Muitos anos atrás, e alguns anos antes que os eventos do 11 de Setembro, o tsumani,o furacão Katrina, e o terrível salto subseqüente nos preços do petróleo (ainda que misericordiosamente por pouco tempo desta vez) propiciassem essas oportunidades horríveis de acordar e ficar sóbrio, Jacques Attali refletia sobre o fenomenal sucesso financeiro do filme Titanic , que superou todos os recordes de bilheteria anteriormente obtidos por filmes catástrofes aparentemente semelhantes. Ele então ofereceu a seguinte explicação, notavelmente plausível quando a escreveu, mas que, alguns anos depois, nos soa nada menos que profética: “O Titanic somos nós, nossa sociedade triunfalista, autocongratulatória, cega e hipócrita , sem misericórdia para com seus pobres, uma sociedade em que tudo está previsto, menos os meios de previsão... Todos nós imaginamos que existe um iceberg esperando por nós, oculto em algum lugar no futuro nebuloso, com o qual nos chocaremos para afundar ouvindo música... ( Zygmunt Bauman – Medo Líquido –Ed. Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de Janeiro – 2006)
Como questionar a procrastinação contemporânea? Como compreender a procrastinação como forma de esperança, de solução, esperando pelo tempo que já se esgotou? Acontece uma negação total com o agora, joga-se tudo para o futuro, elimina-se a realidade e a urgência do presente. Não realizar absolutamente nada, é dar-se mil desculpas pela própria insignificância, e pelo culto a sua própria impotência. A passividade e a inoperância é a indiferença com a responsabilidade no presente.
Gigantescos icebergs, criados pela cultura contemporânea, em seu silêncio majestoso nos contemplam: a crise financeira mundial, a crise nuclear, a crise ecológica, a exclusão social, terremotos, inundações, crimes violentos são evidentes, mas ninguém dá a mínima importância. As catástrofes por maiores que sejam não mais sensibilizam, entretanto a nossa responsabilidade com os nossos tempos, e com as próximas gerações batem forte em nossa sensibilidade afetiva.
A esperança de melhorar o social se encaminha para a concretização de ideais de qualidade de vivência, de integridade, de consciência e de razão purificada. São desejos latentes e intrínsecos, que pedem criatividade permanente. O objetivo maior desta emanação é a elaboração de uma vida repleta de construções mentais positivas e ativas. Não dá para não realizar absolutamente nada... Todos devemos pensar na responsabilidade pessoal e social
que nos cabe executar”. No mundo inteiro estão ocorrendo significativas mudanças: surgem grupos de pessoas que nutrem profundo anseio pela vida, por novas atitudes, em vez de repetir esquemas e projetos já superados. São novas idéias que entrelaçam o desejo de renovações profundas em nossa prática econômica e social com mudanças em nossa abordagem psíquica e espiritual da vida.
A nossa missão maior é desejar, que a civilização seja menos ameaçadora e aterrorizante, pensando em torná-la mais hospitaleira para a vida humana. Todos admitimos que algum melhoramento seja operacionalizado. A chama ardente da esperança é que nos mantém vivos e construtivos. É saudável nutrir o nobre objetivo em toda a nossa existência, fazendo o mundo melhor do que o encontramos. De uma maneira mais geral a meta idealizada é a ativação do indivíduo, a restauração do controle do homem sobre o sistema social, a humanização da tecnologia...
Há milênios o ser humano luta pela liberdade, igualdade e fraternidade. Precisamos acreditar que nós somos o mundo, e que só as nossas idéias serão capazes de melhorar o nosso mundo. Atualmente, considerável número de pessoas buscam novas orientações, novas fontes de realizações, que se centralizem nas prioridades da vida – física e espiritual – e não nas prioridades da morte. Os nossos corações estão se abrindo para a glória luminosa da bondade, da transparência e da confiança na ordem social. Acontece um despertar em nome da vida, e tem uma base tão ampla e comum, porque a ameaça à vida não é, atualmente uma ameaça para uma classe ou nação, mas uma ameaça para todos.
“Como todas as outras formas de coabitação humana, nossa sociedade moderna é um dispositivo que tenta tornar a vida com medo uma coisa tolerável. Em outras palavras um dispositivo destinado a reprimir o horror ao perigo, potencialmente conciliatório e incapacitante; a silenciar os medos derivados de perigos que não podem – ou não devem, pela preservação da ordem social – ser efetivamente evitados. Como ocorre com muitos outros sentimentos angustiantes e capazes de destruir a ordem, esse trabalho necessário é feito. O meio do “silenciamento silencioso” – um processo que é calado em vez de barulhento, oculto em vez de aberto, despercebido em vez de perceptível, invisível em vez de visto, etéreo em vez de físico”. O “silenciamento silencioso”: É estrutural; é parte de nossa vida diária; é ilimitado e portanto está em nós; é silencioso e assim passa despercebido; e é dinâmico no sentido de que, em nossa sociedade, ele se difunde e se torna continuamente mais abrangente. O caráter estrutural do silenciamento “exime” os representantes do Estado da responsabilidade por ele; seu caráter quotidiano o torna “inescapável” do ponto de vista dos que estão sendo silenciados. O seu caráter dinâmico o transforma num mecanismo de silenciamento cada vez mais digno de confiança”.( Thomas Mathiesen – Livro: Silently Silenced:Essays on the Creation of Acquiescence in Moderny Society –Waterside Press – 2004, p.9-14.).
A esperança em evoluir é permanente, é um estado de ser inato. São energias suaves, que nunca se ausentam de nosso imaginário e sempre procuram investir em normas sociais de maior grau civilidade. Em todos os tempos, o ser humano pressentiu os terríveis golpes de dominação, que visavam a sua escravização absoluta. Durante milênios, ele sempre esteve em ininterrupto plantão, procurando viabilizar a sua libertação. Neste início do século XXI surgiu a Internete com suas poderosas redes sociais, possibilitando mobilizações instantâneas que se interconectam em todo o globo. As pessoas lutam tenazmente apontando muitos alvos, até então intocados: denunciam os políticos, acusam o poder econômico, destacando os banqueiros, condenam os ricos em geral como minoria de 20 %, que sempre exploraram e continuam escravizando 80 % das populações.
São múltiplas as acusações, são muitos os protestos, e através de simples cartazes, as pessoas começaram a reivindicar direitos humanos em todos os continentes. É o início de uma nova era, é a esperança de um estado de espírito, que jamais abandonou a fé em uma vida plena. Agora se abriu em nossa consciência, a compreensão de que o presente é tudo o que temos, e que vale a pena ser vivido com qualidade existencial. Em todo o mundo o debate a crise econômica, denuncia o corte de benefícios sociais, reclamam o desemprego, o descaso com a educação, o desleixo com a saúde pública, corrupção, globalização fracassada, abandono com o meio ambiente, governos autoritários, capitalismo falido e outras causas bem obscurecidas.
Spinoza chamou a coragem de firmeza, que é encontrada na pessoa que se apóia dentro de si própria, ama a vida e deseja valorização do ser humano, que somos todos nós. A fé e a esperança são qualidades genuínas, que se movem rumo a mediações de realizações individuais e sociais. O atual sistema social mundial tornou-se inoperante, tirânico e ditatorial no que diz respeito às liberdades, e aos direitos universais do cidadão.
Um mundo singular e saudável está nascendo, é um mundo de esperança imorredoura de paz. Um novo equilíbrio entre liberdade, igualdade e segurança está sendo imaginado em escala planetária. Os mentores desta espetacular proposta são pessoas oriundas de regimes de educação democrática. Nos Estados Unidos, nas grandes Capitais Européias, nas três Américas, no Oriente, navegam mensagens: “Todos desejam um planeta, onde todos os seres humanos sejam iguais”.
São convites às mediações construtivas, onde brilham projetos inteligentes, a fim de criarmos planos sensatos e viáveis. No mundo igualitário, justo e humano que tanto almejamos, só se tornará realidade com trabalho delicadíssimo de encontro humano, com esforço coletivo, com políticas públicas transparentes, com liberdade de manifestação, com elevado nível de civilidade, com justiça social, com educação, com oportunidades para todos e principalmente que tremule a bandeira da paz. O primeiro passo foi dado, agora é indispensável o nosso trabalho de união, a nossa dedicação, a nossa paciência para que este novo mundo se concretize.
