domingo, 5 de novembro de 2017

OUSAR MODELOS HUMANOS DE ECONOMIA E CONVIVENCIA




REGINA DINIZ



Eduardo Gianetti lança Trópicos Utópicos em Porto Alegre após publicar sete livros e dois deles premiados com o jabuti, o professor economista Eduardo Gianetti chega ao oitavo, Trópicos Utópicos   --Companhia das Letras com uma mensagem otimista, a de que existe, sim, uma utopia mobilizadora da alma brasileira capaz de confirmar o Brasil como o país do futuro. Os ensaios buscam identificar a crise civilizatória que acomete nossos tempos, destrinchar as ilusões, que alimentar e ainda esboçar uma saída para o problema, sob a perspectiva brasileira.



O livro Tópicos Utópicos á apresentado como perspectiva brasileira sobre a crise civilizatória. As três primeiras partes são uma tentativa de mostrar o que há de errado no mundo moderno. Uma expectativa ilusória que se criou sobre a capacidade da ciência de elucidar o mistério da condição humana, uma ilusão muito poderosa em relação a capacidade da tecnologia de controlar a natureza em benefício do homem e por fim, uma terceira ilusão, de que o crescimento econômico proporcionaria uma vida mais livre, feliz e digna de ser vivida de maneira indefinida. A crise civilizatória engloba esses três pontos. A crise a essas três ilusões da modernidade parte de um ponto de vista brasileiro.



O Brasil tem na sua cultura, graças a suas raízes não ocidentais, um doce sentimento e uma capacidade de celebrar a vida que independe da lógica e da razão científica. Temos um patrimônio ambiental único, o que nos confere uma enorme responsabilidade em relação à crise ambiental e uma disposição amável e amigável, que realiza muito o que podemos esperar do crescimento e da renda como fonte da realização humana.



Tivemos período de florescimento e euforia econômica cultural na segunda metade dos anos de 1950, com bossa nova, Brasília, industrialização, Cinema Novo, que se perdeu logo no início dos anos 1960, que se perdeu logo no início dos anos de 1960 com renúncia de Janio, crise fiscal, inflação e golpe militar. Depois tivemos, em pleno regime militar, um momento de grande otimismo com a idéia estapafúrdia do Brasil potencia do milagre econômico. A idéia do Ame-o ou Deixe-o, usinas nucleares. Ilha de prosperidade em meio ao um mar turbulento. Criou-se uma fantasia de grandeza que acabou no final da década de 1970 e início dos anos 1980 com a crise da dívida externa e a década perdida. E agora a gente enxerga  essa  mesma alternância.

Há não muito tempo, o Brasil figurava como estrela do mundo emergente nas capas das revistas internacionais, sede da Copa do Mundo, incluindo milhões de pessoas no mercado de consumo, crescendo em meio a crise, um estado de quase euforia. E agora vivemos uma fortíssima reversão de expectativas, com o desabamento dessa fantasia. Eduardo Giannetti é considerado um dos economistas que coloca a perspectiva histórica para a gente não se entregar ao momento sombrio e perder de vista que o Brasil passa por ciclos há muito tempo. Estamos condenados a estes ciclos. Não. Temos de entender por que nossa imaginação flutua de maneira tão volátil, e o Brasil vive a alternância dessa embriaguez eufórica com depressão e prostração que arrasa. Já é mais do que tempo de se entender isso para evitar que se repita.

Eduardo Giannetti e o filósofo francês Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza interna, mas com a natureza interna ao ser humano. O mundo moderno nasceu embalado por três PIlusões poderosas; 1 – a de que o progresso da ciência permitiria banir o mistério do mundo e elucidar o sentido da existência; 2 – a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar a ameaça de grave descontrole da biosfera; 3 – a de que o processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.



O moderno Ocidente trouxe fabulosas conquistas, mas as suas promessas não se cumpriram. Se é verdade que uma era termina, quando suas ilusões fundadoras estão exauridas, então o veredito é claro; a era moderna caducou. Na encruzilhada do século 21 como enuncia com lapidar clareza a encíclica Saudato si do Papa Francisco , ”Os desertos externos estão aumentando no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos’’.



A degradação do mundo natural que nos cerca tem um correlato em nosso mundo interno. Assim como o metabolismo entre sociedade e natureza no mundo moderno produziu a crise ambiental, de igual, de igual modo a nossa natureza interna vem sofrendo as consequências inadvertidas e indesejadas de um processo civilizatório em guerra com o psiquismo arcaico do ser humano e caleado no culto fanatizado da tecnologia e da máxima eficiência em tudo.



A crise da ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia instintual imposta por um processo civilizatório agressivamente calculista e cerebral; uma forma de vida em que a convenção permeia os vínculos erótico-afetivos enquanto a competição feroz, a ansiedade e a ambição irrestrita dominam o mundo da produção e do consumo.



Daí o fardo do viver civilizado. O ideal de vida da leveza e da ‘’civilização sem peso’’, como propõe Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza interna ao ser humano.



E o Brasil com isso; Será desvairadamente utópico imaginar que temos tudo para não capitular á opressiva industriosidade geradora de objetos demais e alegria de menos do tecnoconsumismo ocidental... Que o Brasil, embora modesto nos meios, mantém viva sua aptidão para a arte da vida e a capacidade de cultivá-la a uma perfeição mais plena. Podemos ousar modelos de economia e convivência mais humanos e adequados ao que somos e sonhamos.