REGINA DINIZ
“As
grandes concentrações de trabalhadores sempre supuseram o trabalho forçado. Os
grandes trabalhos e as minas da Antiguidade, como o sistema colonial de
plantações, basearam-se na escravidão. As riquezas do Novo Mundo foram
extraídas graças ao trabalho forçado dos indígenas que, muito freqüentemente,
dele morreram. Privadas de escravos, pelo menos em suas metrópoles, e também do
equivalente de reservas de índios onde se abastecer de mão de obra, as sociedades
do Ocidente, cristãs além do mais, tiveram que resolver um problema difícil:
encontrar e mobilizar trabalhadores para certos tipos de tarefas que ninguém
aceitaria, se pudesse fazer outra coisa ou não fazer outra coisa ou não fazer
absolutamente nada. Independentemente mesmo das motivações morais, que sempre
incitam a punirem pobres coitados, supostos viciosos e perigosos, compreende-se
a concentração do interesse sobre algumas categorias de outcastes, vagabundos,
condenados a trabalhos forçados, condenados à galera, para executarem um tipo
de trabalho que qualquer homem de bem só
pode recusar.”( Autor: Robert Castel – Livro:AS Metamorfoses da Questão Social
– Uma Crônica do Salário – 10 Ed. – Editora Vozes – 1998).
Os
afros-descendentes têm sua origem a partir dos escravos que vieram para o
Brasil entre os séculos XVI e XIX, fato que se caracterizou como uma migração
involuntária, foram forçados, não vieram por livre e espontânea vontade. No
decorrer dos séculos citados, o país recebeu cerca de 4 milhões de africanos.
Atualmente, esse grupo étnico se concentra na região Nordeste e Sudeste, áreas
onde se encontram as principais fazendas de cana-de-açúcar e café. Tardiamente
foi sancionada em agosto a Lei número 12.711/2012 que garante a reserva de 50% das
matrículas por curso e turno nas 59 universidades
federais de educação, ciência e tecnologia e alunos oriundos integralmente do
ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos.
Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência.
As vagas reservadas às cotas (50% do total de vagas
da instituição) serão subdivididas – metade para estudantes de escolas públicas
com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capta
e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior e um
salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também será levado em conta
percentual mínimo correspondente ao da soma de afros-descendentes e indígenas
no estado, de acordo com o último senso demográfico do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).
“Já
no fim dos períodos vitoriano e edwardiano, argumenta Ferdinand Mount, esse
duplo dogma – simplificação de classes e degradação das classes inferiores –
havia se transformado em idéia fixa entre a intelligentsia britânica,
desencadeando as visões pesadelares de massas abrutalhadas e imbecilizadas que
encontramos nos textos de Gissing,
Wells, Woolf, Lawrence, Eliot e
similares. Ao final, essa montanha de negligência inevitavelmente afetaria aqueles que eram
objeto de tal desprezo. Mais grave ainda, contudo, foi o impacto desses mitos
sobre as elites obcecadas, por eles, que passaram a acreditar que as classes
inferiores, desamparadas e ao mesmo tempo perigosas, precisavam
desesperadamente de salvação. Se
deixadas na escuridão, poderiam um dia levantar-se e destruir o templo da
sociedade, com elas dentro. Era, portanto, obrigação do Estado intervir e melhorar suas condições de vida.
Assim foi que, após um longo e impiedoso bombardeio intelectual, comprometendo
a confiança e a auto-estima da classe trabalhadora, um regimento de panzers
burocráticos avançou sobre as defesas enfraquecidas, passando por cima ou
suprimindo as instituições populares que havia criado.”Autor::Ferdinand Mount –
Livro: Mind the Gap). – Citação feita por Perry Anderson – Livro: Espectro - Ed.Boitempo Editorial - Janeiro de 2012)”.
No
livro “Vigiar e Punir” Michael Foucalt se dedica à análise das funções
jurídico-políticas da pena do absolutismo. É interessante mostrar como as penas
físicas (suplícios que causavam marcas de poder no corpo) e os rituais
organizados estavam na realidade, representando mais do que relações de
justiça, mas sobretudo relações de força (entre o soberano e o povo). No
Brasil, que é marcado por profundas desigualdades sociais combinadas com recuo
das proteções coletivas, precarização do trabalho e Estado Penal, se torna
necessário refletir sobre como vem se consolidando os sistemas punitivo
neoliberal, que por todas as razões expostas, repercute de forma bastante cruel
sobre os mais pobres, seja pela violência direta (ações policiais) ou pela
violência indireta, exclusão do mercado de trabalho, do sistema de saúde, da
educação, da cultura etc...
Pierre Bordieu, em se livro Contra Fogos são
citadas táticas para enfrentar a invasão neoliberal, que mostra como vem sendo
montado pelo programa neoliberal um novo exército de reserva
de mão de obra docilizada pela
precarização e pela ameaça permanente do desemprego, no qual o fundamento
último de toda essa ordem econômica sob a chancela invocada da liberdade dos
indivíduos é efetivamente a violência estrutural do desemprego, da precariedade
e do medo inspirado pela ameaça de demissão. A condição de funcionamento
“Harmonioso” do modelo micro-econômico individualista e o princípio da
“motivação individual” para o trabalho residem, em última análise, num fenômeno
de massa, qual seja, a existência do exército de reserva dos desempregados. Nem
se trata a rigor de um exército, pois o desemprego isola, atomiza, individualiza,
desmobiliza e rompe com a solidariedade.
“Na
vida humana, tudo conta, porque os seres humanos são mortais e sabem disso.
Tudo o que os mortais humanos fazem tem sentido devido a esse conhecimento. Se
a morte algum dia fosse derrotada, não haveria mais sentido em todas aquelas
coisas que eles laboriosamente juntam, a fim de injetar algum propósito em sua
vida ab surdamente breve. Esta cultura que conhecemos - as artes, a política, a intricada teia de
relações humanas, ciência ou tecnologia foi concebida no ponto do trágico, mas
fatal, encontro entre o período finito da existência física humana e a infinitude da vida
espiritual humana. O ponto crucial da questão é que o conhecimento da
mortalidade significa, ao mesmo tempo, o conhecimento da possibilidade de
imortalidade. Em conseqüência, não se pode estar ciente da mortalidade sem
encarar a inevitabilidade da morte como uma afronta e uma indignidade, e sem
pensar nas maneiras de corrigir o erro. Estar ciente da mortalidade significa
imaginar a imortalidade, sonhar com a imortalidade, trabalhar com vistas à
imortalidade ainda que seja somente esse sonho que enche a vida de
significado”. (Zygmunt Bauman – livro: O Mal-Estar da Pós-Modernidade –
Ed.Zahar – 1997).
Pergunta-se:
Alma e consciência são sinônimas? A alma é imortal? Se sim, para onde ela vai
depois que morremos? Sem respostas definitivas da ciência, o homem busca nas
crenças religiosas, explicações para o fenômeno da morte. Para uns, trata-se de
uma passagem, uma transição desta vida para outra, mais plena e mais feliz.
Para outros é o momento máximo de iluminação, uma forma de libertação do
sofrimento. Pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independente das
crenças tem menos medo da morte. A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à
idéia da finitude. Na religião o indivíduo convive melhor com a finitude,
porque lá encontra certezas sobre por que morre e o que acontece após a morte.
Se
há uma outra vida que se segue a morte, existiria uma continuidade da mente ou
do espírito. Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis
pelas conseqüências de nossos atos. A visão espiritual da morte implica
profundo desapego. É por meio da aceitação da impermanência humana que a
religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a
idéia de transcendência do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute
uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim e ao
propor que ele perdure em algum lugar, existindo de alguma outra maneira.
“Movimentos
sociais conectados em rede espalharam-se primeiro no mundo árabe e foram
confrontados com violência assassina pelas ditaduras locais. Vivenciaram
destinos diversos, incluindo vitórias , concessões, massacres repetidos e
guerras civis. Outros movimentos ergueram-se contra o gerenciamento equivocado
da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, por governos que se
colocavam ao lado das elites financeiras responsáveis pela crise à custa de
seus cidadãos: Espanha, Grécia, Portugal, Itália (onde mobilizações de mulheres
contribuíram para por fim à bufa comedia de Berlusconi), Grã-Bretanha (onde a
ocupação de praças e a defesa do setor público por sindicatos e estudantes e se
deram as mãos)e, com menos intensidade, mas simbolismo semelhante, na maioria
dos outros países europeus. Em Israel, um movimento espontâneo com múltiplas
demandas tornou-se a maior mobilização de base da história do país, obtendo a
satisfação de muitas de suas reivindicações. ( Autor:Manuel Castells – Livro:
Redes de Indignação – Zahar – 2012 ).
Que
milagre foi este? O que foi que aconteceu para que mais de 1 milhão e meio de
pessoas em 19 capitais e mais de 100 cidades brasileiras saíssem às ruas
protestando? Qual é a natureza e o sentido das manifestações que tomaram o
país, configurando o maior movimento popular da história do Brasil? Para qual
direção apontam? São interrogações que persistem em nossas interpretações. Como
fenômeno complexo, os atuais movimentos sociais desafiam analistas que desejam
às interpretações definitivas, já que a velocidade vertiginosa dos
acontecimentos impede inferências sobre as tendências futuras. É desafiador
refletir sobre as perspectivas abertas pela dinâmica dos movimentos neste tempo
de redes sociais ativas.
Manuel
Castells disse: Tenho dito que pensar a democracia para além do voto não é mais coisa de
“esquerdista radical” é coisa de gente que enxerga o óbvio. Algum partido
brasileiro está enxergando isso? Não. É necessário levar para as ruas daqui e
de todo o mundo a idéia de que é necessária uma reconstrução da democracia. Não
uma destruição, mas uma reconstrução da democracia. Mas essa reconstrução não
pode ser realizada por aqueles que representam a democracia, neste momento, por
isso vai contra o seu interesse enquanto grupo profissional, enquanto grupo
político e se há um político bem intencionado dentro do partido ele é logo
podado. Então o problema não é meramente individual desse ou daquele político –
mas de um sistema entranhado por interesses poderosos. É esse sistema que está
bloqueando as mudanças. Em tempos de discussão da reforma política no Brasil
vale o questionamento. Quais interesses estão bloqueando as grandes mudanças?
Se as instituições – incluídas aí os partidos políticos – já não dão conta de
absorver e dar resposta aos anseios e
angústias dos indivíduos (que por vezes sequer podem ser chamados cidadãos), um
novo modo de fazer política surge no horizonte. Como será esta nova política?
Isto dependerá apenas de nós. Não temos nada a perder a não ser o nosso medo.
