sexta-feira, 31 de maio de 2019

A REALIDADE É MAIS COMPLEXA DO QUE PARECE


    Em Porto Alegre para o ciclo Fronteiras do Pensamento, o escritor espanhol Javier Cercas compara o mundo ocidental de hoje ao dos anos 1930 e defende a literatura que mostre como ‘’A realidade é mais complexa do que parece’’. O espanhol Javier Cercas consolidou seu nome nas últimas décadas. O espanhol Javier Cercas como como o grande cronista histórico da sociedade espanhola do século 20. Cada livro parece encontrar um novo e original ponto para pensar sobre o que aconteceu na Espanha ao longo do difícil pro processo de reconstrução nacional após a ditadura de Francisco Franco – 1938 – 1973.

    Soldados de Salamina seu romance mais internacionalmente, é uma reflexão sobre a conciliação nacional ao narrar a história de um falangista fugitivo que escapa de um fuzilamento ao fim da Guerra Civil ‘’iniciada em l936’’ e em sua tentativa de fuga, encontra um soldado republicano que pode ou não entregar para uma nova execução. Ao mesmo tempo, a narração é feita pelo ponto de vista de um escritor chamado Javier Cercas, que busca elementos sobre a história para escrever um livro.

    Publicado em 2001 e adaptado para o cinema por Fernando Trueba dois anos depois, o romance foi responsável por turbinar uma nova onda de reflexões e obras sobre o trauma da Guerra Civil na Espanha. E também uma amostra condensada de como escreve seus romances; reconstruindo episódios reais com rigor histórico e, ao mesmo tempo, embaralhando as noções entre fato e ficção. O que bons romances fazem é mostrar que a realidade é sempre mais complexa do que parece, e, desse modo, nos enriquecem a vida e a tornam mais digna de ser vivida.

    Cercas, que esteve em Porto Alegre na última segunda-feira para participar do ciclo Fronteiras do Pensamento, no qual debatem com o escritor chileno Alejandro Zambra, concedeu a seguinte entrevista na qual discute os limites da ficção, suas obras, a crise catalã de um ano atrás e a ascensão recente, no mundo todo de movimentos populistas de extrema direita. Javier Cercas definiu o romance o Reino da Ambiguidade. Que espaço ainda há para o romance e seu caráter ambíguo no momento em que a polarização e o maniqueísmo parecem ser a tônica.

    Receio que a polarização e o maniqueísmo tenham sido a tônica em muitos momentos da história, se não quase todos, muito mais que agora. Em meu livro El PUNTO CIEGO, aponto que o romance, especialmente a partir do século 19 – que é quando se torna um grande gênero literário comparável aos gêneros clássicos e ainda mais importante do que eles, se uma arma de destruição em massa da missão monolítica ou totalitária do mundo, precisamente porque carrega a ironia em seu coração.

    Em suma, o que bons romances fazem é mostrar que a realidade é sempre mais complexa do que parece e, desse modo, nos enriquecem a vida e a tornam mais digna de ser vivida. Na verdade, o romance é um jogo. Mas é um jogo em que se joga tudo. Acho que o país tentou, mas ficou no meio do caminho. De qualquer forma, precisamos reconhecer.