REGINA DINIZ
“O
homem moderno está bem alimentado, bem trajado, satisfeito e, contudo sem
personalidade, sem qualquer contato com seus semelhantes a não ser o mais
superficial possível. “Quando o indivíduo sente, a comunidade vacila”; “Nunca
deixes para amanhã o prazer que podes ter hoje, ou, como afirmativa culminante:
“Todos agora são felizes”. A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em
divertir-se. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos,
panoramas, alimentos, bebidas, gente, conferências, livros, filmes – tudo é
consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite. Somos os
eternamente em expectativa, os esperançosos – e os eternamente decepcionados.
Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir:
tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e
consumo”. (Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo- 1a. Edição – 1976 –
Cia.Editora Fon-Fon e Seleta – Rio de Janeiro).
Como
se preocupar menos com o consumismo e com o dinheiro? Como manter a mente sã
nesta cultura materialista e totalmente escravizante? Como encontrar o trabalho
ideal? É importante salpicar reflexões sobre a vida cotidiana. Uma tremenda
insanidade tomou conta dos indivíduos nas nações, onde reina a civilização capitalista. O
consumismo grave como bandeira da felicidade trouxe consigo misérias
individuais e sociais, que há dois séculos martirizam a humanidade que se
tornou muito infeliz. A comunicação de massa exclui a cultura e o saber. O
conteúdo genuinamente cultural só aparece como conotação e função secundária.
Nota-se que o indivíduo contemporâneo fatigou-se de reciclar-se todos os anos,
todos os meses, todas as estações, no vestuário, nos objetos e no carro.
Entretanto,
começamos a viver no meio de uma revolução em nossos tempos, que é o nascimento
da sociedade pós-industrial, que valoriza a produção de bens materiais e
prioriza os produtores de idéias, já sem tempo surge a excelência criativa. A
ação conjunta do progresso tecnológico e da escolarização difusa ocasionou uma
enérgica redução do tempo humano necessário para a produção de bens e serviços.
A conseqüência é que para um número
crescente de pessoas o tempo livre prevalece sobre o tempo absorvido pelo
trabalho. Chegamos a um ponto de inversão de rota, ou seja, o tempo livre e a
capacitação de valorizá-lo determinam o nosso destino cultural como também
econômico... Finalmente teremos tempo de pensar e fazer um bom investimento em
termos de crescimento pessoal, cultural e social.
“A
perda do eu aumentou a necessidade de conformar-se, pois dela provém uma dúvida
recôndita a respeito da própria identidade. Se eu não sou mais do que aquilo
que julgo que devo ser – Quem sou eu? A identidade do indivíduo tem sido um
problema capital da Filosofia moderna desde Descartes. Hoje, fiamo-nos em que
somos nós mesmos. No entanto, a dúvida acerca de nós mesmos ainda subsiste ou
até mesmo aumentou. Em sua famosa peça teatral – Como me queres –Luigi
Pirandello – parte da pergunta: Quem sou eu? Que prova tenho eu de minha
própria identidade... Não tenho identidade, não há ego que não aquele que é o
reflexo do que os outros esperam que eu seja: eu sou “como você me quer”.
(Erich Fromm – O Medo à Liberdade – 14ª edição – Zahar Editores – Rio de
Janeiro – 1983).
Na
elaboração da identidade equilibrada é fundamental a presença da liberdade e da
independência, para que os homens seja livres, críticos, independentes,
tornando-os parte integral da humanidade. A liberdade e a independência são
fortes pilares que sustentam a realização de seu ego, para que ele tenha forças
emocionais para ser ele mesmo, idealizando suas próprias propostas para consigo
mesmo, e também para a própria cultura.
Filósofos idealistas acreditam que a realização individual é alcançada
através da percepção intelectual.
Acredita-se
que a busca da independência e da liberdade para que o homem se torne uma forte
individualidade é um objetivo social de grande valia. A liberdade e a
independência são potencialidades que se encontram em todas as pessoas, e só se
tornam reais quando são manifestadas. A liberdade positiva consiste na
atividade espontânea da personalidade integrada em sua totalidade. Se o
indivíduo realiza seu eu por meio de atividade espontânea, relacionando-se
assim com o mundo, ele elimina as suas dúvidas a respeito de si próprio e do
sentido da vida. Descobre-se como um indivíduo ativo e criador, reconhece que só há um sentido para a vida: o
próprio ato de viver construtivamente para si e para o mundo.
“Esse
fascínio suscitado pelo exibicionismo e pelo voyeurismo encontra terreno fértil
em uma sociedade atomizada por um individualismo com beiradas narcisistas, que
precisa ver sua bela imagem refletida no olhar alheio para ser. Essas forças
tendem a esfacelar todos os nós sociais que poderiam propiciar uma
ultrapassagem das tiranias da intimidade. No entanto, uma eventual reformulação
em chave contemporânea daqueles laços cortados pela experiência moderna
possibilitaria, talvez, enxergar o outro como outro, em vez de fagocitá-lo no
inchaço do próprio eu sempre privatizante”. (Paula Sibilia – O Show do Eu – A
intimidade como espetáculo – Editora Nova Fronteira S.A. – S.A. – Rio de
Janeiro – 2008).
Percebem-se,
nos programas televisivos, cinematográficos, artísticos, reality shows,
biografias e renovadas formas de diários íntimos uma carência desmedida por
mostrar-se. Neste clima, pautado pelo imenso desejo de visibilidade total, e
pelo culto à personalidade usam diversas ferramentas disponíveis online para
expor sua intimidade e criar, assim, uma personalidade que lhes pareça
grandiosa e ostentosa. Neste processo histórico e cultural tão desconcertante,
quanto espantoso, em que o velho slogan “faça você mesmo” vem sendo substituído
pelo “mostre-se como for” e o verbo “ser” torna-se um efeito de parecer.
Neste
século XXI, está sendo marcado por fortes mutações nas formas como nos
construímos como sujeito. Houve um profundo deslocamento na base central que
alicerça a experiência de si. Em vez daquelas subjetividades tipicamente
modernas, dedicadamente elaboradas no silêncio e na solidão construtiva do
espaço privado (caráter introdirigido) explodiu
absurdamente de maneira crescente as personalidades alterdirigidas,
voltadas não mais para dentro de si, mas para “fora”, visando a captação dos
olhares alheios em um mundo saturado de estímulos visuais.
“O
que conta hoje em dia não é a diferença entre os que crêem e os que não crêem,
mas a diferença entre os que se interessam e os que não se interessam. Essa
nova atitude com relação à vida pode ser expressa mais especificamente nos
seguintes princípios: O desenvolvimento do homem requer sua capacidade de
transcender a estreita prisão de seu ego, da sua cobiça, do seu egoísmo, da sua
separação do seu próximo e, por conseguinte da sua solidão básica. Esta
transcendência é a condição para ser franco e ligado ao mundo, vulnerável,
embora com uma experiência de identidade e integridade; da capacidade de gozar
tudo o que é vivo, de verter suas faculdades no mundo que o cerca, de ser
“interessado” em suma ser em vez de ter e usar são conseqüências do passo para
superar a cobiça e a egomania”. (Erich Fromm – A Revolução da Esperança – Por
uma tecnologia Humanizada – Zahar Editores – 1981).
Uma
das maiores alegrias da vida numa época tão confusa é a possibilidade de sermos
obrigados a tomar consciência de nós mesmos. A sociedade contemporânea, nesta
fase de decadência, de propor estados primitivos de padrões e valores, não nos
dá uma visão do que somos e do que devemos ser, então não temos outra escolha a
não ser a busca de nós mesmos. A realidade é que muitas pessoas lutam para
resolverem os seus próprios problemas, é uma luta íntima e profunda para
alcançar uma nova integração.
Existem
potencialidades no nosso íntimo, que só são liberados quando tomamos uma
decisão consciente. É urgente entronizar a ética, que jamais deveria ter se
ausentado um minuto sequer de nossa civilização e de nossos pensamentos. As
decisões de caráter ético devem ser, permanentemente ações pensadas e afirmadas
pela pessoa, uma expressão profunda de seus motivos e atitudes interiores. Para
agir de maneira ética será sempre preciso lutar, duvidar, entrar em conflito. Isto
quer dizer que a pessoa se esforçou por agir, tanto quanto possível, a partir
do âmago de si mesma.”Segundo Sócrates, cada indivíduo é o seu próprio centro e
o universo gira à sua volta porque o conhecimento de si mesmo é o conhecimento
de Deus”.
