terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A DEFESA DO ENSINO E DA VALORIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS HUMANISTAS






A DEFESA DO ENSINO E DA VALORIZAÇÃO



DOS CONHECIMENTOS HUMANISTAS



Regina  Diniz



aum dos mais importantes estudiosos da Renascença. ‘’ A utilidade do inútil’’, que ela lançou em 2012 [ em 2016 no Brasil], é um best-seller global. ‘’Estamos corrompendo os nossos jovens’’. Nuccio Or-dine conquistou algo raro para um acadêmico; a admiração do público não especializado. É que o professor da Universidade da Calábria tem talento para expressar idéias sofisticadas sem fazer uso de jargão. Um exemplo está em A Utilidade do inútil [ Zahar, 244 páginas, traduzido para 20 idiomas, e lançado no Brasil em 2016, no qual defende a importância do conhecimento que não tem necessariamente valor de mercado; a arte, a filosofia, mas também a pesquisa científica sem aplicação prática imediata.



Nuccio Ordine, o saber nos torna livres e nos faz avançar como sociedade. Em setembro, quando esteve em Porto Alegre, ele recebeu Zero Hora para uma conversa com mediação e tradução da professora de Língua e Cultura Italiana Ana Boff de Godoy e do professor de Filosofia Luiz Carlos Bombassaro tradutor de a utilidade do inútil. Cada vez mais parece estar tomando forma a idéia de que o mercado é a principal instituição que designa valor para as pessoas e as coisas. Como o senhor analisa esse paradigma...



Creio que hoje assistimos a uma ditadura do mercado. Em qualquer âmbito, em qualquer situação, em qualquer momento da nossa vida, é preciso levar sempre em consideração a que serve, quanto se ganha, qual é o proveito disso. Penso que esta lógica destruirá a humanidade.



O capitalismo se transformou muito nas últimas décadas. Hoje, temos um capitalismo ávido, que quer ganhar, muito dinheiro em pouco tempo. Que não se preocupa mais com o ambiente, com o crescimento da sociedade, com o avanço cultural e social dos funcionários que não trabalham nas indústrias. Preocupa-se somente com o próprio ganho, sem pensar no que acontecerá depois. Esse tipo de capitalismo pode se autodestruir. Pense no caso da Volkswagen, que, para fazer mais dinheiro, modificou o soltware de controle de emissão, violando a legislação dos EUA.



Para um salão de atos absolutamente lotado, o professor, filósofo e crítico italiano NUCCIO ORDINE ministrou na manhã de hoje a aula magna de abertura do semestre letivo na UFRGS, com o tema ‘’ a utilidade é grande especialista na obra de Giordano Bruno. É defensor do ensino e da valorização dos conhecimentos humanistas na formação dos estudantes de qualquer ária, A escola e a universidade não podem ser administradas como se fosse uma empresa. Quando um ramo de uma empresa não produz, corta-se esse ramo. Nas universidades, pelo contrário, temos o dever de manter vivas também as coisas que não dão lucros.



Há muitas línguas antigas no mundo; sânscrito, latim, grego. Se em uma universidade há um professor que ensina sânscrito para dois alunos, o reitor poderá dizer; ‘’Não podemos nos permitir, o luxo de pagar um professor para dois alunos’’. Então, cortam o sânscrito. Mas amanhã cortaram o latim e depois o grego, a filologia, a arqueologia. O que acontecerá no mundo daqui cem anos, quando os últimos conhecedores de grego, latim e sânscrito tiverem morrido...



Frente a uma descoberta arqueológica, ninguém mais saberá ler uma inscrição. É uma ameaça terrível para a democracia e para a liberdade. Quando não conhecermos mais o passado, quando tivermos apagado tudo o que veio antes. Viveremos sem memória. E quem vive sem memória não pode entender o presente, nem o futuro. Outro tema importante é que no Brasil, como na Europa, as primeiras duas palavras que o estudante aprende na universidade são ’’débitos e créditos’’. Que o problema está sendo criado... É que os estudantes se tornaram clientes das universidades. E o que fazem os clientes... Compram o diploma. Isso é um erro terrível.



As universidades não são feitas para vender diploma, e sim para oferecer aos estudantes, uma cultura que possa torná-los livres. O mesmo discurso vale para os bens culturais. Na Itália  os ministros chamam nosso patrimônio monumental de ‘’petróleo do país’’. É uma ofensa enorme que se faz ao Coliseu e a uma estátua de Michelangelo. Porque a beleza é exatamente o contrário do petróleo.



A beleza não pertence a ninguém. Chamamos esses monumentos de patrimônio da humanidade. O coliseu não é italiano; é brasileiro também. Os monumentos de Palmira não são da Síria; são de todo o mundo. A beleza ensina que o mais importante não é possuir, mas fruir. Posso ficar feliz, apenas  por ter visto o quadro. As meninas de Velásquez, no Museu do Prado e porque as levo para casa. Não são se combate a corrupção somente com boas leis ou com magistrados. Combate-se educando os jovens pelo amor ao bem comum. Hoje, damos aos jovens outras indicações. Dizemos; Pense em seu egoísmo. ‘’Pense no seu egoísmo’’. Pense em fazer dinheiro. Matricule-se na universidade não para aprende, mas para apresentar um diploma ao mercado.



Muitos jovens não escolhem a universidade com base nas suas paixões. Todos dizem a eles; Escolha a faculdade que vai lhe fazer ganhar dinheiro. É assim que estamos corrompendo os jovens. Como mudar isso... Precisamos educar os jovens  a resistir  corrupção. Por isso, penso que a educação e a saúde pública são dois pilares da sociedade. Vejamos o que está ocorrendo no Brasil; milhões de pessoas estão abandonadas

a si mesmas, sem educação, saúde, sem nada. Que percepção da vida pode ter uma criança que nasce nessas condições. Que dignidade humana podemos garantir a ela... Não podemos viver bem em um mundo no qual as desigualdades são tão terríveis e fortes. Antes, existia uma classe média. Depois dessa crise, que é mundial, a classe média está se tornando pobre. Estamos destruindo o futuro da humanidade.



‘’Não é um balizamento, mas é uma reflexão que nós queremos colocar a toda nossa comunidade universitária. Para tanto convidamos o Doutor Honoris Causa pela UFRGS, Nuccio Ordine, que leva o nome da instituição não só a Universidade  da Calábria, onde ele leciona, mas em tantos centros de pesquisas dos quais faz parte. Essa conferencia é para vocês’’.

Afirmou.



O pensador italiano abriu suas reflexões com críticas, a lógica de mercado, infiltrada no ambiente acadêmico, em que estudantes também pressionados pelos contextos sociais e econômicos, procuram a universidade unicamente interessados em sair de lá com um diploma, um título. ‘’Não se pode aplicar a lógica de uma empresa no gerenciamento das universidades e de modo mais amplo a educação. Estudantes não podem ser considerados clientes. É uma aberração’’. E alertou para os perigos que só o desprezo pelos saberes humanísticos, considerados  inúteis, trazem à educação em geral aos bens culturais, á pesquisa científica, ás escolas. Ás universidades.



Estaremos destruindo nossas memórias, pois não seremos capazes de reconhecer as culturas antigas, de interrogar o que nos cerca, até avançarmos para uma total amnésia. É uma humanidade sem memória perde o senso de identidade, sentenciou ORDINE. Na opinião do professor, a orientação utilitarista na academia se faz perceber também na queda dos investimentos em pesquisas não ligadas a uma finalidade imediata. A pesquisa básica, teórica, fundamental é preterida pela pesquisa aplicada que é considerada mais digna de receber dinheiro, porque proporciona a realização de um produto. Mas as grandes revoluções científicas na humanidade foram possíveis a partir da inquietação que a pesquisa básica avaliou.