REGINA DINIZ
Jamais, em tempo algum, fomos tão pressionados por um volume de informações, como o que é atirado hoje sobre nós, em fragmentos, sem a mínima qualidade, tendo como premissa maior, a pedagogia da repetição psicótica através do rádio, televisão, panfletos, satélites etc... São propostas com o claro objetivo de estraçalhar a nossa convicção a respeito de nosso próprio ser. Nós sabemos que quanto mais ampliamos a nossa verdade objetiva, mais diminuímos a nossa certeza interior. Nós sabemos que quanto mais ampliamos a nossa verdade subjetiva, mais aumentamos a nossa verdade interior.
É incontestável a extraordinária proliferação do poderio técnico dos nossos tempos, mas não nos adiantou muito, porque todos nós desejamos é evoluir como pessoas. Eu me protejo interiormente, porque temo ser empurrada para uma possível aniquilação emocional. Todos nós somos proprietários da qualidade de nossas interpretações existenciais. Invisto com ímpeto, numa qualidade introspectiva, para descobrir várias maneiras construtivas de pensar a vida por mim mesma.
Reconheço o desespero dos meus tempos. Procuro explicações do porque das pessoas lançarem mão de diversos subterfúgios para entorpecer a própria consciência através da apatia, da insensibilidade psíquica, do hedonismo que ordena o prazer individual e imediato como o único bem possível, princípio e fim da vida. Se estas pessoas atormentadas pela dúvida da vida, valorizassem o diálogo consigo mesmo, a auto-afirmação surgiria, e elas entenderiam a maravilha de nossa destinação de seres pensantes.
O nosso imaginário se fortalece, quando abrimos um espaço, para perceber os degraus da afirmação de nossa personalidade. Entremeando pelos labirintos de nosso ser, conseguimos captar lampejos de convicção interior. A descoberta da lei maior da consciência do valor da vida exige esforço afetivo de fé em nós mesmos, e fé na união com Deus.
Parecemos hesitantes ao meditarmos a respeito de como ser a melhor pessoa possível para nós mesmos e para a humanidade. Será temeroso demais, íntimo demais, profundo demais, adentrarmos aos nossos sentimentos, tentando purificar as nossas emoções, num momento histórico de tanta degradação dos valores éticos? É saudabilíssimo ir ao encontro do próprio ser para estimular valores espirituais. Não posso esconder-me de mim mesma. A solução da problemática da compreensão construtiva da existência está em aceitar decifrá-la...
Ao procurar o ser, ganhamos aqueles presentes espirituais, que mais apreciamos na vida. O sentimento de ser com qualidade está profundamente ligado às questões éticas: - questões de amor universal. – questões de desencarnação, solidariedade e afeição fraterna etc... É um gigantesco desafio, dedicar-se a compreensão dos valores existenciais.
Somos criaturas que podemos inquirir, que nos encantamos com música, que reunimos palavras e idéias para criar poesia, que podemos admirar o nascer do sol, sentindo-nos motivados. Apoiamos por intuição o nosso sentimento ontológico, redescobrindo a imagem que temos de nós mesmos como indivíduos responsáveis por nossa própria humanidade. O crescimento interior envolve uma batalha complexa do ser contra o possível não ser.
Em nenhum outro período do conhecimento humano, o homem foi tão problemático consigo mesmo como em nossos dias. Temos pleno conhecimento de que a perda mais devastadora em culturas de objetivação como a nossa, é a consciência individual de si mesmo. A Cultura de Massa padronizou o comportamento humano, matando a consciência individual. Há milênios o ser humano sempre pediu a Deus ajuda para descobrir os caminhos, que o levasse a uma consciência vigorosa de si mesmo. Por que será que a modernidade rejeitou milênios de conhecimento ético? Por que será que a Cultura de Massa
impôs a identificação, só com objetos, como ideal de vida?
O pensador Karl Jasper acredita, que as forças que destroem a consciência pessoal, nos dias de hoje, são os processos devastadores do conformismo e do coletivismo, que podem levar a uma perda ainda mais radical da consciência individual por parte do homem moderno. Sempre lutei comigo mesma pela abertura da aceitação da intensidade da autoconsciência. A criatividade pessoal (que é expressão da autoconsciência) colabora firmemente no soerguimento da motivação da personalidade. As propostas do conformismo e coletivismo padronizado são propostas claras de alienação em massa. Mas por que será que aconteceu esta gigantesca avalanche de empobrecimento cultural?
Através de profunda reflexão, faço de minhas experiências uma tomada de consciência para alcançar a compreensão da realidade contextual, através de livros de pensadores, que ajudam muito. Perguntando-me: - estou satisfeita com o que acontece dentro de mim e ao meu redor? – Será que a minha razão está suficientemente equilibrada, neste mar de violência social? – Será que já me dei conta da desintegração emocional, que os meus tempos protagoniza? – Será que a perda de fé do homem em sua própria dignidade não o deixa triste, deprimido e violento?
Durante toda a minha vida fui obrigada a construir a auto-superação, interpretando-a como a coragem de ser uma pessoa responsável. Lutei muito para que a minha vida não fosse um caos irrefletido. Caminho na vida fazendo-me perguntas e perguntas... Até hoje não achei as respostas que desejo, mas continuo procurando-as com intensidade...
É dignificante trabalhar a nossa própria história. O maravilhoso é que podemos escolher como agir em qualquer dado momento. Se nos surpreendemos, agindo de uma maneira que não nos agrada¸ podemos optar por mudar, seja modificando a nossa conduta, ou se isso não for possível, mudando o modo como encaramos a situação. É importantíssimo nutrir a própria individualidade.