REGINA DINIZ
Tanto a sensação de desamparo quanto a
dúvida paralisam a vida e, para poder viver tenta fugir da liberdade. É
impelido para uma nova escravidão: esta difere dos vínculos primários, de que,
embora dominado por autoridades ou pelo grupo social, ele não estava
inteiramente separado. A fuga não restaura sua segurança perdida, mas apenas
ajuda-o a esquecer o seu ego como entidade independente. Encontra uma nova e
frágil esperança a expensas de sacrificar a integridade do ego individual. Opta
por perder seu ego já que não pode tolerar viver sozinho. Assim, – a liberdade -
como liberdade de - leva a um novo cativeiro. Não tenho identidade, não há ego
que não aquele que é o reflexo do que os outros esperam que eu seja: “Eu sou”
como você me quer”. (Autor: – Erich Fromm – Livro: - O Medo à Liberdade – Zahar Editores – 1983 –
Rio de Janeiro).
Todos nós deveríamos nos perguntar: -
até que ponto somos livres para optar e praticar as responsabilidades pessoais
e sociais? Talvez sugestões renovadas, humanistas sobre o sentido da
existência, seria o de encontrar no dia a dia, espaços para soluções de
caminhos criativos, que sempre estão presentes em nosso interior à espera de
confirmações. A opção de liberdade de escolha nos torna mais humanos e com
certeza é o nosso maior triunfo.
É de impressionar o número de pessoas
que sacrificam prazeres, riquezas e muitas vezes a própria vida para a
preservação desse bem maravilhoso. A capacidade de sentir espanto e reverência,
escrever poesias, conceber teorias científicas e grandes obras de arte
pressupõe a liberdade, que podemos chamar a concretização dos dons. Todos estes
predicados são essenciais à capacidade humana de refletir. A liberdade é tão
importante que é a mãe de todos os valores.
“Os Direitos e Liberdades Individuais,
fatores vitais na origem da sociedade industrial perdeu o sentido e conteúdo
tradicionais, pois uma vez institucionalizados compartilham do mesmo destino da
sociedade integradora. A liberdade individual na sociedade tecnológica tornou-se,
sobretudo, uma liberdade de morte, de ausência de valores, alienação do
indivíduo e degradação social. Tudo contribui para transformar os instintos, os
desejos e pensamentos humanos em canais que alimentam o aparato tecnológico. O
homem médio, dificilmente importa-se com outro ser vivo com a intensidade e
persistência que demonstra por seu automóvel. A máquina adorada não é mais
matéria morta, mas se torna algo, semelhante a um ser humano. Herbert Marcuse
fala em “mecânica do conformismo”, afirmando que, diante da satisfação das suas
próprias necessidades, o homem deixa de contestar o atual sistema capitalista
de consumo”. (Herbert Marcuse – A Ideologia da Sociedade Industrial – 5ed. –
Rio de Janeiro – 1979).
O momento histórico de nossa civilização
pode ser definido como a sociedade tecnológica do artificialismo e que com
facilidade dominam e manipulam a cultura, exercendo um verdadeiro fascínio
sobre as consciências humanas. Os pensadores existencialistas contemporâneos
consideram que a liberdade é a qualidade mais ameaçada, com a sua objetivação
de linha de montagem das subjetividades humanas. Todos sabemos que a
subordinação a um senhor golpeia a essência da dignidade. Nós precisamos
investir e privilegiar a nossa liberdade de ser.
Mesmo com a padronização cultural, e por
que não dizer da escravização da sociedade de consumo, de acordo com estudos
estatísticos, muitas pessoas colocou a liberdade em posição mais elevada de sua
lista de valores. Muitos indivíduos preferem baixar o seu padrão de vida como
cidadãos livres do que serem bem cuidados como escravos. Sempre me impressionei
com as maravilhas criativas das pessoas, que para se defenderem da opressão cultural da padronização, ousaram ser
diferentes, e venceram.
“De
fato, como a mídia nos infantiliza, diminui nossa atenção e capacidade de
pensamento, inverte a realidade e ficção, e promete, por meio da publicidade,
colocar a felicidade imediatamente ao alcance das nossas mãos, transformando-nos
num público dócil e passivo. Uma vez que nos tornamos dóceis e passivos, os
programas de aconselhamento, longe de divulgarem informações (como parece ser a
intenção generosa dos especialistas) torna-se um processo de inculcação de valores,
hábitos, comportamentos e idéias, pois não estamos preparados para pensar,
avaliar e julgar o que vemos, ouvimos e lemos. Por isso, ficamos intimidados,
isto é, passamos a considerar, que nada sabemos, que somos incompetentes para
viver e agir se não conseguirmos a autoridade competente do especialista. Dessa
maneira, um conjunto de programas e publicações, que poderiam ter verdadeiro
significado cultural, torna-se o contrário da Cultura e de sua democratização,
pois se dirigem a um público transformado em massa inculta, desinformada e
passiva”. Marilena Chauí – Convite à
Filosofia - Ed. Ática – 2000 – São Paulo).
O principal objetivo da mídia é
“civilizar os seus receptores para o consumo”, integrando a sociedade
industrial moderna todos aqueles que tenham as mínimas condições de consumir.
Surgiram mudanças de comportamento, alteração de hábitos de lazer, como também
relações políticas e de poder, modo de vestir etc... A modernidade planejou a
massificação das culturas introduzidas pela indústria cultural, num processo
que modificou as identidades, na medida que novas formas de pensar e de
existência fossem atributos indispensáveis para o convívio social. Antony
Giddens na apresentação da obra “Modernidade e Identidade”, nos alertava para
esta realidade, pois segundo ele “a modernidade altera radicalmente a natureza
da vida social cotidiana e afeta os aspectos mais pessoais de nossa existência”.
(Giddens, 2002, p.9).
As avaliações culturais devem repensar a
sociedade no processo de redescobrir as identidades nacionais e formas novas de
apreciação destas culturas. É preciso considerar a cultura no sentido
antropológico, refletindo sobre o vínculo cultura-nação, incentivando o
conhecimento dos grupos sociais. “A questão primordial é entender a cultura de
um grupo e principalmente das classes populares, porque contestam a ordem
social”.
(Mattelard, 2004, p. 13 e 14).
“A liberdade está continuamente criando
a si mesma. Como diz Kierkegaard, liberdade é expansibilidade. A liberdade
possui uma qualidade infinita. A liberdade de ser é essencialmente um estado
interior. Esse“núcleo”, esse “lugar secreto”, é absolutamente necessário para a
nossa sobrevivência como seres humanos. É o que proporciona à pessoa um senso
de ser; permite a experiência de autonomia, identidade, a capacidade de usar o
pronome “Eu” com toda a sua amplitude de significado”. (Autor: Rollo May –
livro: Liberdade e Destino – Editora Rocco – Rio de Janeiro – 1987).
Neste período histórico, de
desintegração da preocupação com o bem
público e com a honra particular, nesta época de extinção de valores, nossa
recuperação deve ser baseada na liberdade construtiva, que é a fonte de todos
os valores. Desenvolvemos a nossa cognição baseando-nos na experiência de
autonomia, senso da descoberta das próprias possibilidades, e tudo o que
decorre da livre escolha. “Liberdade é a possibilidade de “realização pessoal”
baseada na opção pessoal”, no contato livre e no empenho espontâneo ou na
iniciativa individual”.
As propostas de questionamentos culturais
sempre aconteceram e continuam a se atualizar, em países adiantados, que
desfrutam de espaços em horários nobres de discussões de como crescer como
pessoa, numa sociedade justa e progressista. Em países subdesenvolvidos onde a
massificação das identidades, dentro de uma cultura, é cuidadosamente
implantada pela sociedade de consumo, requer um plano de reação construtiva,
que repense valores, sentidos e significados, que resgatem a liberdade que
fortalece a criatividade, que é a maior realização de um povo. NoamChomski em
seu livro com o título “For Reasons of State” em 1973 argumenta: O pensamento
de fazer a liberdade de escolha, proporcionou à ciência, em todos os seus
aspectos, uma reorientação mais poderosa do que qualquer revolução anterior”.
