A dieta
mediterrania não difere daquela das cidades costeiras italianas, mesclando vegetais
com boa dose de carboidratos e de proteína animal, além do vinho tinto. Por
outro lado, confirmou que muitos trabalharam até os 90 anos, ou mais na cidade
e nas encostas da montanhosa região, o que lhes garantiu atividade física
moderada e constante. O único fator comum na vida de todos os visitados é sua
vida social, o contato e o cuidado diário que recebem de familiares, dos
vizinhos e dos demais membros da comunidade. Há um forte senso de pertencimento
aquela vida, aquela comunidade, todos parecem sentir-se incluídos.
Essa marca
cultural é tradição e os que hoje cuidam dos mais velhos, sejam filhos,
sobrinhos ou netos o fazem verdadeiramente
motivados. Interagir, conversar e viver em família, apesar de serem hábitos
simples, podem ter efeitos poderosos sobre o organismo, especialmente sobre o
cérebro. Estudos da neurociência demonstram que ao interagir face, áreas
específicas do cérebro envolvidas com a atenção, a inteligência social e a
recompensa emocional são ativadas. Ainda, o contato face a face causa a
liberação de hormônios como a oxitocina, associada a confiança, e a
betaendorfina, uma da mediadoras da sensação de bem-estar bem como diminui os
níveis de cortisol, o hormônio de
estresse. É possível inferir que, além de alimentação, água e soro, o genuíno
contato humano é necessário para sobreviver com boa qualidade de vida. Ao
voltar o olhar para o cotidiano e observar como as pessoas a nossa volta se
relacionam, nos damos conta de que há muito que aprender com os centenários
italianos. Paradoxalmente, ou nem tanto, nesta área digital dominada pelas
mídias sociais, é comum observar grupos de adolescente ou casais muito jovens
em restaurantes conversando com os olhos fixos nas telas dos telefones
celulares. Pesquisas de opinião revelam que as pessoas passam até 10 horas
diárias nas redes sociais e navegando na internet. Assim não surpreende o fato
de que, na Inglaterra um terço das pessoas com mais de 65 anos declara não ter
outra pessoa a recorrer em caso de necessidade, e que percentual semelhante de
jovens com menos de 25 anos se sinta desconectado das pessoas ao seu redor. É o
silencio ensurdecedor da solidão.
A doutora Susan
Pinker defende que o contato pessoas e a consciência de não estarmos sós são um
imperativo biológico e que todos podem construir ´´sua própria vida’’.
Construir relações pessoais em todos os ambientes e cultivá-los pelo contato
frequente e afetivo, usando as tecnologias para aproximar-se e aumentar as
interações face a face. Talvez seja esse o segredo para viver mais e melhor.
Em Porto
alegre para uma palestra no Fronteiras do Pensamento no começo de dezembro, a
psicóloga conversou com Zero Hora no carro a caminho do aeroporto, onde
embarcaria para São Paulo. Confira as seguintes redes sociais são boas ou
ruins...
-Os dois.
Uso as redes sociais da mesma forma como leio o jornal; para descobrir quem nasceu, quem morreu e o
que aconteceu de novo com o mundo. Mas não para o contato pessoal.
Aliás, é
incorreto chamá-las de redes ‘’sociais’’. Elas não conectam você de fato.
Pesquisas mostram que em vez de fazerem os usuários se sentirem bem, as redes
fazem as pessoas se sentirem mal em relação a si mesmas, Ao acessar esses sites,
vemos o que acontece na vida de todos e, assim, sentimo-nos sozinhos e
inadequados. Uma pesquisa recente da
Sociedade Real para Saúde Pública do reino unido mostrou que o Instagram é a
rede social que mais faz mal.
O paradoxo
é; em vez de nos conectar, as redes sociais fazem com quem sintamos que há algo
de errado conosco. Esse estudo mostrou, assim como outras pesquisas, baseados
em imagens são os piores, particularmente no caso de adolescentes, que que
estão desenvolvendo as suas identidades. Eles precisam descobrir quem são e
aprender a como se integrar a uma tribo. E as redes sociais os fazem se sentir
alienados e inadequados.
A chave do
contato social é que nós humanos precisamos sentir que pertencemos a algum
lugar. Mas pesquisas mostram que as pessoas que usam redes sociais não sentem
que pertencem a algo em uma rede social na qual você acumula 700 amigos. É mais uma coleção. Algumas
pessoas coletem rochas, outras conchas e outros contatos. Uma coisa que me
surpreende foi descobrir que, em média, homens tendem a ter redes de contato
mais abrangentes, enquanto as mulheres tem re- des menores e mais íntimas.
Susan
Pinker diz que não pode predizer o futuro, mas posso dizer que, agora, as
pesquisas mostram que jovens adultos se sentem muitos sozinhos. Se
posso prever algo, acho que haverá uma reação dos millenials. Vejo uma
tendência, entre eles, de busca de autenticidade por experiências reais.
Eles querem cervejas artesanais, feitas de forma
original, picles a moda antiga, blusões customizados, singularidade e
autenticidade. Eles pagam bastante para não serem artificiais. Isso vai ocorrer
também com o contato social no futuro. Os jovens vão se dar conta de que estão
perdendo algo. Não acho que ninguém vá se livrar dos
smartphones e de enviar mensagem por texto.