REGINA DINIZ
No
verão de 2004, o furacão Charley pôs-se a rugir no golfo do México e varreu a
Flórida até o oceano atlântico. A tempestade, que levou 22 vidas e causou
prejuízos de 11 bilhões de dólares, deixou também em seu rastro uma discussão
sobre preços extorsivos. Em um posto de gasolina, em Orlando, sacos de gelo de
dois dólares passaram a ser vendidos por dez dólares. Sem energia para
refrigeradores ou ar-condicionado em
pleno mês de agosto, verão no hemisfério norte, muitas pessoas não tinham
alternativa senão pagar mais pelo gelo.
Árvores derrubadas aumentaram a procura por serrotes e consertos de telhados.
Prestadoras de serviços cobraram 23 mil dólares para tirar duas árvores de um
telhado. Lojas que vendiam normalmente pequenos geradores domésticos por 250
dólares pediam agora 2 mil dólares. (Autor:Michael Mclarty - “After Storm Come the Vultures” – USA Today,
20 de agosto de 2004, p – 6 B)”.
Em
tempos de dificuldades sociais, uma sociedade deve se manter unida. Precisamos
debater cotidianamente a ética da virtude, como também incentivar as atitudes e
disposições, privilegiando as qualidades de caráter das quais humanizam uma boa
sociedade. Tentar enriquecer à custa das dificuldades dos outros sempre foi inaceitável, mas mesmo
assim permaneceu este comportamento destrutivo, o qual deve ser banido. A
pessoa se torna gananciosa pelo medo de, no futuro, o dinheiro vir a faltar, se
preocupa muito com o status. Por trás do ímpeto pelo poder está o medo. São
pessoas inseguras.
“O
que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos
desonestos, nem dos sem caráter, nem dos sem moral. O que mais me preocupa é o
silêncio dos bons”.(Martin Luther King). Não há problema algum em acumular bens
materiais, a não ser quando este desejo passa a ser voraz e inconseqüente,
alimentado por uma ganância desmedida. É este um dos problemas de uma sociedade
que se pauta pela ganância sem limites: os valores éticos e morais são
deturpados. A nossa sociedade capitalista estimula, valoriza e vende cada vez
mais a idéia de que ser é ter poder, dinheiro, coisas materiais. O grande
problema é quanto isso se torna mais importante que o ser.
Muitas
de nossas decisões diante de situações cotidianas e importantes dependem
daquilo que consideramos bom, justo ou moralmente correto. E tais julgamentos
morais da realidade é que fazem do homem em comparação aos demais seres vivos
presentes na natureza, tornando-o completamente distinto porque somente o ser
humano tem a compreensão do sentimento do bem e do mal, do justo e injusto e de
tantas outras qualidades morais. A Ética é disciplina filosófica que busca
refletir sobre os sistemas morais elaborados pelos homens, tentando compreender
a fundamentação das normas e das interdições peculiares de cada sistema social
e cultural.
“A
faculdade de percepção, julgamento, sentimento discriminativo, atividade mental
e até mesmo a preferência moral só são exercitadas quando se faz uma escolha. Aquele que só faz
alguma coisa porque é o costume não faz escolha alguma. Ele não é capaz de
discernir nem de desejar o que é melhor. As capacidades mentais e morais, assim
como as musculares, só se aperfeiçoam se forem estimuladas. Quem abdica de
tomar as próprias decisões não necessita de outra faculdade, apenas a
capacidade de imitar, como os macacos. Aquele que decide por si emprega todas
as suas faculdades”. (Autor : John
Stuart Mill – Livro: On Liberty (1859) Stefan Collim, ed.Cambridge
University Press, 1989, capit: 1).
O
homem é um ser moral, porque avalia sua
ação e sua realidade a partir de valores. Somente quando somos livres
tornamo-nos responsáveis pelo que praticamos. É a responsabilidade que pode ser
julgada pela consciência moral do próprio indivíduo e pelo seu grupo social.
Podemos atuar no sentido de aumentar nossas possibilidades de escolha, e isso
será eficiente na medida em que for maior a nossa consciência a respeito desses
valores.
A
moral é construção humana e social e também histórica. Os sistemas morais não são
valores físicos e nem imutáveis, porque são relacionados com as transformações
histórico-sociais. A Ética serve para que haja um equilíbrio e bom
funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste
sentido, a Ética, embora não possa ser confundida com as leis, está relacionada
com o sentimento de justiça social.
O
objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o
indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos sempre
adoram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as
prioridades em conflito dos indivíduos
versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a “ética
da situação”. O que está certo depende das circunstâncias e não de uma
qualquer lei geral. E sobre a bondade é determinada pelos
resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.
“Para
os autores, notadamente, Fromm. Horney, Jung, C.Buhler, Angyal, Rogers, G.
Allport, Schdehtel e Lynd, o crescimento, autonomia, auto-atualização,
individualização, autodesenvolvimento, produtividade, auto-realização são todos sinônimos, de uma forma rudimentar,
designando mais uma área vagamente percebida do que um conceito nitidamente
definido. Na minha opinião, não é possível definir atualmente essa área em
termos precisos. Atualmente, há necessidade positiva de teorias e conceitos que
sirvam melhor aos nossos sistemas humanistas
de valor que estão surgindo do colapso dos antigos sistemas de valor.”
(Autor: Abraham H. Maslow - Livro:
Introdução à Psicologia do Ser).
O
produto final do crescimento ético nos ensina muito sobre os processos de
crescimento. É importante o estudo sobre os processos do crescimento. É
importante o estudo direto dos indivíduos bons, em vez de maus, de pessoas
sadias, em vez de doentes, do positivo em vez do negativo. As pessoas sadias
emocionalmente desfrutam de uma observação superior da realidade. Desfrutam de
uma abertura crescente do próprio eu, com a compreensão dos outros e da
natureza. Aumenta a conscientização em determinado problema até decifrá-lo.
Junto
com as pessoas distancia-se emocionalmente para compreendê-las e afetivamente
deseja a intimidade. Valoriza a autonomia, busca a renovação de soluções e
resiste a enculturação. Privilegia a originalidade de apreciação e riqueza de
reação emocional. Identifica-se profundamente com a espécie humana e suas
relações interpessoais são melhoradas, deseja sempre ajudá-las.
A
individuação é um processo ativo e dinâmico durante a vida inteira, privilegia
o Ser em vez de vir a Ser. Procuram desenvolver ao longo da vida os talentos,
capacidades, tendências criadoras, potencialidades constitucionais.O
crescimento pessoal consiste em despojar-se de inibições e limitações,
permitindo ao indivíduo “ser ele próprio”, emitindo comportamento construtivo,
permitindo que a sua natureza íntima se expresse...
Porque
se fala tanto em moral hoje? Acredito que se fala muito de moral porque os
problemas morais assumem dimensões assustadoras na sociedade contemporânea. Influentes
pensadores, filósofos, historiadores, políticos e literatos de todas as épocas
nos fornecem um vasto material que comprova a constante preocupação com a Ética
e a Moral. O tempo atual vive grandes e rápidas transformações que afetam não
só o exterior, mas também os fundamentos do ser e do pensar, as formas de
julgar e decidir, as normas e valores. Em qualquer lugar da sociedade
contemporânea, as decisões e ações podem ter efeitos ameaçadores não só para os
indivíduos, mas para a sociedade como um todo. Acredita-se que só a Educação
pode ajudar a reduzir a barbárie, e se coloca como responsabilidade maior para
aqueles que pensam e fazem educação.