REGINA DINIZ
No ano de 1929, em o mal-estar na
cultura, Freud adverte: “Os homens de hoje levaram tão longe o domínio das
forças da natureza que com a ajuda delas, tornou-se-lhes
fácil exterminar uns aos outros, até o último. É isso que explica boa parte de
sua atual agitação, de sua infelicidade e de sua angústia”. Elisabeth
Roudinesco, ao longo de sua obra, vem nos
proporcionando um olhar crítico para a subjetividade contemporânea, e os
desafios decorrentes dessa realidade lançados aos pensadores do sofrimento
psíquico. Mais pontualmente no livro Por que a Psicanálise?, ela aponta, que ao
longo de 20 anos, o culto de si e o cuidado terapêutico se tornaram os grandes
modelos de uma organização da sociedade
ocidental que os sociólogos e psicanalistas caracterizaram como narcísica.
Passamos a falar de uma “cultura
do narcisismo” ou da necessidade moderna da estima de si, como a injunção ao
mesmo tempo negativa e positiva. Mais adiante,
pensou-se que, a psicanálise, o homem não seria mais condenado ao inferno de
suas paixões e poderia curar-se. Em uma palavra, sonhou-se que a
psicanálise cumpriria enfim, pelo conjunto da sociedade, o desejo do Narciso de
ser liberado do desejo.
Mas no final dos anos de 1970,
ocorre um declínio da psicanálise nos Estados Unidos. Apesar de sua
potência institucional, de sua expressão em todos os setores da psiquiatria e
da evolução clínica da terceira geração de psicanalistas, a psicanálise foi
atacada com a mesma força com que foi adulada em outros tempos. Os
participantes do antifreudismo dos anos de 1980 a 2000 utilizaram argumentos
empíricos idênticos aos argumentos já utilizados para criticar os pioneiros do
freudismo: recusar a cura freudiana alegando ineficácia terapêutica, propondo,
em oposição, as terapias biológicas, farmacológicas ou cognitivas
fundadas numa concepção experimental do homem e reduzindo o psiquismo a
neurônios e à subjetividade aos comportamentos instintivos.
Inscrita no movimento de uma
globalização que transforma os homens em objetos, a sociedade então depressiva
não queria mais ouvir falar de culpa, sentido íntimo, consciência, desejo e
inconsciente. Mas encerrada na lógica narcísica, mais da idéia de
subjetividade, interessada pelo indivíduo, portanto, para contabilizar seus sucessos, e pelo sujeito sofredor para
encará-lo como uma vítima – ao passo que se procura incessantemente codificar o
déficit, medir a deficiência ou
quantificar o trauma, é para nunca mais ter que se interrogar sobre a origem deles.
Mas, assim como saliente
Roudinesco, o homem doente da sociedade depressiva não é responsável por coisa
alguma em sua vida, como também já não tem o direito de imaginar que sua morte
possa ser um ato decorrente de sua consciência ou de seu inconsciente. Somente
a psicanálise foi capaz desde suas origens, de realizar a síntese dos quatro
grandes modelos da psiquiatria dinâmica que são necessários a uma apreensão
racional da loucura e da doença psíquica.
A psicanálise, portanto, não se
alinha à idéia, hoje dominante, de uma redução da organização psíquica e
comportamentos. Se o termo “sujeito” tem algum sentido, a subjetividade não é
mensurável nem quantificável: ela é a prova, no mesmo tempo visível e
invisível, consciente e inconsciente, pela qual se afirma a essência da experiência humana.
Por que a psicanálise? Presente
em várias listas de best-sellers da França, esse ensaio faz um
balanço magistral dos cem anos da psicanálise e uma projeção de seu futuro no
novo milênio. Na contra corrente ao fascínio pela neurociência, fustiga uma
sociedade em que o homem é levado a tratar suas neuroses a golpes de receitas,
atacando as correntes cientificistas quanto as obscurantistas e charlatanescas.
Elizabeth não tem papas na língua. Nesse pequeno e certeiro ensaio o ataque é
direto, na melhor tradição do intelectual combativo, figura em desaparição na
era de consensos.
Definitivamente empenhada em
estimular o conflito que a sociedade depressiva quer abolir, Elizabeth
Roudinesco não deixa barato: a querela entre cientificismo e psicanálise uma
das muitas facetas da eterna luta da civilização contra
a barbárie. Elizabeth Roudinesco diz que a grande virada dos tempos é marcada
por uma forte crise da democracia e do individualismo. As turbulências
globalizadas ameaçam a Europa com desvios totalitários em meio ao descrédito na
política tradicional e ao sentimento de perda de representação social.
Há um crescente anseio por
mudanças, mas de rumo incerto. Este é o diagnóstico resumido da psicanalista e
historiadora Elizabeth Roudinesco ao analisar o homem deste conturbado início
de século. A psicanálise não é uma disciplina científica no sentido das
ciências da natureza. Também não é uma ciência suscetível de progresso co-mo a medicina. No domínio do
psiquismo, não há progresso da ciência. É a razão pela qual se pode sempre
voltar aos textos fundadores. Por outro lodo, surgiram psicotrópicos e
remédios, que não são um progresso em si, pois nunca curaram loucura nem
neurose. Os loucos passaram do asilo à vida na cidade. Não temos curas, mas
rearranjos. Autora: Elisabeth Roudinesco – 2016).
Elizabeth diz que com a química,
acreditou-se que havia progresso, que doenças psíquicas seriam erradicadas. Mas
elas, são apenas tratadas de modo diferente. É melhor ter remédios do que
hospícios? Sim, mas é um progresso social,
não científico. Após 40 anos, a ilusão da química está sendo contestada pelos
próprios pacientes.
Elizabeth Roudinesco diz que não
foi por acaso que abandonou a prática da clínica e se tornou historiadora.
Hoje, a cultura psicanalítica, o estudo dos textos, não são mais os
psicanalistas que fazem. Eles desertaram para publicar casos clínicos. Os
estudos quem faz são filósofos, literatos e historiadores. Este fenômeno é mais
evidente nos EUA e na Europa, e menos no Brasil.
Elizabeth Roudinesco afirma que
os psicanalistas brasileiros são ecléticos, menos dogmáticos. A ausência no
Brasil de um grande pensamento ordenado resultou em algo mais positivo. Há
trinta anos, os psicanalistas franceses viajavam ao Brasil como colonizadores. E sofreram um terrível golpe, porque hoje os
brasileiros são melhores que eles.
