REGINA DINIZ
“Confesso
que não me sinto atraído pelo ideal de vida apresentado pelos que pensam que o
estado normal dos seres humanos é o de lutar para progredir; que atropelar,
esmagar, acotovelar e empurrarem-se uns aos outros, que compõem o tipo
existente de vida social, é o destino mais agradável da espécie humana, ou
qualquer coisa que não os sintomas desagradáveis de uma das fases do progresso
industrial... Na verdade, é mais conveniente que, enquanto a riqueza for o
poder, a ficar tão rico quanto possível for o objetivo universal da ambição, o
caminho para a sua realização deveria ser aberto a todos, sem favor ou
parcialidade. Mas o melhor estado para a natureza humana é aquele em que,
embora ninguém seja pobre, ninguém deseja ser mais rico, nem tem qualquer
motivo para ter medo de ser empurrado para trás pelos esforços que os outros
fazem para ir a frente”. ( Autor John Stuart Mill - Principles of Political
Economy – Londres).
Após
profundas reflexões desde o fim da Idade Média, sonhava-se com um ser humano
que enfatizasse a qualidade de vida acima da quantidade de vida. Recusava-se a
definir a vida apenas em termos de ter e acentuava o seu desejo de ser.
Cultivava a solidão e o silêncio construtivo. Descobria novas maneiras de se
relacionar consigo mesmo, com os seus familiares, com os amigos e vizinhos e
com o mundo.
Sabiam
do valor das amizades, gastavam mais tempo em conversas amigáveis,
socializando-se em alto nível. Privilegiavam a arte, a boa música, os livros,
as caminhadas, apreciando a beleza da natureza. Rejeitavam a multiplicação
ilimitada de necessidades desnecessárias. Suas preocupações maiores eram com a
durabilidade, utilidade e beleza com os produtos que adquiriam e que deveriam
ser escolhidos para durar e não como deseja a atual Sociedade de Consumo, para
serem substituídos em pouco tempo.
O
ideal seria se perguntar: Onde estamos agora e para onde nos dirigimos? O ser
humano sempre lutou pela liberdade e pela felicidade e sempre se considerou
como o senhor de seu destino. Na história da civilização ele sempre acreditou
numa Sociedade Humanizada, na qual ele, e não os bens materiais seria a meta de
todos os esforços sociais. De repente, sem ninguém entender, ele começou a
competir pelos bens materiais, e tornou-se narcisista. É incrível que a força
da megamáquina, a qual criou uma sociedade com funções maiores, e os homens
como as peças de sua engrenagem com funções menores.
Os
especialistas de marketing e propaganda no mundo inteiro, sempre trabalharam
avidamente para vender os seus produtos, É preciso admitir que a sociedade de
consumo e a globalização sempre existiram ao longo de milênios com um único objetivo, transformar o mundo
num mercado persa. Até os dias atuais, todos são habilmente seduzidos, para que
comprem de tudo, carregando para casa, e
voltando na mesma hora para buscar mais.
Precisamos
desconfiar da máquina da propaganda moderna, sermos incansavelmente críticos
com a padronização de suas orientações, que habilmente manipulam os nossos
desejos, e nos dobram para adquirir compulsivamente os seus repetitivos e
superados produtos. É fundamental esclarecer, esmiuçar e ensinar as crianças a
cultivar este espírito de discernimento. Seria uma excelente decisão não
comprar por impulso, mas pensar antes.
“O
mundo nunca foi alguma coisa estática, uma coisa que simplesmente nos foi dada
e à qual uma pessoa, então “aceita” ou “ajusta-se” ou “combate”. Ao contrário,
ele é um padrão dinâmico, no qual, desde o momento em que possuo autoconsciência,
estou em processo do planejar e projetar. Assim Binswanger se refere ao mundo
como “aquilo em cuja direção a existência seguiu de acordo com o que ela
própria projetou “e continua para enfatizar que enquanto uma árvore ou um
animal estão presos a seus “rascunhos” no que diz respeito ao ambiente,” a
existência humana contém não somente numerosas possibilidades de ser como
também e, principalmente, está fundamentada nessa potencialidade múltipla de
ser”. ( Autor: Rollo May – Livro: A Descoberta do Ser – Editora Rocco Ltda –
Rio de Janeiro – 1988 ).
Construir
a própria identidade, e lapidá-la ao longo da vida é a maior conquista do
indivíduo como um ser em busca da qualidade da experiência. A autoconsciência é
o componente intrínseco e inseparável, é o ser que obrigatoriamente tem de
estar consciente de si mesmo, ser responsável por si mesmo, se pretende
tornar-se ele mesmo. Toda a dignidade do homem está no pensamento. Segundo
Pascal em seu livro O Pensamento afirma: “- Vamos lutar para pensar bem – aí
reside o princípio da moralidade”.
Quando
sou apenas um reflexo, um espelho do mundo exterior apenas, não posso
experimentar o sentimento de existir. O meu sentimento de ser não é a minha
capacidade de perceber o mundo exterior, de medi-lo, de avaliar a realidade:
ele é, ao contrário, minha capacidade de ver a mim mesma como um ser no mundo, de
conhecer a mim mesma como o ser que pode traçar o seu próprio caminho. O
sentimento de ser não se encontra voltado contra o mundo exterior, mas deve
incluir a capacidade de impulsionar-me contra ele se necessário.
“Na
década de 1960 os estudantes
revolucionários adotaram slogans como “Todo o poder para a imaginação”; “É
proibido proibir”. O constante apelo a estas idéias, trinta anos depois,
deveria ser óbvio para quem quer que volte o seu olhar para o cenário acadêmico
e para a mídia.O estado de espírito pós-moderno, assim chamado, define-se, por
um lado, por uma desilusão com as grandes histórias ou metanarrativas,
incluindo um ideal de liberdade pessoal; por outro, do fato de ter se originado
em grande parte da rebelião estética contra a cultura da classe média. A
sensibilidade pós-moderna rejeita grande parte do modernismo também, mas está
enraizada no ideal modernista de indivíduos emancipados das convenções,
construindo identidades para si mesmos a seu próprio gosto, conduzindo suas
próprias vidas - como Oscar Wilde teria dito - como se elas mesmas fossem umas obras de arte. (Autor:
Christopher Lasch – Livro: A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia –
Ediouro
2000).
Diante
de uma cultura padronizada, as lideranças consideradas inimigas da
conformidade, rebeldes aos hábitos e costumes conservadores deveriam ser mais
ouvidas. Os artistas com os seus riquíssimos imaginários, que Deus lhes deu, sempre
mostraram o desprezo pela estagnação da tradição, que congelam a evolução
cultural. O próprio Jesus Cristo era também um grande artista com a mensagem de
um artista para o mundo. Ele disse ao homem: - Você tem uma personalidade
maravilhosa. Desenvolva-a. Seja você mesmo.
Oscar
Wilde ampliou a sua interpretação de “Cristo como precursor do movimento
romântico na vida”.Tendo “criado a si mesmo” na sua própria imaginação, Jesus
de Nazaré pregava o poder da imaginação como a base de toda a vida espiritual e
material. Ele pregou a simpatia imaginativa, não o altruísmo, mas os seus
próprios poderes de identificação simpática o tornaram “porta-voz” de todo o
mundo que não consegue se expressar, o universo mudo dos que sofrem. Sua vida,
conforme registrada nos Evangelhos era “como uma obra de arte”.