domingo, 14 de maio de 2017

A BUSCA CIENTÍFICA DA FELICIDADE

REGINA DINIZ

Para o filósofo grego, desenvolver boas virtudes era como aprender a tocar bem um instrumento. A ética é uma ciência prática, jamais teórica. Não se ensina coragem a não ser se vivendo a coragem. Nesse sentido, a moral não é dependente de nenhum valor do outro mundo; é um esforço das pessoas para vencer vícios e dar condições aos mais jovens de desenvolver melhores hábitos e costumes.

Essa é a escola moral que mais aprecio e julgo correta, apesar de que, com a modernidade e as sociedades gigantescas que surgiram e o anonimato consequente, as vezes fica difícil pensarmos no reconhecimento das virtudes. Virtude é sempre pública, isto é, o outro reconhece em mim a virtude. Nada de marketing do bem nem auto proclamação das próprias virtudes.

Para Kant, se ninguém mentir, o mundo será melhor porque todos poderão confiar em todos e a vida será transparente. Faz parte da urbanidade e da elegância social saber que devemos evitar dizer coisas que causem mal-estar desnecessário. Porém permanece sendo importante que mentir o tempo destrói o tecido social e as relações entre os seres humanos. Portanto, dizer a verdade, ainda que não seja possível sempre, deve ser visto como um mecanismo regulatório do comportamento para que possamos ter algum grau de confiança no amor, na família, nas amizades e nos negócios.

Kant aconselha que não devemos usar um ser humano como meio, mas sim como fim, significa que não podemos fazer dele “uma coisa”, mas sim que a sociedade deve tê-lo com fim em tudo o que ela fizer: em outras palavras, o objetivo supremo d sociedade, e fazer a vida dele menos sofrida deve ser a meta de qualquer sociedade decente. Essa idéia também é um pouco irreal na medida em que as relações de sobrevivência material (e seus escassos recursos) implica que muitos de nós somos meios para que outros, como nossos filhos, por exemplo, possam sobreviver.

A necessidade econômica (ciência da escassez) implica sermos, muitas vezes, meios para a sobrevivência da sociedade ao longo dos milênios. Para entender a validade da idéia de Kant de um modo mais simples, imagine a seguinte situação: pense que você divide a casa com amigos. Agora imagine que um deles se recusa a lavar a louça. Ele não está sendo ético no sentido Kantiano, porque se todos precisam lavar a louça, não há porque um deva escapar desse encargo.

Do ponto de vista da história da filosofia, a diferença entre moral e ética é a mesma que existe entre mesa e table. Moral é a tradução latina para a palavre grega original ética. Vou usar as duas como sinônimos. Apesar disso, vale a pena esclarecer o que as pessoas têm em mente quando assumem que existe uma diferença entre elas. Para a maioria, ética é o campo das normas de conduta, enquanto moral é a parte da filosofia que reflete hábitos e costumes. Ambas são as duas coisas ao mesmo tempo, porque faz parte da reflexão sobre hábitos e costumes pensar sobre as normas que devem regrar esses hábitos e costumes.

Não existem hábitos e costumes que não sejam permeados de normas, muitas vezes quase automáticas ou espontâneas. O que são hábitos e costumes? Generosidade, coragem. justiça, disciplina entre outros. Para Aristóteles os bons atos e costumes deveriam ser praticados a ponto de se tornarem uma segunda natureza, portanto automáticos ou espontâneos. A escola moral mais antiga é a de Aristóteles, conhecida como moral das virtudes ou do caráter. Para ele, ao longo da vida coletiva dos povos desenvolvemos hábitos e costumes que nos definem como seres morais.

Kant chama atenção para o fato de que se você for chamado a julgar algo em que tem interesse direto em um dos possíveis resultados, abra a mão da função de julgar essa situação, uma vez que sua avaliação poderá ser prejudicada por elementos emocionais no processo. Kant via a ética como um campo de prática racional acima de tudo. Ainda que muitos longe da realidade comezinha e concreta em que vivemos na realidade, a ética Kantiana se sustenta como tentativa moderna essencial de somar esforços para agirmos de modo minimamente racional e levarmos em conta o maior número de pessoas envolvidas no processo, ainda que nem sempre todas de modo ideal.

A perda dos vínculos próximos das comunidades pré-modernas, base dos hábitos e costumes que sustentavam a vida dentro de certos trilhos, encontrou na ética Kantiana uma tentativa sincera de sustentar a vida, daquilo que Kant e outros julgam ser central em nossa vida: a razão. Se eles, os racionalistas, estão certo, é outra coisa. Como eu disse antes, não creio que sejamos seres racionais em sua plenitude. Ao contrário, penso que muitas são as pressões internas e externas sobre nós para que a razão seja a senhora absoluta em nossa vida.

No início do século XX, Aldous Huxley escreveu o maior panfleto anti-utilitário conhecido, admirável mundo novo. Sua distopia de um mundo perfeito é até hoje, me parece, o que há de melhor em calcular os resultados de uma sociedade que faria a opção pelo racionalismo utilitário de forma definitiva. Vejamos Nesse Admirável Mundo novo, a perfeição de uma sociedade que eliminou o contraditório mostra, ainda que de modo caricatural, seus efeitos colaterais danosos.

Seres humanos que optam por uma vida perfeita acabam escravos dessa perfeição. Se o “erro de Kant” é apostar numa razão pura prática (nome técnico da moral em seu livro sobre o tema que não está ao alcance de um ser humano real, confuso e fraco.

O “erro” do utilitarismo é fruto do que “sobra de acerto” em sua ética: estão certos em dizer que fugimos da dor e buscamos o bem-estar, mas estão errados em achar que podemos construir uma sociedade em cima da busca científica  da felicidade. A pessoas no livro de Huxley eram umas idiotas fabricadas geneticamente. As pessoas do mundo real são umas idiotas obcecadas pela saúde e pela felicidade. E acertou em cheio, não?

“A ética das virtudes de Aristóteles é a melhor, porque vê a vida moral como um combate em busca de bons hábitos, sem prescrição de comportamentos que tendem a normas categóricas. Nesse sentido, é a mais humana das três escolas. Nesse sentido me considero um  Aristotélico em Ética.

No mundo contemporâneo, a hierarquia nietzschiana, principalmente de corte francês, e em filósofos como Gilles Deleuze e Michel Foucault, e o caráter relativo dos valores ficaram expostos, e, portanto, sua validade  é relativa a tempo e espaço específicos.

Se formos para trás um pouco no tempo, e chegarmos ao século XVII, em filósofos como Blaise Pascal, ou no século XVI, em Michel de Moutaine, ambos carregados de teor cético em seus argumentos, ou mais atrás ainda, e formos aos últimos séculos da era  pré-cristã na Grécia, e ouvirmos  as vozes dos sofistas e céticos, veremos que todos eles, apesar de não usarem a expressão  valores, sempre foram relativistas. Pascal chega a afirmar que, se o nariz de Cleópatra fosse outro, a história do mundo seria outra. Logo os valores seriam outros.

O VAZIO ÉTICO E EMOCIONAL DOS DIAS DE HOJE


REGINA DINIZ


Qual a origem psicológica dessa experiência de vazio? A sensação de vácuo que observamos ao nível social e individual não deve ser tomada no sentido de que as pessoas são vazias, desprovidas de potencialidade emocional. Um ser humano não é oco num sentido estático, como se fosse uma bateria precisada de nova carga. A sensação de vazio provém, em geral, da incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos.

O vácuo interior é o resultado acumulado a longo prazo da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência  sobre o mundo que nos rodeia. ( Autor: Rollo May).

 Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que aflige hoje em dia. E uma  vez, que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade. Quando alguém continuamente defronta-se com um perigo que é incapaz de vencer, sua linha final de defesa é evitar a sensação de perigo. Observadores perspicazes de nossa época predisseram estes acontecimentos. Erich Fromm observou que hoje em dia as pessoas deixaram de viver sob a autoridade da igreja ou das leis morais, mas submetem-se a “autoridades anônimas”   mas com a opinião pública.

Riesman faz a importante observação de que o público, neste caso, teme um fantasma, um boneco, uma quimera. Trata-se de uma autoridade anônima com “A” maiúsculo, composta de nós mesmos, mas desprovida de centros individuais. No final, o que tememos é o nosso vazio coletivo. E temos bons motivos, como os editores de Fortune, para nos assustarmos com esta situação de conformidade e vácuo individual. Basta lembrar que o vazio ético e emocional da sociedade européia,  há duas ou três décadas foi um convite aberto ao surgimento de ditadores fascistas. O grande perigo desta situação de vácuo e impotência e conduzir mais cedo ou mais tarde, à ansiedade e ao desespero e finalmente, se não corrigida, ao desperdício e ao bloqueio das mais preciosas qualidades do ser humano. Os resultados finais serão a redução e o empobrecimento psicológico, ou então a sujeição a uma autoridade destrutiva.

Toda a história do homem é um esforço para destruir a própria solidão. A sensação de isolamento ocorre quando a pessoa se sente vazia e amedrontada, não apenas deseja sentir-se protegida na multidão, como um animal selvagem se resguarda vivendo em bandos. A ânsia pela proximidade dos outros não é também um simples desejo de preencher o vácuo interior, embora esta seja com certeza uma faceta da necessidade de companheirismo humano de quem se sente ansioso. O motivo mais fundamental é que o ser humano adquire sua primeira experiência do self (processo desenvolvido pelo indivíduo em interação com seus semelhantes e através do qual se torna capaz de tratar a si mesmo como o objeto, isto é observar-se, considerando seu próprio comportamento do ponto de vista alheio, no relacionamento com seus semelhantes e quando está sozinho, desligado de outras pessoas, teme perder esta experiência.

Na solidão do homem moderno está seu grande temor de ficar só. Em nossa cultura costuma-se dizer: - “você anda solitário¨, um modo de admitir que não é bom estar só. É aceitável querer ficar só temporariamente, para “desligar-se de tudo”. Mas se alguém mencionar numa reunião, que gosta de estar sozinho, não para descansar, mas por preferência pessoal, os outros têm tendência a achar que fracassou, pois para eles é inconcebível que uma pessoa fique sozinha por libre escolha.

Este medo da solidão aparece por detrás da grande necessidade de receber convites, ou de ver os seus aceitos. A pressão para manter-se socialmente ativo vai muito além dos motivos realistas, como o prazer da companhia alheia, o enriquecimento das idéias, sentimentos e experiências, ou a simples satisfação do descanso. Na Verdade, tais motivos tem pouco a ver com a idéia compulsiva de ser convidado.

 As pessoas mais esclarecidas o percebem muito bem e gostariam de dizer “não”, mas desejam muito a oportunidade de ir:  e recusar convites na costumeira roda da vida social significa, mais cedo ou mais tarde deixar de ser convidado. O temor que emerge das camadas subterrâneas é ser inteiramente afastado, deixado de lado.

Não há dúvida de que em todas as épocas a solidão foi temida e as pessoas a ela procuraram fugir. Pascal, no século XVII observando os esforços que todos faziam para divertir-se, opinou que a finalidade das distrações era evitar que as pessoas pensassem em si mesmas. 

Kierkegaard, há cem anos passados, escreveu que em sua época “as pessoas fazem tudo o que é possível em matéria de diversão e de empreendimentos atordoantes para afastar a idéia de solidão, assim como nas florestas da América mantêm-se à distância os animais selvagens por meio de tochas acesas gritos e toque de chocalhos”. Mas a diferença é que em nossa época o medo da solidão é muito mais intenso e as despesas contra ele – diversões, atividades sociais e “amizades” são mais rígidas e compulsivas.

É de importância crucial, portanto, manter a continua roda de coquetéis, embora encontrem diariamente as mesmas pessoas, tomem as mesmas bebidas e conversem sobre os mesmos assuntos ou a falta deles. Importante não é o que se diz, e sim que haja sempre alguém falando. O silêncio é um grande crime, pois significa solidão e medo.

O homem ocidental, habituado há quatro séculos a enfatizar a  racionalidade , a uniformidade e a mecânica, vem tendo consistentemente, com pouco êxito, recalcar seus aspectos que não se coadunam com esses padrões uniformes e mecânicos. Será exagerado dizer que o homem moderno, sentindo o seu vazio, teme que se não tiverem seus associados costumeiros à volta, se esquecer que horas são, perderá o talismã do programa diário, da rotina de trabalho e sentirá embora de maneira confusa, uma ameaça a solidão é portanto real e não imaginaria, para a maioria.

Outra raiz de nossa doença é a perda do sentido de valor e dignidade do ser humano. Nietzsche o predisse ao apontar que o indivíduo estava sendo absorvido pela multidão e que estávamos vivendo segundo uma moralidade de escravos. Marx também o predisse ao proclamar que o homem moderno estava sendo “desumanizado”, e Kafka demonstrou em suas supreendentes histórias, que as pessoas podem literalmente perder a própria identidade. Surgiram reflexões “Seja você mesmo” era então uma desculpa para deixar-se cair no mais baixo denominador comum das inclinações. “Conhecer a si mesmo” não era considerado particularmente difícil, e os problemas de personalidade podiam ser resolvidos com relativa facilidade por meio de um melhor “ajuste”.

Precisamos lutar para recuperar a experiência e a fé no valor e na dignidade da pessoa humana. Tudo parece ocorrer num sonho, sem um verdadeiro relacionamento entre o homem e o mundo, ou ele mesmo e suas ações. Aventurar-se, no sentido mais elevado, é precisamente tomar consciência de si mesmo. Seu senso de individualidade o distingue do restante dos seres animado e inanimados. Sentimos a necessidade da autoconsciência. É preciso afirmar a própria personalidade, apesar do caráter impessoal da natureza, e preencher seus silêncios com a própria vida interior.

O psicoterapeuta, tendo o privilégio de testemunhar a luta íntima de um certo número de pessoas, seus combates muitas vezes amargos e graves, consigo mesmas e com as forças externas que as desafiam, adquire por elas um grande respeito e uma nova compreensão do potencial de dignidade do ser humano. Resolve levar-se a sério, descobre no íntimo uma capacidade da recuperação anteriormente desconhecida, e às vezes mesmo notável.

Há um lado positivo: o fato de não termos outra escolha a não ser caminhar para a frente. Somos pessoas cujas defesas e ilusões foram vencidas. A única opção é avançar para algo melhor. Precisamos redescobrir no nosso íntimo novas fontes de vigor e integridade. Este é um dever do indivíduo, que assim contribuirá para o lançamento das bases de uma sociedade construtiva, que eventualmente emergirá desta época agitada.

A faculdade da antoconsciência confere ao ser humano o talento de ver-se a si mesmo como os outros o vêem e sentir empatia. Existe ainda sob a notável aptidão para transportar-se  até a sala de alguém, onde na realidade só se encontrará  na semana seguinte, e em imaginação planejar sua maneira de agir. Permite que a pessoa se coloque no lugar de outra e imagine como se sentiria e o que faria se fosse ela. Por pior que se use, deixe de usar, ou o mesmo abuse  desta aptidão, ela constitui os rendimentos da capacidade de amar o próximo, ter sensibilidade ética, considerar a verdade, criar a beleza, dedicar-se a ideais e morrer por eles, caso necessário.