclui eloqüentemente: Essa gente não é senão uma molecada”.(Le Livre de la mucacion de Fortune – Paris – 1990).

A condição social do pobre suscita uma gama de atitudes que vão da comiseração ao desprezo. Situação que evoca a fome, o frio, a doença, o abandono, a privação em todos os seus estados, a pobreza é considerada vulgar, de condições desprezíveis. O avanço da civilização acontecerá quando gostarmos das pessoas pobres, e então ajudaremos a evoluírem porque sem trabalho e orientação social continuaram a praticar delitos, sobretudo para o roubo e o homicídio. “Em razão de sua vida instável e de sua total falta de recursos, a pessoa pobre é, sem dúvida, freqüentemente levada a transgredir a lei”. (Autor – B.Geremek  - Livro Criminalité, vagabondage , pauperismo).

“Nas profundas transformações, que estão atualmente ocorrendo na vida pessoal, a confiança ativa está atrelada à integridade do outro. Essa integridade não pode ser tacitamente assumida com base no fato de uma pessoa ocupar uma determinada posição social. A confiança deve ser conquistada e ativamente mantida; e isso geralmente pressupõe um processo de mútua narrativa e revelação emocional. Não existe tempo para relacionamentos duradouros (já que fortes laços entre as pessoas significam enfrentar com o tempo suas diferenças), não há espaços para relações desinteressadas, tudo deve ter uma finalidade. Em uma narrativa não partilhada, em uma história de dificuldades não discutidas, não há destino a ser partilhado, e nessas condições o caráter se corrói. (Autor: Anthony Giddens – Livro: Modernidade e Identidade – Trad. De Plínio Dentzien – Rio de Janeiro – Jorge Zahar – 2002).

A insegurança nos dias atuais é desencadeada pela suspeita em relação a outros seres humanos e suas intenções, e pela recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano. Existe uma inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo duradouro e seguro. Em nossas relações afetivas nos amedrontamos em afirmar a potência unificadora da solidariedade. Da confiabilidade, da amizade e principalmente do amor fraterno, sentimentos que não podem ser avaliados por critérios quantitativos e cálculos estatísticos.

Conforme os argumentos de Anthony Giddens  a Modernidade produz diferença, exclusão e marginalização. As instituições modernas criam mecanismos de supressão, e não de realização do Eu. Nas relações íntimas, o medo de tornar-se dependente de outra pessoa é uma falta de confiança nela; em vez disso, prevalecem nossas defesas. É difícil elaborar o nosso presente e o nosso futuro numa sociedade na qual os indivíduos não estão seguros de serem necessários aos seus semelhantes e na qual o caráter não constitui a linha norteadora da vida e ética do trabalho.

“A Ética do Caráter é a Ética que valoriza as qualidades e características mais permanentes, íntimas e que, por assim dizer, constituem o alicerce sobre o qual nos “erguemos” como indivíduos. Os seguintes princípios fazem parte da chamada Ética do Caráter: integridade, humildade, fidelidade, persistência, coragem, justiça, paciência, diligência, modéstia e, a regra de ouro, “não fazer aos outros o que não quiser que os outros lhe façam. É fácil perceber que a Ética do Caráter é um conceito extremamente mais profundo, difícil e complexo do que a Ética da Personalidade. A Ética do Caráter não é facilmente aprendida sob a forma de técnicas, “truques” e ferramentas que rendem resultados rápidos”. Autor: Stephen R. Covey – Livro: Os 7 hábitos das Pessoas Altamente Eficazes).

Aprender a Ética é fundamental, porque a modificamos e sempre estamos aprendendo, a partir de profundas reflexões e que exigem enorme quantidade de paciência. Renovar qualquer um dos nossos valores ordena uma jornada  profunda de observações de nossos próprios atos e também da qualidade construtiva  de nossos pensamentos e da forma como respondemos aos estímulos do mundo.A significação dos princípios que formam a Ética do Caráter são básicos na construção na edificação de uma vida significativa. É saudável dar importância aos valores éticos esquecidos ou negligenciados.


É sempre útil e revelador desvendar o nosso caráter mais básico e íntimo. Acredito que não há um caminho mais certo, do que desejar uma vida ética saudável porque fortalecer os princípios da ética é obrigatório. O equilíbrio é o melhor caminho para crescermos como pessoas. A Ética do Caráter é complexa, íntima e infinitamente mais difícil de ser aprendida. “Uma pessoa de caráter” é aquela com formação moral sólida e incontestável. A honestidade é a qualidade de ser verdadeiro, não mentir, não fraudar ou enganar. Honesto é o que repudia a malandragem, a esperteza, aquele que é transparente e exige transparência dos outros. As novas gerações devem ser educadas neste padrão ético.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

AS PÉTALAS MODELADAS PELA PERFEIÇÃO

REGINA  DINIZ

Sabemos que o universo inteiro...
É o retrato de sua própria inteligência...

Pergunto-me: Quem fez a flor?...
De forma viva, que se ergue em direção ao sol?...
Como foram tingidas as suas pétalas...
Como foram modeladas com tanta perfeição...

À noite as estrelas e a lua derramam luz prateada...
Qual é a inteligência que as comanda?

O sol aparece triunfante com sua luz intensa...
Percebemos o mundo a nossa volta...
Com responsabilidade sobrevivo...
Procurando corresponder diante de tanta perfeição...

Sou livre para ir e vir, o quanto desejar...
Sirvo a Deus, ajudando os seus filhos na terra...

Porém chega a velhice...
E com ela nenhuma ajuda dá resultado...
Mas tenho outra escolha: o Poder Espiritual...
Deus cura a minha mente e a minha alma...

O poder divino é ilimitado...
Ele me ajuda até alcançar a perfeição...

Luto para sobreviver materialmente...
E penso dedicadamente no significado da vida...
Somos seres divinos...
Somos feitos a imagem de Deus...

A elaboração, calma e poderosa da vontade...
Traz a resposta imediata do infinito...

A semente do sucesso da vida está na fé em Deus...
O meu corpo fica na terra...
Mas a minha crença de alma eterna...
Enriquecerá o meu espírito eterno...

É a força da fé...
Que torna divina a minha vida...

Exerço sem descanso a vontade...
Mediante ações construtivas...
Identifico-me como um ser divino...
Procuro companheiros espirituais para evoluir...

Para curar-me pelo poder de Deus...

Busco  a companhia dos que fortalecem a fé...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O DEVER INDIVIDUAL DO ESFORÇO PESSOAL E SOCIAL

            
REGINA DINIZ

“O Katrina  revelou o segredo mais bem guardado da civilização: que – como disse espirituosamente Timothy Garton Ash, em um ensaio sob o título amplamente revelador de “Ele sempre está embaixo” – a casca da civilização sobre a qual caminhamos é sempre da espessura de uma hóstia. Um tremor e você fracassou, lutando por sua vida como um cão selvagem. Não consigo deixar de sentir que haverá mais, muito mais disso, à medida que nos aprofundamos no século XXI. Há tantos grandes problemas  que poderiam empurrar a humanidade para trás... se grandes extensões do planeta fossem atormentadas por tempestades, inundações e mudanças de temperatura imprevisíveis, o que ocorreu em Nova Orleans parecia um chá entre amigos”. ( Autor: Timothy Garton Ash – Livro: Cartão de Crédito – pág.25 – 26).

O caminho da Paz é fortalecer as bases elementares da vida civilizada – comida, abrigo, água potável, um mínimo de segurança pessoal para evitarmos a guerra de todos contra todos. Atualmente, mais de 162 mil mortos na Síria desde o início do conflito há três anos entre as quais 53.978 civis, desde o início do conflito em 2011, segundo um novo balanço divulgado hoje pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). Dos civis, pelo menos 8.607 eram menores e 5.586 eram mulheres, informou a organização com sede no Reino Unido que tem por base dados de uma vasta rede de militantes. Atualmente estão em guerras os países  - Kosofo, Irã, Iraque, Afeganistão, Líbano, Palestina, Líbia, Israel. É necessário dedicarmos estudos aprofundados sobre o processo civilizador.

Estranha-se a ausência de estudos meticulosos sobre as bases elementares da vida civilizada, da vida organizada, precisamente porque organizada – rotineira, previsível códigos de comportamentos determinados). Seis em cada dez brasileiros têm muito medo de assalto à mão armada e de assassinatos diz  a pesquisa. Em todos os quesitos o Nordeste  (com mais de 70% das respostas, indicando muito medo lidera os temores da violência. É alta a sensação de insegurança no Brasil.

“Em nosso mundo de furiosa “individualização” os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam, embora em diferentes níveis de consciência. No cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial”.(Autor: Zygmunt Bauman – Livro Amor Líquido – Ed.Zahar – 2004).

O mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança. A confiança deve continuar sendo uma frente natural da “expressão soberana da vida”, entretanto agora procura desesperadamente um lugar para lançar âncora. A confiança foi relegada a uma vida cheia de frustração. Pessoas sozinhas, individualmente ou em conjunto freqüentemente deixam de compensar a devoção. É raro serem modelos de coerência e continuidade em longo prazo. A experiência individual aponta obstinadamente para o EU como o eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.

Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a confiança. Um exame equilibrado dos dados fornecidos pelas evidências da vida sinaliza na direção contrária, mostrando repetidamente a perpétua inconstância das regras e a fragilidade dos laços. Talvez isso significa que a decisão de investir as esperanças da moralidade, na tendência endêmica à confiança nos outros teria sido invalidada pela incerteza endêmica, que satura os dias de hoje.

“Na ausência de conforto existencial, agora nos decidimos pela segurança, ou pela aparência de segurança, escrevem os organizadores da Hedgehog Review na introdução de um número especial dedicado ao medo. O solo sobre o qual nossas expectativas de vida têm de se apoiar é reconhecidamente instável – tal como nossos empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e redes de amizade, a posição que ocupamos na sociedade e a autoestima e a autoconfiança dela decorrentes. O “progresso”, que já foi a mais extrema manifestação de otimismo radical, promessa de felicidade universalmente compartilhada e duradoura, deslocou-se para o pólo de previsão exatamente oposto, não tópico e fatalista. Agora significa uma ameaça de mudança inflexível e inescapável que pressagia não a paz e o repouso, mas a crise e a tensão continuas, impedindo qualquer momento de descanso; uma espécie de dança das cadeiras em que um segundo de desatenção resulta em prejuízo irreversível e exclusão inapelável”.  (autor:Zygmunt Bauman -  Livro: Vida Líquida – Ed. Zahar – 2009 ).

A exclusão social é a chaga não só de nosso Brasil, mas de todo o mundo. É importantíssimo trabalharmos pela paz. É obrigação nossa contrabalançar os efeitos danosos de multidões em desarmonia e confusas, que causam malefícios a si e aos outros. Muitas pessoas trabalham pela paz e não se deixam esmorecer. Devemos vivenciar a paz em nossos relacionamentos, pensando no mundo todo, sem cansar, trabalhando de todas as formas possíveis. É fundamental viver a paz consigo mesmo para motivar as outras pessoas, acreditando que é possível praticá-la.

Nós precisamos aprender como colocar o bem-estar da família humana acima de qualquer grupo específico. A fome e o sofrimento devem ser aliviados, da mesma forma que o medo e o ódio. Nosso problema nacional número um é o ajustamento de nossa economia a uma situação de paz. Precisamos de ministério da paz em nosso governo para realizar, estudar, concentrar-se em pesquisas sobre maneiras pacíficas de resolver conflitos. Quando inspiramos uma pessoa, ela tende a agir de acordo com seus instintos mais elevados, sensível e racionalmente.

“Podemos afirmar que a variedade moderna de insegurança é caracterizada distintivamente pelo medo da maleficência e dos malfeitores humanos. Ela é desencadeada pela suspeita em relação a outros seres humanos e suas intenções, e pela recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano, e deriva, em última instância, de nossa inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo  duradouro e seguro, e portanto confiável. Castel atribui à individualização moderna a responsabilidade por esse estado de coisas; sugere que a sociedade moderna, tendo substituído as comunidades e corporações  estreitamente entrelaçadas, que no passado definiam as regras de proteção e monitoravam sua aplicação pelo dever individual  do interesse, do esforço pessoal e da auto-ajuda, tem vivido sobre a areia movediça da contingência. Numa sociedade assim, os sentimentos se insegurança existencial e os temores disseminados de perigos generalizados são inevitavelmente, endêmicos. (Autor: Robert Castel – Livro – L’Insécurité – 2003 ).

A recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano, deriva da inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo duradouro e seguro, portanto, confiável. A impotência socialmente induzida não garante de maneira alguma a individualidade de fato, e muitos  careciam dos recursos para estudarem, então surgiu o medo da inadequação, que se tornou doença universal. A modernização contínua esticou suas renovações além da capacidade individual das pessoas.


A competição substituiu a solidariedade, os indivíduos se vêem abandonados aos seus próprios recursos que são mínimos, Robert Castel assinala o retorno das classes perigosas, que são constituídas do excedente populacional temporariamente excluído, e ainda não reintegrados. A interpretação social sadia seria a expectativa que no devido curso, eles seriam reintegrados, seu ressentimento se dissiparia e seus interesses na ordem social seriam restaurados. Entretanto a irrevogabilidade de sua exclusão e a fragilidade de pedir ajuda é que transformou os excluídos contemporâneos em classes perigosas. A incompetência para compreender a exclusão demonstra a decomposição do Estado Social que não consegue saná-la, pois deveriam ser reeducados, reabilitados e reenviados à comunidade.