REGINA DINIZ
“A
possível extinção da liberdade no mundo moderno preocupa Henry Steele Commager,
um historiador cuja visão equilibrada e mente observadora são incontestáveis.
Em “A Liberdade Está Morrendo?, ele cita evidências políticas e sociais para
demonstrar que estamos de fato perdendo
a nossa liberdade. Já “a liberdade perdeu sua posição exaltada na filosofia e
política”. Citando a antiga advertência, “o preço da liberdade é a eterna
vigilância”, ele comenta pesaroso, que há pouca vigilância no momento. Commager
acredita que a causa principal dessa morte da liberdade é o extenso crescimento
do materialismo e hedonismo no mundo.” (Autor: Henry Steele - Livro: Is Freedom Dying ?”.).
Com
é importante redescobrir o verdadeiro significado da liberdade. Não pode haver
liberdade que não comece com a liberdade para comer e o direito ao trabalho. Na
luta pela democracia a segurança econômica só recentemente foi reconhecida como
uma condição política da liberdade pessoal. Existe um medo reprimido na
população, pela inflação descontrolada e o desemprego, ansiedade pela
deterioração dos valores antigos, com a erosão das religiões, pela
desintegração da estrutura familiar, preocupação com a crise do petróleo, com a
violência urbana e assim por diante.
A
liberdade é uma necessidade para o progresso e uma necessidade para a
sobrevivência. Se perdermos a liberdade interior perdemos também a direção e a
autonomia, as grandes qualidades que distinguem os seres humanos dos ro- bôs. O
pensador Jerome Bruner expressa: - O caminho construtivo é olhar para dentro de
nós mesmos, a fim de redescobrir a verdade renascida, a qualidade de fênix da
liberdade agora tão necessária, integrando-a de novo em nosso ser. Vivemos
atualmente em um mundo vazio de ideais coletivistas e humanitários, onde a
maioria dos indivíduos não é capaz de refletirem sobre os seus próprios papéis
no mundo.
“Cornelius
Castoriadis afirmou numa de suas últimas entrevistas que o problema de nossa
civilização é que ela parou de se questionar. Podemos dizer, com efeito, que a
proclamação da morte das grandes narrativas ou, para Richard Rorty o recuo dos
“movimentos políticos, da política que estudava cada passo em termos de
encurtamento da distância que nos separa de um estado de coisas ideal, em troca
da solução de problemas imediatos, que é o princípio das “campanhas políticas
do tipo uma – questão por vez” anuncia o descompromisso das classes cultas, a
grande recusa da vocação intelectual moderna”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro:
Em Busca da Política – Ed. Zahar ).”
É
verdade que a contemporaneidade parou de se renovar. A visão de mundo proposta
atualmente pela elite culta é sem a valorização da dimensão histórica, são
tempos encolhidos, travados, ou um tempo giratório que não evolui, tempo de só
repetições, e quanto mais quer mudar mais fica no mesmo lugar. É uma mensagem
que nega a história. As classes mandatárias estagnaram para sepultarem o
questionamento social que anteriormente foi a sua marca registrada.
Para
colocar de maneira mais precisa, ainda achamos que a crise é o momento decisivo
para melhor ou pior , mas não como o
momento em que decisões sensatas podem ser tomadas com autoconfiança para garantir uma virada para melhor. Temos
um longo caminho a percorrer antes de pensarmos em alcançar uma sociedade na
qual “os indivíduos” reconheçam sua autonomia junto com os laços de
solidariedade que os unem, Como os fatos se apresentam no momento com o Estado
recusando sua responsabilidade pela segurança de todos e cada um, às leis dos
mais fortes triunfam sobre os fracos”; a versão real e efetiva de democracia
liberal parece gerar uma “sociedade de duas marchas, uma nação em duas
camadas”. Entretanto surgem movimentos
não somente nos fóruns mundiais, mas sobretudo nas redes de defesa em
frentes de produção alimentar, e não de armas, na defesa do ambiente, na luta
pela paz, contra a exploração do trabalho infantil etc...
“No
começo de seu livro - Depois de Auschwitz,- a senhora descreve a Viena no
início do século 20 como uma cidade rica, criativa e cheia de vida. Nesse mesmo
cenário, aconteceu a guerra. Como vê o mundo atualmente? Há conflitos em
regiões específicas, mas, em sua opinião, é possível voltar a acontecer algo
assim em escala global? – Espero que não. E não acho que uma coisa assim volte
a acontecer. Mas você sabe... Vocês estão vivendo essa tensão no Brasil, tem
também no Egito, na Síria, na Grécia... Em muitos países, há pessoas
protestando por diversas situações, e elas não estão gostando do que está acontecendo.
Acho que os políticos precisam perceber que é necessário mudar o modo como o
mundo está sendo gerido. Precisa haver mais igualdade. A diferença entre ricos
e os pobres está ficando cada vez maior, e acho que pode chegar uma hora em que
as pessoas não vão mais aceitar isso. Ninguém quer um holocausto ou uma guerra,
por isso, espero que percebam que o extrato básico do mundo precisa mudar. E
acho que estamos fazendo progresso. No epílogo do livro, digo que me parece que
ainda há algo de cruel, terrível e
desumano no mundo, mas este é também um tempo em que as pessoas aceitam
melhor umas às outras. Espero que em dez ou 20 anos, a discriminação racial
seja considerada fora de moda. Este é meu desejo para o futuro.” ( Autora: Eva
Schloss - entrevista realizada por
Augusto Paim – Revista da Cultura – setembro de 2013).
Eva
Schloss propõe uma reflexão profunda em seu livro “Depois de Auschwitz”
comunicando para toda a humanidade sobre a importância da bondade, do amor e da
compaixão para a própria estrutura da sociedade. Pede ao mundo que reconheça o
cultivo de atitudes harmoniosas, e também que consideremos a fragilidade da
conjuntura mundial atual e que trabalhemos, em nível individual no sentido de
reformular as atitudes para alcançarmos uma sociedade solidária. Seu apelo
dirigi-se ao coração através da mente, usando a razão e a sensibilidade para
restringir o egoísmo e gerar o altruísmo.
A
sociedade humana começa com as pessoas e, especificamente, com a nossa
capacidade de reconhecer no próximo os anseios comuns a todos, pela felicidade.
É necessário desenvolver o discernimento mental necessário a todas situações da
vida, com transcender as aparências e atingir a natureza profunda das pessoas e
das coisas, encurtando a distância entre a aparência e a realidade. O desejo de
colaborar com o mundo é algo amplamente compartilhado pelos jovens nos dias
atuais. Eva Schloss diz em suas palestras: “Cresci no que estava longe de ser
um mundo maravilhoso, mas ainda encontrei uma vida cheia de alegria e amor”.
“Entre
os desgraçados destinados aos trabalhos penosos, produtores do prazer de outrem
e recebendo somente de que sustentar seu corpo sofrido e cheio de necessidades,
nessa multidão imensa de instrumentos bípedes, sem liberdade, sem moralidade,
que não possui senão mãos que ganham pouco e uma alma absorvida, é isto o que
chamam de homens? Haverá dentre deles um único que seja capaz de ser admitido
em sociedade. A miséria e a subversão da inteligência, a pobreza e o
aviltamento da alma, o enfraquecimento e a decomposição da vontade e da
energia, o torpor da consciência e da personalidade, o elemento moral em uma
palavra, sensivelmente e mesmo com freqüência mortalmente atingido. Eis o
caráter essencial, fundamental e absolutamente novo do pauperismo”. (Autor:
E.J. Siejes – Livro: Écrits Politiques, op. Cit, p. 81)”.
Qual
seria a razão para justificar o padrão ético contemporâneo que nos leva a
aceitar a pobreza fabricada por nossa sociedade, apesar de ela causar matanças
mais constantes e metódicas que as facções e milícias? Haveria uma única
justificativa moral ou ética para essa contradição central entre igualdade
proclamada na concessão de direitos e a crescente desigualdade no acesso aos
recursos vitais?Tratar esta questão é de importância crucial para a preservação
de nossa humanidade.
Em
2013, segundo o estudo, que tem como base dados oficiais captados pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pobreza no País entre
2002 e 2012 decaiu mais especificadamente, 57,4%, o que significa, em números
palpáveis, 22,5 milhões de brasileiros deixando a condição de pobreza. O
relatório conclui: a redução da pobreza no Brasil continuou a se manifestar no
tempo recente, não obstante os efeitos econômicos negativos decorrentes da
crise internacional desde 2008. Ao contrário de grande parte das regiões do
mundo, o Brasil segue sendo uma referência internacional no combate a pobreza e
a desigualdade de renda. Após muito tempo em que o conjunto dos pobres se mantinha
na condição de intocável pela dinâmica do mercado e ação das políticas sociais,
o país demonstrou no último decênio caminho próprio de inclusão social.
