sábado, 15 de novembro de 2014

Respeito À Humanidade Como Um Fim em Si


 REGINA  DINIZ

“O filósofo Immanuel Kant nos lembra, que um indivíduo não é uma coisa, “não é algo a ser usado meramente como um meio”. Não tenho mais direito de dispor da humanidade em mim mesmo do que em outra pessoa. Para Kant suicídio e homicídio são errados pelo mesmo motivo. Ambos tratam as pessoas como coisas, e não respeitam a humanidade  como um fim em si. O auto respeito e o respeito ao próximo partem de um mesmo e único princípio. O dever do respeito é um dever que temos para com as pessoas como seres racionais, que têm humanidade, sejam elas quem forem. (Autor: Michael J.Sandel – Livro: Justiça  - O que é fazer a coisa certa. – Editora Civilização Brasileira – 2014).

Milênios se passaram e muitos filósofos dedicaram a sua vida, aprimorando a ética. Atualmente vivemos numa economia global, que exige uma ética global, universal. Que ética escolher entre as várias teorias éticas? Qual o papel das instituições internacionais na definição,  e no cumprimento dos deveres e dos direitos universais? É bom relembrar a teoria ancestral da reciprocidade, onde a figura do estrangeiro é sagrada: primeiro alimenta-se e cuida-se do visitante e só depois se lhe pergunta o nome e de onde vem. Sófocles, faz a defesa do humanismo dizendo: “Muitos prodígios existem: porém nenhum maior do que o homem”.

Hume, Hobbes, Stuart  Mill e outros grandes escritores, com Rawls na sua teoria da Justiça, estudaram muito sobre as questões morais com o objetivo de oferecer  a melhor teoria ética. Atualmente, o estudo centra-se na ética dos afetos e na ética dos direitos. A primeira preocupa-se com as relações familiares, fraternas e amigáveis. A ética dos direitos associa-se a preocupação com os direitos individuais. Adam Smith expõe em seu livro “A Teoria dos Sentimentos Morais e à possível contradição com a teoria da mão invisível do mercado no livro: “A riqueza das Nações” ressalta a impossibilidade de conciliar o utilitarismo e a ética utilitarista com os princípios da justiça, e com os princípios da solidariedade.

Moral e Ética são dois conceitos que analisam um sistema de regras de conduta da nossa relação com o outro. A Moral é um conceito que se compatibiliza mais aos sistemas filosóficos, à teoria. A Ética se adequa mais à prática, às regras de conduta do viver quotidiano. Deduzimos que o domínio da moral é o da sabedoria da teoria da reflexão e o domínio da ética é o do sentir, do agir, da interação com os outros. Pergunto-me: Porque o estudo da moral e da ética não estão presentes nos currículos escolares, não só no Brasil, mas no mundo todo. Como explicar os inúmeros conflitos bélicos, que se desenrolam no mundo todo?

“Agir moralmente significa agir por dever em obediência à lei moral. A lei moral consiste em um imperativo categórico, um princípio que exige que tratemos as pessoas com respeito, como fins em si mesmas. Só agimos livremente, quando agimos de acordo com o imperativo categórico. Isso acontece porque sempre que agimos segundo um imperativo hipotético agimos em prol de algum interesse  ou objetivo externo. Mas nesse caso não somos verdadeiramente livres; nossa vontade não é determinada por nós, e sim por forças externas, por nossas necessidades circunstanciais ou por vontades e desejos que por ventura tenhamos”. (Autor: Immanuel Kant - Título:
Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Citação: Autor: Michael J.Sandel – Livro: Justiça o que é fazer a coisa certa. 13ª- edição – Ed. Civilização Brasileira – Rio de Janeiro – 2014).

Só podemos evoluir com autonomia, quando escolhemos jeitos de ser a nós mesmos, e aceitamos que a liberdade e moralidade  estejam interligadas. A tentativa de basear a moralidade  em algum interesse, ou desejo particular está destinada ao fracasso. O princípio baseado no interesse não pode ser considerado como lei moral. Kant nos ensina a tratar todos os indivíduos com respeito, como um fim em si mesmo. Melhor dizendo “Faça aos outros o que deseja que os outros façam a você”.

O estudo da Ética é inseparável da discussão sobre a vida justa. E a vida justa como categoria só pode ser apreendida, quando pensamos a realidade social: a vida com os outros; a interação coletiva, a esfera pública. O pensamento a propósito da ética implica reflexões sobre temas como os da solidariedade, da tolerância, da responsabilidade, das identidades e dos direitos. A ação ética sustenta-se na intencionalidade da ação, na relação da consciência para consigo mesma, na integridade do ser humano frente a seus pares. Hanna Arendt defende: compete ao educador preservar do mundo às novas gerações, para que estas não destruam o suporte de memória, e o acervo cultural acumulados pela Humanidade no transcurso de milênios.

O grande desafio é preparar as jovens gerações para o novo, isto é encaminhá-las rumo ao desconhecido: aquilo que elas, quando crescidas poderão aproveitá-las  na preparação para o novo. A ética é portanto, a vida boa enquanto vida justa na esfera coletiva. É na ação social e na relação com os outros que se constitui o fato ético. Amizade como escolha do outro: como reconhecimento do outro no outro e como encontro de si mesmo nesse reconhecimento do outro.

Para Aristóteles, o exercício da amizade estrutura o próprio ideal de autonomia. Já que aos homens não foi concedida a plenitude divina, pela união mais desinteressada dos mesmos homens entre si, desenvolver-se-ia o movimento em direção a essa liberdade, autonomia, à independência do sujeito para encontrar em si e por si os motivos e as estratégias de ação. Tal autonomia é, contudo, um aprendizado, expresso fundamentalmente na vida voltada para o convívio ético: vida mais feliz e mais harmoniosa. Indispensável para o viver coletivo, a acepção de amizade ganha em Aristóteles um estatuto bastante elevado, para a produção de decisões acertadas sobre o possível e sobre o desejável.

A conduta virtuosa e a vida boa pautar-se-iam pela perseverança, quanto a retidão do agir e pela cautela perante os infortúnios do acaso. A educação ética supõe um certo disciplinar das vontades, um controle continuado dos instintos e da expressão das determinações externas. A ética é firmada na avaliação necessária entre o possível e o almejado, na busca criteriosa da edificação de uma vida equilibrada e justa, que resiste e recusa ao capricho das paixões.

Segundo Rousseau, a sabedoria como domínio de si e autoconhecimento traz pistas para remeter para a educação o debate a propósito da ética. A prudência e o discernimento das paixões, o domínio dos afetos, esse constante aprender a fazer de si próprio seu senhor, é o que demarca o campo do que poderíamos compreender como autonomia da vontade, assim a condição humana seria em sua essência o livre-arbítrio e as demarcações de escolhas que, sendo autônomas e construtivas no homem bem formado e bem cultivado, contribuiriam para elevar o nível de suas decisões.

Kant na mesma direção, apresentou o território da ética como campo da distinção humana, da especificidade e particularidade do homem
perante sua circunscrição. O homem é o ser pensante da natureza, destinado a escolher, inclinado a eleger caminhos e propor trilhas; vocacionado para justificar suas escolhas. A opção pelo bem apresenta-se como imperativo categórico. A intuição primeira, que posta como dever, torna-se obrigação da consciência. O ser humano, seria em certa medida o sujeito que escolhe as normas, que adquirem validade universal, fazem-se dever de moralidade. A vontade moral estaria, pois em consonância com leis universais. O modo como atuamos no mundo deverá estar de acordo com a noção do bem, que nós seres capazes de discernimento entre o bem o mal

consideramos universal. Gostaríamos de poder tomar como essências de virtude para toda a conduta humana.   

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