NUCCIO ORDINE fala da importância do
ensino dos saberes humanistas, das artes, da música. Critica a busca do
conhecimento unicamente guiada pela lógica do lucro e diz que o diploma não é
produto, não se vende. Para um Salão de Atos, absolutamente lotado, o
professor, filósofo e crítico italiano NUCCIO ORDINE ministrou na manhã de hoje
a aula magna de abertura do semestre letivo na UFRGS com o tema ‘’A Utilidade
dos saberes inúteis’’. ORDINE é um dos maiores conhecedores sobre a Renascença
na atualidade e grande especialista na obra de GIORDANO BRUNO. É defensor do
ensino e da valorização dos conhecimentos humanistas na formação dos estudantes
de qualquer área.
A mesa de abertura do evento contou
com o reitor CARLOS ALEXANDRE NETTO, e o vice-reitor RUI VICENTE 0PPERMANN e o
professor LUIZ CARLOS BOMBASSARO. Após solicitar um mínimo de silencio pelo
recente falecimento do pensador italiano UMBERTO ECO, o Reitor lembrou ao
público que a Universidade está resgatando nos últimos anos a tradição das
aulas magnas, trazendo oportunidade de grandes reflexões por ocasião da
abertura do semestre. Não é um balizamento, mas é uma reflexão que nós queremos
colocar a toda nossa comunidade universitária. Para tanto convidamos o Doutor
Honoris Causa pela UFRGS, Nuccio Ordine, que leva o nome da instituição não só
a Universidade da Calábria, onde ele leciona, mas em tantos centros de
pesquisas dos quais faz parte.
O pensador italiano abriu suas
reflexões com críticas a lógica de mercado, infiltrada no ambiente acadêmico,
em que estudantes, também pressionados pelos contextos social e econômico,
procuram a universidade unicamente interessados em sair de lá com um diploma,
um título. Não se pode aplicar a lógica de uma empresa no gerenciamento das
universidades e de modo mais amplo a educação. Estudantes não podem ser
considerados clientes. É uma aberração. E alertou para os perigos que o
desprezo pelos saberes humanísticos, considerados inúteis, trazem a educação em
geral, aos bens culturais a pesquisa científica, as escolas, as universidades.
Estaremos destruindo nossas memórias,
pois não seremos capazes de reconhecer as culturas antigas, de interrogar o que
nos cerca, até avançarmos para uma total amnésia. E uma humanidade sem memória
perde o senso de identidade, sentenciou ORDINE. Na opinião do professor, a
orientação utilitarista na academia se faz perceber também na queda dos
investimentos em pesquisas, não ligadas a uma finalidade imediata. A pesquisa
básica, teórica, fundamental é preterida pela pesquisa aplicada, que é
considerada mais digna de receber dinheiro, porque proporciona a realização de
um produto. Mas as grandes revoluções científicas na humanidade foram possíveis
a partir da inquietação da pesquisa básica´’, avaliou. A pesquisa básica,
teórica, fundamental é preterida pela pesquisa aplicada, que é considerada mais
digna de receber dinheiro, porque proporciona a realização de um produto. Mas
as grandes revoluções científicas na humanidade foram possíveis a partir da
inquietação da pesquisa básica, “avaliou’’.
Citando o desperdício de dinheiro causado pela corrupção e
evasão fiscal na Itália, NUCCIO sustenta que está na educação um fértil caminho
para o enfrentamento a crise econômica que assola várias nações, inclusive o
Brasil. ‘Essa crise não é só econômica. Sobretudo é moral. Mas se tivermos uma
formação do jovem que considera o bem comum, capaz de opor-se a lógica do lucro
a todo preço, que não se deixa corromper, teremos uma economia potentíssima
capaz de financiar a manutenção da reflexão, dos saberes considerados
inúteis’’. Investir em instrução, na cultura, significa educar o jovem no
respeito a justiça, a solidariedade humana, a tolerância, a democracia
finalizou.
O professor defende a valorização dos conhecimentos não
ligados diretamente ao alcance de resultados práticos, os chamados saberes “inúteis”,
mas que são fundamentais para sedimentar as bases para um pensamento crítico da
sociedade. Também desaprova o que chama de “empresariamento” do conhecimento
científico, orientado pela lógica da produtividade extrema dentro do universo
acadêmico. Para ele, essa prática ameaça a possibilidade de conceber a
universidade como um lugar no qual se reflete, se ensina, se faz pesquisa. De
acordo com o filósofo, a ótica utilitarista e do culto a posse acaba diminuindo
a essência das pessoas, pondo em risco não só a cultura, a criatividade e as
instituições de ensino, mas valores fundamentais como a dignidade humana, o
amor e a verdade,
A necessidade de consumir um volume cada vez maior de
informação é igualmente contestado pelo professor italiano, Para Nuciou, uma
forma de combater a ansiedade causada pela falta de tempo para estar informado
de tudo que nos rodeia é contrapor-se a velocidade – ‘’ imposta pela internet,
pela comunicação, pelo lucro e pelo empresariamento exasperado’’ – e
estabelecer uma ode a lentidão. Da mesma forma a educação, segundo NUCCIO, não
pode se apoiar na ilusão de que prepara jovens exclusivamente para o mercado de
trabalho, porque os cenários estão em transformação constante. Essas e outras
reflexões serviram de base para compor seu mais recente livro, A Utilidade do
inútil- um manifesto’’, recém lançado no Brasil pela Editora Zahar , com tradução do professor da UFRRGS,
Luiz Carlos Bombassaro . Nascido na cidade italiana de Diamante, em 1958, o
professor de Teoria da Literatura na Universidade da Calábria é reconhecido
internacionalmente como um expoente da crítica da cultura e um dos mais
importantes estudiosos do Renascimento. Sua vasta produção bibliográfica foi traduzida para inglês, japonês , francês,
alemão, romeno e russo.
O Brasil é um país imenso que tem tudo, para ser bem-sucedido
em termos de riqueza nacional. Mas isso não é suficiente para ser bem-sucedido
em termos de riqueza nacional. Mas isso não é suficiente para fazer a
prosperidade de um país. O exemplo extremo é a Rússia, que sem dúvida é o país
mais rico do mundo, mas é um desastre. Do lado de vocês há a Venezuela, que
repousa sobre um tesouro de petróleo e está falida. A riqueza não é suficiente.
O Brasil é bem sucedido em alguns aspectos, mas, como você sabe melhor do que
eu, há um problema político. O sistema político não avança, há uma corrupção
horrível, as pessoas não confiam mais. Dentro deste contexto, é um país que tem
uma cultura acolhedora e alegre, mas, ao mesmo tempo, vejo brasileiros muito
estressados por causa das dificuldades da vida em um pais que poderia ser muito
mais bem do que ele é. Penso que no
Brasil há todos os recursos para se desenvolver, mas de novo não basta apenas
isso. Mesmo que o Estado e a política sejam menos importantes do que no
passado, eles continuam essenciais, É preciso fazer reformas, é preciso justiça
e elites políticas de talento. Acho que o problema do Brasil não é a economia.
Em primeiro lugar, há um problema considerável no domínio da política e
provavelmente também da justiça social, com desigualdades insuportáveis.
Isso é evidente. No Brasil, a 200 metros de uma favela há um
condomínio de luxo. As desigualdades não são más, não sou contra elas, mas elas
não podem paralisar um país. Penso que há um enorme trabalho a ser feito para
que os brasileiros acreditem que o futuro é para eles que devem se esforçar,
mas que haverá justiça e que a corrupção, que é um enorme problema, seja
reduzida.
