quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ÉTICA, RAZÃO, DESTINO E FELICIDADE












Martha C. Nussbaum, filósofa norte-americana, é uma influente intelectual da atualidade nos Estados Unidos. Seu trabalho é reconhecido por reunir estudos dos clássicos da antropologia, da psicanálise e da sociologia, na busca por eudaimonia, palavra originada do grego que representa uma vida plena e próspera. Entre

as consagrações recebidas estão o Premio Kijoto e a dotação Nacional para as Humanidades, honra concedida pelo governo dos Estados Unidos. Em 2004 juntamente com o Premio Nobel de economia Amartya Sen, fundou a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade humanos.

A filósofa e classista norte-americana Martha Craven Nusbaum despontou para a consagração internacional em 1986 com o livro ’’The fragility of goodness’’. Nas mais de 500 páginas deste tratado, Nussbaum examina tragédias gregas de Esquilo – Os sete contra Tebas e Agamemnon-, Sófocles – Antigona – e Eurípides, Hécuba e outras obras de Platão; Protágoras, República, banquete e Fedro, e Aristóteles – Ética a Nicomano, Política, Poética e Retórica, em busca de argumentos para examinar ética, razão, destino e felicidade. É obra de grande folego , que Camille Paglia apontou como uma das mais altas realizações acadêmicas do século 20.

Publicado no Brasil como ‘’ A fragilidade da bondade, o tratado examina respostas gregas para os desafios éticos de se construir uma boa vida por meio de boas escolhas, diante de ameaças do des-tino que ultrapassam nossa capacidade de controle e provocam crises angustiantes. Os impasses da tragédia grega, aponta, levam a dilemas em que os imperativos da práxis se impõem e exigem o cumprimento de deveres éticos na esfera pública, com o que o leitor espectador encontra um amparo para compreender as difíceis escolhas que a vida impõe, e a eventual falta de soluções positivas.

Após examinar tragédias, a vencedora do premio Kijoto em 2016  - a mais alta honraria japonesa – vale-se do idealismo racionalista de Platão para contrastar o otimismo da filosofia diante do peso da fortuna. Ao final, a filósofa, hoje professora de Lei e Ética na Escola de Direito da universidade de Chicago, segue os passos de Aristóteles para reconhecer o poder do destino trágico, ameaçando a vida mesmo que esta possa guiar-se pela brusca prudente da felicidade, eudaimonia, mediante boas escolhas, a grande meta da filosofia grega em sua era de maturidade.

A humanidade vive, hoje, um momento de sua história marcado por grandes transformações. Em ‘’Sem fins lucrativos’’; por que a democracia precisa das humanidades.  Martins Fontes – 2015, a filósofa norte-americana Martha Nussbaum defende que a educação precisa resistir as tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta do Produto Interno Bruto. Lançada após a crise de 2008, em que diversos países do mundo cortaram verbas da cultura e das artes, a obra foi escrita como um manifesto de alerta sobre os objetivos mais profundos da educação. Martha Nussbaum afirma que priorizar aplicações técnicas, em detrimento das humanidades, as democracias ocidentais solapam os próprios fundamentos e aproximam-se do modelo cultural de regimes autoritários como China e Cingapura.

A principal advertência de Nussbaum, professora da Universidade de Chicago conhecida pelos trabalhos sobre ética e identidade, é que os sistemas democráticos não sobrevivem sem o estímulo á imaginação e ao pensamento crítico, faculdades que segundo ela, são desenvolvidas de modo crucial [ainda que não exclusivo] pela arte e filosofia. No centro desse argumento está a noção de imaginação empática, a capacidade de colocar-se no lugar do outro que, para Nussbaum, é uma condição para a construção de sociedades solidárias.

Atravessamos uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise econômica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia; a crise planetária da educação. Profundas alterações estão sendo produzidas naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe aferimos o alcance. Ávidos de sucesso econômico os países e os seus sistemas educativos renunciam imprudentemente a competência que são indispensáveis a sobrevivência das democracias.

Se a tendência persistir, em breve, haverá pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de colocar em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros. A verdade é que as humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Consideradas pelos políticos acessórios inúteis, em uma época em que os países precisam se desfazer do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande velocidade dos programas letivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças.

Aquilo que poderíamos chamar de aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, já que os países preferem o lucro de certo prazo, através de competências úteis e Contudo, para ser cidadão responsável, necessita de algo mais; de ser capaz de avaliar os dados históricos, de manipular os princípios econômicos e de exercer o seu espírito crítico, de comparar diferen

tes concepções de justiça social, de falar pelo menos uma língua estrangeira, de avaliar os mistérios  das grandes religiões  do mundo. Ser capaz de se referenciar em relação a um vasto leque de culturas, de grupos e de nações e a história das suas interações, isso é que permite as democracias abordar, de forma responsável os problemas com os quais se deparam atualmente. A capacidade que quase todos os seres humanos, em maior ou menor grau – de imaginar as vivencias e as necessidades dos outros deve ser amplamente desenvolvida e estimulada, se queremos ter alguma esperança de conservar instituições satisfatórias, ultrapassando as múltiplas clivagens que existem em todas as sociedades modernas.      

altamente aplicadas, adaptadas a esse objetivo. Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam – aquilo que Rabindranath Tagore  chamava de nosso ‘’invólucro’’ material. Mas, parecemos esquecer as faculdades do pensamento e da imaginação, que fazem de nós humanos e das nossas interações – as relações empáticas que não são simplesmente utilitárias.

Quando estabelecemos contatos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nós, imaginando-lhe faculdades internas de pensamento e emoção, então a democracia é deixada a má sorte, porque ela assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objetos. As escolas e as universidades do mundo inteiro tem, por conseguinte, uma tarefa imensa e urgente; cultivar nos estudantes a capacidade de considerarem membros de uma nação heterogênea [todas as nações modernas o são] e de um modo ainda mais heterogêneo, bem como uma noção da história dos diferentes grupos que povoam.



Se o saber não é uma garantia de boa conduta, a ignorância é que infalivelmente uma garantia de maus procedimentos. A cidadania mundial implica realmente o conhecimento das humanidades. O indivíduo necessita certamente de muitos conhecimentos factuais que os estudantes podem adquirir sem formação humanista memorizando, nomeadamente os fatos em manuais padronizados  ]supondo que não contém erros].