REGINA DINIZ
Seria
um erro grave, contudo, supor que o impulso que leva à exibição pública do “eu
interior” e a disposição de satisfazer esse impulso sejam manifestações de um
vício/ anseio popular , puramente geracional e relacionado aos adolescentes,
por natureza ávidos como tendem a ser, para colocar um pé na “rede” (termo que
está rapidamente substituindo “sociedade”, tanto no discurso das ciências
sociais quanto na linguagem popular) e lá permanecer, embora sem muita certeza
quanto à melhor maneira de atingir tal objetivo. Desde que não se esqueça que o que antes era
invisível – a parcela de intimidade, a vida interior de cada pessoa – agora
deve ser exposta no palco público (principalmente nas telas de TV, mas também
na ribalta literária), vai-se compreender que aqueles que zelam por sua
invisibilidade tendem a ser rejeitados, colocados de lado ou considerados
suspeitos de um crime. A nudez física, social e psíquica está na ordem do dia.
(Eugène Enriquez – “L’ideal type de l’individu hyppermoderne: l’individu
pervers?” in Nicole Aubert (org.), L’individu hipper moderne, Erès, 2004, p.49.
pág.9 ).
A
necessidade de satisfazer o desejo audiovisual é própria do ser humano de todas
as épocas. Entretanto com a explosão das tecnologias digitais, surgiram aumentos
multiplicados de uma nova visibilidade, reforçando aquela necessidade. É o
moderno “Voyeur” seduzido pela contemplação da vida erótica alheia, e que é a
personalidade que a sociedade contemporânea reforçou: espectador passivo, como
também uma personalidade indiferente e apática aos eventos sociais (como a
Sociedade de Consumo gosta). Indivíduos que se realizam no universo alheio, e
substituem a ação pela visão que se tornou em um fim. Quanto isolamento!...
Sentado
confortavelmente frente à tela de televisão, ou do computador, o sujeito
contemporâneo satisfaz o seu desejo, o seu sonho visual. Se o anseio, se a
aspiração de olhar, está subentendida na natureza do homem a avalanche de
imagens, que planejou a era digital foi consumada ao infinito. Hoje por todas
as mídias o espectador é cada vez mais seduzido em destruir a discrição. Desde
sempre o homem sentiu a necessidade de satisfazer seu desejo audiovisual. A
modernidade destruiu advertências como a de Santo Agostinho sobre os êxtases da
visão, “a concupiscência dos olhos” pretendendo instalar um plano melhor,
centrado na imagem religiosa, e no mundo com o texto divino. Não restam dúvidas
de que o objetivo mais construtivo é a interação afetiva com outros indivíduos,
com outros grupos, só assim conseguiremos afugentar a solidão.
“O
ser humano é movido pelo impulso de transcender o papel da criatura, o caráter
acidental e a passividade na sua existência, procurando tornar-se um “criador”.
O homem pode criar vida. É uma qualidade miraculosa que ele, em verdade, compartilha
com todos os seres vivos, mas com a diferença de somente ele tem a consciência
de ser criado e de ser criador. O indivíduo pode criar pela semeadura, pela
produção de objetos materiais, pela criação artística, pela criação de idéias,
e pelo amor recíproco. No ato da criação o homem transcende a si mesmo como
criatura, eleva-se acima da passividade e do caráter acidental de sua
existência até à esfera de iniciativa e liberdade. Na necessidade de
transcendência, que tem o homem, estão as raízes do amor, bem como da
arte, religião e produção material. ( Erich Fromm Psicanálise da
Sociedade Contemporânea – Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1979.)
A
melhor escolha que podemos fazer é participar ativamente da formação de nosso
presente que deverá primar por qualidade de ser. A característica mais
distintiva, mais presente no ser humano, é influenciar com suas idéias
criativas a evolução por meio do reconhecimento consciente, insistindo em
modelar uma sociedade mais justa e
humana. É possível lançar mão de toda a coragem necessária para preservar
nossos sentimentos, nossa consciência, e nossas responsabilidades diante de
renovações, ou seja, realizar algo novo, penetrar na floresta cultural onde
ainda não há trilhas feitas pelos homens.
Kierkegaard
e Nietzche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero,
mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero. A coragem é vital
para expressarmos nossas idéias originais, e para ouvir o nosso eu interior, só
assim estaremos contribuindo para nós mesmos, para a comunidade e para o mundo.
A coragem origina-se no interior de nosso eu, pois em sentido contrário nos
sentimos vazios. Só preenchemos este vácuo assumindo o compromisso de nos
engajarmos no que é autêntico, quando originado no interior de nosso eu.
“Brian,
o herói cujo nome compõe o título do filme da série Monty Python, furioso por
ter sido proclamado o Messias e ser acompanhado aonde quer que fosse por uma
horda de adoradores, em vão fez o possível para convencer seus seguidores a
pararem de se comportar como um rebanho de ovelhas a se dispersarem. “Todos
vocês são indivíduos!”, gritou. “Nós somos indivíduos!”,
gritou.
”Nós somos indivíduos!”, respondeu devidamente em uníssono o coro dos devotos.
Só uma longínqua voz solitária objetou: “Eu não sou...” Brian tentou outro
argumento. “Vocês têm que serem diferentes!”, gritou. “Sim, todos nós somos
diferentes”, concordou o coro, extasiado. Mais uma vez, só uma voz contestou:
”Eu não sou...” Ouvindo isso a multidão olhou em volta com irritação, ávida por
linchar o dissidente assim que o encontrasse em meio à massa de pessoas
parecidas. (Zygmunt Bauman – Vida Líquida – Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de
Janeiro – 2007).
A
liberdade tem sido considerada, ao longo das histórias humanas, tão
admiravelmente preciosas, que centenas de milhares de seres humanos morreram de
bom grado por ela. A liberdade tem em seu interior um significado profundo, que
se mostra como a essência do ser humano, por isso ela é prestigiada com tanta
devoção. As grandes guerras, os conflitos bélicos que até hoje acontecem no
mundo inteiro, e que nos colocam em situação civilizatória inferior, mas sempre
as pessoas estiveram prontas a morrer pela liberdade.
Desde
o início da história até o nosso século, o princípio da liberdade é considerado
o bem mais precioso do que a própria vida. Jean Jaques Rousseau
sentiu-se
profundamente sensibilizado, pelo fato
de que as pessoas podem “suportar fome,
fogo, a espada, e a morte para preservarem a sua independência. Atualmente no
convívio face a face, a individualidade é afirmada e renegociada diariamente na
atividade contínua da interação. Cada membro da Sociedade Individualizada
encontra obstáculos no seu caminho para a individualidade de fato, pois
significa uma luta para toda a vida. Os movimentos do – mercado de consumo –
desafiam a lógica, mas não a lógica da luta pela individualidade. A propaganda
maciça como “Seja você mesmo”
-
prefira Pepsi - dá para pensar e avaliar profundamente a cultura padronizada...
A luta pela singularidade agora se tornou o principal motor da produção e do
consumo de massa...
“Cogitamos
muitas vezes por que haverá tanta ansiedade, e tantos protestos de que se perderá
a liberdade caso não conservemos os velhos hábitos do laissez-faire. Uma das
razões não será o fato de que o homem moderno renunciou completamente à
liberdade psicológica e espiritual interior em benefício do trabalho rotineiro
e dos padrões massificados das convenções sociais, a ponto de sentir que o
último vestígio de liberdade, que lhe resta é a oportunidade de progresso econômico?
Terá transformado a liberdade de competir economicamente com seus semelhantes
num último remanescente de individualidade que, portanto, deve representar todo
o significado da liberdade? ( Rollo May – O Homem à Procura de Si Mesmo –
Editora Vozes Ltda – Petrópolis – Rio de Janeiro – 2005).
A
liberdade deve ser apreciada como a bandeira principal do ser humano. A
liberdade política está entrelaçada à liberdade interior dos indivíduos, que
constituem os países, certamente não há liberdade em uma nação de conformistas,
não há liberdade em uma nação livre transformada em robôs. O nível cultural de
um país é visualizado pela liberdade pessoal de pensar, sentir e falar com
autenticidade, e esta consciência os destacam como seres humanos. O destino
pessoal superior, esta liberdade inata fundamenta a escolha de valores éticos
como o amor, a coragem e a honestidade...
Da
luta para construir a própria liberdade, para construir o próprio destino
nasceram a criatividade e as nossas civilizações. A liberdade é conquistada
minuto a minuto enriquecendo a subjetividade. Para que fique cada vez mais
presente em nossos atos é obrigatório que a renovemos em todos os dias de
nossas vidas. O primeiro grande passo é optar por si mesmo, e nos exigir
auto-responsabilidade para não nos deixarmos manipular por ninguém. Nada é mais
importante do que as nossas próprias opções fundamentais. A adesão
à
competição imposta pela sociedade de consumo parece revelar o quanto perdemos
da verdadeira compreensão da liberdade.