quinta-feira, 22 de maio de 2014

O RESPEITO INQUESTIONÁVEL PELA ÉTICA


 REGINA  DINIZ

“A moralidade da pós-modernidade não tem código ético. No tempo em que nos confrontamos com escolhas de magnitude sem precedentes e conseqüências potencialmente desastrosas, não mais esperamos a sabedoria dos legisladores ou a perspicácia dos filósofos para nos levantar de uma vez por todas da ambivalência  moral e da incerteza de decisão. Suspeitamos que a verdade da questão seja oposta ao que se nos disse. É a sociedade, é sua existência contínua e seu bem-estar, que se tornam possíveis pela competência moral de seus membros, e não vice-versa. Mais exatamente, como Alan Wolfe o expressa, a moralidade é a prática negociada entre agentes instruídos capazes de crescimento de lado, e uma cultura capaz de mudança, de outro. Antes de reiterar que não haveria indivíduos morais se não pelo trabalho de treinamento e exercício realizado pela sociedade, vamos rumo a compreensão de que deve ser a capacidade moral dos seres humanos que os faz tão eximiamente capazes de formar sociedades e assegurá-las contra todos os contratempos de sua sobrevivência, feliz ou menos feliz”. (Autor: Wolfe Whose Keeper. – pg, 220).

As normas éticas podem guiar nossa conduta em nossas relações mútuas, nosso relacionamento com os outros e simultaneamente dos outros para conosco, para que possamos nos sentir seguros e unidos, colaborarmos uns com os outros, cooperar pacificamente e espelhar mútuo prazer sem medo e com elevada confiança. Notamos que precisamos com urgência destas normas éticas. Interagimos na companhia de muitos grupos intermináveis de seres humanos, conhecidos e desconhecidos, cuja interação depende do que fazemos e influenciam por sua vez o que devemos fazer. As normas de mediações são importantíssimas em nossa vida, necessitamos do conhecimento e das capacidades morais mais do que as capacidades técnicas.

O que nós e outros fazemos tem conseqüências não antecipadas, que podem neutralizar os bons propósitos. Não compreendemos ainda a urgência de enriquecermos a nossa imaginação moral. Estudando e dominando as normas éticas, poucas mais confiáveis, que herdamos do passado milenar e que nos ensinaram a obedecê-las e aceitá-las como maior caminho de entendimento humano. As Normas Éticas nos dizem como nos aproximarmos das pessoas no campo de nossa visão e alcance, e como escolher quais ações que são boas e sendo assim, devem ser feitas e quais as ações são más e sendo assim, devem ser evitadas.   

“Nada se apóia na própria reflexão da questão moral, a ligação entre o código e a conduta deve ser idealmente imediata, sem mediação, para excluir toda possibilidade de desvio. Tudo depende do monopólio do poder legislativo, pois a chance de os humanos se portarem moralmente é tida como dependente da eliminação, não do fomento, de sua tendência e capacidade para fazer juízos e opções independentes e portanto em princípio imprevisíveis. No momento em que o monopólio é abalado e as autoridades se multiplicam, os indivíduos são confrontados com a necessidade das próprias escolhas de acordo com o seu poder de julgamento moral, isto é de acordo com recursos que não se acredita  que possuam ou são suspeitos de usar erroneamente e portanto tiveram pouca chance de desenvolver. É isso que querem dizer com “Crise de Valores” e não admira que isso seja visto com alarme”. ( Auto: Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política – Zahar  Editor Ltda. – 1999 – Rio de Janeiro).

Com a total predominância do capitalismo e a chegada da globalização  no século XX os efeitos da lógica desumana do capital passaram a dominar muito mais do que as relações familiares, contagiaram a nossa alma, destruíram os nossos sonhos de crescimento interior, nos transformaram em seres industrializados, trocaram a nossa individualidade por objetos, por coisas materiais, viramos produtos. Segundo o filósofo francês Jean Paul Sartre, é necessário reconhecer o homem e a mulher como seres dotados de liberdade e igualdade. Os filósofos iluministas Rousseau e Locke afirmaram que este processo de desumanização admitiu esta sociedade com dispensas das formalidades de praxe. “ -Vivemos a crise da falta de fraternidade, perdemos o hábito de saber cuidar do outro”, dito pelo nosso teólogo Leonardo Boff.

Após milênios de reflexão ética com excelentes filósofos, nada foi lembrado, acreditaram facilmente que a nova idéia da sociedade de consumo traria a felicidade, que seria determinada pelo mercado, as nossas amizades seriam condicionadas pela barganha capitalista. Entretanto as palavras Ética e Moral  definiram, ao longo dos séculos, um conjunto de valores que orientaram o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo  o bem-estar social, ou seja, Ética é a forma como o homem deve se comportar no seu meio social.  Atualmente, o indivíduo é avaliado pela sua qualidade ética, que é o comportamento moral da pessoa.
“Na clássica e já canônica formulação de Hans Jonas, apresentada em “O princípio responsabilidade, a imaginação ética não conseguiu, e ainda não consegue, emparelhar-se com o domínio, em rápida expansão, das responsabilidades éticas. Pode-se ouvir reverberando naquela formulação as mesmas preocupações que assaltavam a obra de Jean-Paul Sartre (“o que quer que façamos, assumimos responsabilidade por alguma coisa, mas não sabemos o que essa coisa é”). A densa rede de interdependência torna todos nós objetivamente responsáveis (ou seja, quer que o  saibamos não, gostemos ou não e – um ponto eticamente crucial – queiramos ou não) pela miséria de todos. Nossa imaginação moral, contudo, foi historicamente moldada para lidar apenas com os outros que residem dentro de um círculo de intimidade espacial e temporal, ao alcance da visão e do tato – ela ainda não avançou muito além desse limite tradicional (endêmico?). Podemos acrescentar que o advento das “auto-estradas da informação” e portanto de uma teleproximidade eletronicamente mediada, pode ser um estímulo  a esse avanço – mas, para se emparelhar  com o escopo da responsabilidade objetiva já atingida, é preciso construir, pavimentar e policiar uma “faixa institucional”. Essa faixa ainda esta parada na etapa do esboço, pior ainda, pelo que sabemos, não é provável que se inicie o trabalho de construção enquanto prevaleçam as condições da globalização negativa”.)

A Ética da globalização espelha-se na seguinte realidade: a existência de uma só existência social, uma só economia, e uma só comunidade. Logo uma só lei aplicada por uma instituição, a ONU e uma só Ética. A Ética Universal, a Ética da Globalização deveria ser uma Ética das virtudes, ser livre no sentido da compreensão de si, ser verdadeira e justa, ser tolerante e sensata. Deveria ser uma Ética dos deveres, o dever para consigo próprio, com a família, os amigos e a humanidade, o dever de cumprir os compromissos livremente assumidos. Deveria ser uma Ética dos afetos, tratamento preferencial para com os seus familiares e amigos, embora o fim seja estender este tratamento para toda a humanidade.

Desde sempre que as questões éticas preocupam o ser humano e os grandes pensadores. O pai da filosofia, Sócrates, legou-nos o mandamento, algo sagrado, “do conhece-te a ti mesmo” e o exemplo de morrer pela liberdade de pensamento e pelo respeito das leis democráticas. Deveríamos ter uma Ética de valores universais: liberdade, igualdade, solidariedade, justiça, verdade e razão. Deveríamos compreender e aceitar a parcialidade dos afetos fraternais, familiares e amigáveis comuns a todas as culturas. A Ética Universal de um mundo globalizado tem de considerar tanto os deveres como os direitos individuais e defender que o individualisno não é só compatível como pressupõe o altruísmo. Deve rejeitar o egoísmo psicológico e o relativismo cultural. Precisamos defender uma Ética que promova a consciência coletiva da existência  de uma só atmosfera, de uma só terra, de um só mundo onde todos os seres humanos possam conviver em paz.

“O código de conduta e normas para escolhas que se ligam à realização de um papel não se alarga para pegar o eu real”. O eu real é livre, razão para se alegrar, mas também para não pouca aflição. Aqui, longe do mero “desempenho de papel”, somos de fato “nós mesmos”, e assim nós e somente nós somos responsáveis por nossas ações. Podemos fazer nossas escolhas livremente, guiados só pelo que consideramos dignos de se buscar. Como logo descobrimos porém esse fato não torna mais fácil nossa vida. Apoiar-nos nas normas tornou-se hábito, e sem as roupas de faxina sentimo-nos nus e em desespero. Na volta do mundo “de lá”, no qual outros assumiam (ou nos afirmavam que assumiam) a responsabilidade por todos os nossos trabalhos, não é fácil suportar a responsabilidade, agora não familiar pela falta de hábito.
Com bastante freqüência ela deixa um gosto amargo na boca e só aumenta nossa incerteza. Sentimos muita falta da liberdade quando ela nos é negada, mas quando a conseguimos de volta, faz-se sentir como carga demais pesada para se carregar sozinho. E assim agora sentimos falta daquilo a que antes ressentimos: uma autoridade mais forte que nós, uma autoridade em que podemos confiar  e a que devemos obedecer, uma autoridade que se pode responsabilizar pela adequação de nossas escolhas e assim, ao menos, partilhar de algo de nossa “excessiva” responsabilidade”.(Autor: Erich Fromm  - Livro:
The fear of freedom – Routledge, Londres, 1960, p.116).

Na prática profunda da responsabilidade conosco e com os outros nos sentimos autoconfiantes, unidos e tranqüilos. Estamos dispostos a investir em nosso eu para descobrirmos novos padrões de convivências amigáveis. Tenho certeza de que devo escolher o que fazer, de investir em normas firmes e confiáveis, só assim me sentirei segura do caminho certo. Lendo, refletindo e comparando nada me dispensa da responsabilidade. Pensando profundamente admito que tenho de decidir por mim mesma.


A escolha ética é difícil, porque estudamos e comparamos diferentes conjuntos de normas  e de diferentes tempos. Somos herdeiros de rico cabedal ético, o que nos dá uma base sólida para aprovar ou desaprovar a própria escolha. Com o pluralismo de normas as escolhas morais surgem-nos ambivalentes. Procuramos achar meios para admitir a responsabilidade como o marco maior. É assim que o professor Rui Josgrilberg, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, se  refere a essa questão.Ter ética quer dizer que você assume responsabilidade perante alguma coisa. Ética tem a ver com a responsabilidade que nós temos diante dos outros” explica.  

sexta-feira, 16 de maio de 2014

POSSÍVEIS RECOMEÇOS

REGINA  DINIZ

Deus é uma esperança do que já veio...
Deus é uma esperança do que está por vir...

Presto atenção na caminhada da vida...
Faço o melhor com o pouco que tenho...
Acredito nos possíveis recomeços...
Valorizo a mente iluminada e ativa...

Tenho duas mãos: uma para ajudar-me...
E a outra para ajudar os outros...

Tudo na vida é para ser compreendido...
A sabedoria espiritual está no fundo da consciência...
É possível encontrar a chave da felicidade...
Quando abro o meu coração a todos...

A fé em Deus produz verdadeiros milagres...
Sou presenteada pela energia cósmica...

Sinto um tremor de alegria...
Quando me dou conta da vida espiritual...
Em pensamento construo alicerces saudáveis...
Indissolúveis ao longo das eras...

Onde está Deus?...
Ele está dentro do coração de todos nós...

Tenho certeza na existência da vida eterna...
Sou uma alma imperecível...
Incluo as pessoas em minha felicidade...
Comungo com todos e me fortaleço...

A natureza inteira comunga com todos nós...
Quando estamos em sintonia com Deus...

Ajudar os corações alheios através do amor...
É a maior vitória que se alcança na vida...
Procuro considerar primeiro os outros...
Então sinto um grande alívio no coração...

Foi essa a grandeza de Jesus...

Ele viveu para os outros...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O DESTINO HISTÓRICO DA UNIÃO HUMANA

REGINA  DINIZ

No seu romance – “A identidade Humana – Milan Kundera medita sobre o destino da amizade humana. Antigamente, pondera o herói, ser amigo significava ficar ombro a ombro na batalha, estar pronto a sacrificar a própria vida se necessário, por uma causa que é só defensável como causa comum e em comum. A vida era frágil, cheia de perigos e a amizade podia torná-la mais sólida e um pouco mais segura. As ameaças a qualquer dos amigos podiam ser evitadas, os perigos podiam ser um pouco menos terminais se todos os amigos se dessem as mãos e resistissem juntos à adversidade. Agora, no entanto, não é provável que as ameaças e perigos sejam eliminados ou aliviados pela união dos amigos. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em busca da Política – Ed. Zahar  - 2000).

Viver protegidos por trás de muros, por muralhas eletrônicas, guardas, apitos é parte da orientação urbana para a sobrevivência individual. Esta fabricação da incerteza e da insegurança é amplamente globalizada. Uma moradora de Copenhague há 12 anos, disse ao correspondente do jornal “International Herald Tribune de 17 de novembro de 1997, que pretendia deixar a Dinamarca. - A opinião deles mudou -  disse sobre os dinamarqueses. “Agora olham a gente com arrogância , estão ficando muito frios, inclusive com eles mesmos”. A frieza com as pessoas é um sinal de  esfriamento geral das relações humanas por toda a parte.

As pessoas desaprenderam de como são gratificantes a aproximação, a comunhão humana e o quanto que recebemos de conforto, consolo, encorajamento e simples prazer existencial de poder dividir a própria sorte e esperanças com outras pessoas. Todo ser humano gosta de dividir suas metas existenciais, suas alegrias bem como suas tristezas e sonhos. Precisamos resgatar a velha amizade do tipo “um por todos, todos por um”, que foi terrivelmente expulsa dos nossos tempos. Há urgência de resgatarmos, o encanto e o calor que era fácil de ser alcançado por nossos ancestrais.    

“A solidão do sujeito moral. Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato olhamos e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o dedo para fora de mim mesmo – é isto que fazem  as pessoas, é assim que são as coisas” – não me salva de noites mal-dormidas  e dias cheio de auto-depreciação. “ Fiz meu dever “ pode talvez tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a ninguém, chamo de consciência”. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que minha responsabilidade que sinto”. (Autor: Zigmunt Bauman – Livro: Ética Pós-Moderna – Ed. Paulus – 1997).

Um dos inúmeros problemas emocionais que é questionado profundamente, talvez o maior deles seja a autodepreciação, que alguns chamam  da culpa e outros de ansiedade etc. Reinstalar em nossa consciência o sentido da solidariedade humana, de estarmos uns para os outros, e por causa e por meio dos outros nos traz alegria. O universo inteiro luta para que as pessoas se encontrem e resgatem algo positivo com as outras. O processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Grupo de pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefício dos outros e de forma coletiva alcançam mais sucesso.

Precisamos de amigos para nos ensinar, compartilhar, nos alegrar , e também para cumprirmos nossa missão na terra: Amar o próximo como a si mesmo. A união, a amizade é algo que importa muito na vida do ser humano, sem esse vínculo não teremos harmonia e nem paz.As pessoas trazem para nós a tão esperada felicidade. É preciso sorrir para todos os seres humanos. Os deveres éticos tendem a fazer os humanos iguais: A moral é o que permanece, quando se fez o trabalho da ética. Hoje temos claro que nosso sucesso depende do sucesso do outro.

“Ralph Miliband afirmava de que tudo que poderia ser feito para tornar o planeta menos ameaçador e atemorizante para os seres humanos, e portanto mais hospitaleiro para o ser humano e para a vida humana, já o tinha sido – e que se recusavam a aceitar que nenhum melhoramento fosse concebível. O mundo de Miliband, singular e inimitável, era um mundo de esperança imorredoura. Por essa razão, contudo, ele também continua  sendo parte indispensável  e fonte de perpétuo enriquecimento para nossos próprios mundos. É tarefa dos vivos manter viva a esperança; ou então ressuscitá-la em um mundo em rápida transformação, notável por alterar rapidamente as condições em que é conduzida a luta contínua com o propósito de torná-lo mais hospitaleiro para a humanidade”. ( Citação feita pelo autor Zygmunt Bauman – Livro – Medo Líquido – Ed. Zahar – 2006 – Rio de Janeiro).

O trabalho de Ralph Miliband simbolizou o grave desafio enfrentado pelos intelectuais de seu tempo, pessoas que continuaram acreditando que o principal propósito do pensamento é fazer o mundo melhor do que encontra ram. Esta jornada contínua  através de projetos, atitudes, experimentados ao longo da rota de autoconfiança, coragem e impetuosidade. As idéias renovadas são capazes de mudar o mundo. A classe trabalhadora  tão sacrificada e vítima  da negação da dignidade humana luta para se erguer construindo uma classe para si, transformando-se de objeto para sujeito de sua história, para acabarem com toda a miséria humana. O grande objetivo é promover e garantir a expansão intensiva e extensiva da economia capitalista, por um lado, e recondicionando  e recapitulando  a força de trabalho do outro.

A filosofia segundo Adorno significa a determinação de se agarrar à liberdade intelectual e real, e só nessa condição ela pode, como deveria, permanecer imune à sugestão do “status quo”. A emancipação visa ao desenvolvimento de indivíduos autônomos, independentes que julguem e decidam por si mesmos. Precisamos repetir Pierre Bordieu: “Aqueles que tem a chance de dedicar suas vidas ao estudo do mundo social não podem recolher-se neutros e indiferentes, diante da luta da qual a aposta é o futuro do mundo.  

Não se trata de um desejo sensível, no sentido comum da satisfação de uma necessidade ou da recuperação de algo que tenhamos vivido ou de que sintamos falta. Não é um desejo que tenha a ver com necessidades ou interesses nosso são desejos desinteressados, generosos, que não visam transformar o outro em objeto do nosso conhecimento ou de nossa propriedade, mas antes, acolhê-lo como “absolutamente outro”.

“Nestes pressupostos o eu vai ao encontro voluntariamente com autonomia e sem pré-condições, numa aventura pessoal que será sempre uma surpresa, pois nunca saberemos o que esse encontro nos reserva. Esta imprevisibilidade faz de cada encontro uma novidade, sempre repetida, todos os dias e todas as horas são momentos, de experiências humanas mais ou menos conseguidas, dependendo do modo como acontece e é vivido cada encontro com outrem”. (Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ética e Infinito – 2010).

Um aspecto importante seria questionar como é que o eu e o outro chegam ao encontro. /como se posicionam frente a frente? Como iniciam a relação ética? Em que consiste essa relação ética? O encontro é dominado  pelo aparecimento do rosto, o que se torna presente como linguagem e discurso, verbal ou não, pela expressão corporal, pois todos sabemos como os gestos e, às vezes, os profundos silêncios podem ser reveladores da verdade do outro. E, no momento compreendemos que a relação com o rosto  pode ser dominada pela percepção, mas o que é especificamente o rosto é o que não se reduz a ele. Em primeiro lugar aparece a sua exposição integra e sem defesa.


Enunciam-se duas dimensões: o sensível do rosto, que pode ser visto e conhecido; e o para lá do rosto, a sua verticalidade, a sua integridade, a sua pacificidade, aspectos da ordem do valor, da ordem da ética. Na verdade, o sentido do rosto não está na descrição das suas características sensíveis – olhos azuis, nariz deste ou aquele tamanho, boca com esta ou aquela forma etc... – nem tão pouco, no conhecimento concreto que possamos ter sobre alguém, por exemplo, saber que é filho  desta ou daquela pessoa, pai, marido, amigo, cientista, professor, músico, hindu, amante da boa comida etc... já que nenhum destes aspectos ajuda à compreensão do rosto. O verdadeiro sentido permanece desconhecido. Diz Lévinas:”O rosto é significação, e significação sem contexto. Quero dizer que outrem, na retidão do seu rosto, não é uma personagem num contexto.(...)Ele é o que não se pode transformar num conteúdo, que o nosso pensamento abarca; é leva-nos além. Eis por que o significado  do rosto o leva a sair do ser enquanto correlativo de um saber. (Emmanuel Lévinas  - Livro: Ética e Infinito.- 2010).