REGINA DINIZ
“Macpherson menciona, como exemplo de mau desenvolvimento, o fato de a democracia moderna exigir um desenvolvimento humano igual para todos, ou seja, a garantia dos direitos individuais na posse, uso e gozo das próprias capacidades. Todavia ele salienta que tal possibilidade é uma ilusão, porque essa promessa acelera as desigualdades entre as classes. Em outras palavras, para este autor, a primazia do mercado e o individualismo possessivo necessitam de uma sociedade desigual. Tal assimetria baseia-se no hiperdesenvolvimento de alguns setores ou grupos, desrespeitando outros âmbitos ou classes sociais”. (Macpherson, C.B. - livro: La Democracia Liberal e su época. – Madrid: Aliança Editorial, 1997).
Desde o período medieval o desenvolvimento econômico era pensado, mas sempre voltado a um futuro infinito, com propostas de superação do estágio inferior para o superior. Concomitantemente persistia o desejo em deixar para trás a herança cultural, os costumes, padrões e valores tradicionais, ou seja o legado de crenças, usos, hábitos resultantes das experiências de gerações passadas. As conquistas sociais e culturais foram totalmente substituídas por um desenvolvimento “de avanço e prosperidade” nunca aconteceu.
A primeira guerra já havia empobrecido o mundo. Após a Segunda Guerra, Truman cunhou a expressão subdesenvolvimento, significando atraso, estagnação e incapacidade de usufruir o ideal. Daí surgiu a concepção de desenvolvimento só como progresso material. Passado sessenta e cinco anos, só foram valorizados os aspectos puramente quantitativos: comércio, taxas de investimentos etc... A importância do ser humano foi totalmente banida. Ele é o grande ausente da contemporaneidade. Nota-se que o objetivo maior é insistir na expectativa de que “todo tempo futuro será melhor”, o tempo presente inexiste.
“O Desenvolvimento Sustentável (ou sustentado) é sem dúvida o conceito mais propalado hoje em dia. Em um primeiro momento, essa concepção se sustentava na idéia de atender a “eficácia econômica simultaneamente com os requisitos de ordem ecológica, social, cultural e espacial”. A novidade desse conceito se associava à proposta de criação de tecnologias não poluidoras e pouco exigentes de energia, sem, todavia, abandonar a proposta de aumento das riquezas. Embora muito admirado, inclusive devido à sua associação com o ecodesenvolvimento, essa tendência começou a perder importância, pois não renuncia ao produtivismo e ao consumismo, considerando-os como objetos mais importantes da vida humana”. ( Manuel Cabral de Castro – Desenvolvimento Sustentável: a genealogia de um novo paradigma. In:Revista
Economia e empresa. São Paulo v..3, n.3, julho de 1996.)
É gravíssima a posição do desenvolvimento sustentável por não renunciar ao produtivismo e ao consumismo, que dilapida violentamente o pouco patrimônio que ainda resta nas nações. O triunfalismo e a imensa superioridade narcísea da sociedade de consumo, bem como a resignação a escravização, escancaram o caos cultural e social, escondendo desesperadamente a penúria que se avoluma cada vez mais. O plano econômico é extremamente sádico em propor a tese do descartável, em tempos de pobreza extrema, e da multiplicação de favelas no mundo todo.
O Desenvolvimento Sustentável é o modismo dos nossos tempos. Afirmam que precisam ter crescimento para serem ricos, a fim aliviar e terminar a pobreza no mundo. Já se foram cinco décadas de total fracasso deste modelo financeiro, e não se cansam de afirmar que não devemos crescer para sempre, devemos acelerar para sempre!... É uma política vazia, totalmente desvinculada da realidade. O que é possível e desejável é unicamente o entrelaçamento do crescimento quantitativo com o crescimento qualitativo, que melhora a vida das pessoas através da aquisição cultural, eliminando as confirmações no consumo de tarecos descartáveis, e dessa maneira sem aumentar o impacto sobre o ambiente natural.
Após a Segunda Guerra foram implementados quatro modelos de crescimento econômico: - 1960 – O Desenvolvimento Recuperacionista centrado na industrialização e modernização. 1970 – Surgiram objetivos novos: Atendimento das necessidades fundamentais, orientação profissional – autoconfiança e muitas esperanças em uma nova ordem mundial. 1980 – Crise no modelo desenvolvimentista, e o endividamento dos países pobres geraram um grande desequilíbrio mundial. 1990 - Implementaram nova mudança, cuja estratégia neoliberal apostava na economia de mercado e no livre comércio. Esta concepção de crescimento econômico cai por terra, tornando-se incapaz de solucionar problemas, salientando o fracasso das políticas de desenvolvimento. Novos movimentos sociais no Ocidente colocaram em ação uma espetacular narrativa da velha idéia de Desenvolvimento Econômico.
Surge uma outra mudança, que propõe avaliação de índices de desenvolvimento, renda per capita nacional etc..., que se tornaram altamente discutíveis. O documento não registra nada sobre a satisfação das necessidades básicas, não propõe nada sobre educação, não fala nada sobre o setor informal e subsistência humana, considerando estes termos como não econômicos.
Diante destas descabidas decisões surge o Índice de Desenvolvimento Humano, que considera o desenvolvimento como uma questão mais profunda, devendo considerar todas as opções do homem em todas as sociedades e em todas as etapas. “Segundo Johannes Müller – (Países em vias de desenvolvimento – política de desenvolvimento salienta três dimensões fundamentais:1 – O desenvolvimento dos homens - o qual exige investimentos na educação, saúde, alimentação e bem-estar social, para o que a expectativa de vida seja tomada como indicador no nascimento. 2 – O Desenvolvimento pelos homens - requer sua participação abrangente no processo de desenvolvimento, para o qual o nível cultural, medido pelo grau de alfabetização serve como indicador. 3 – O desenvolvimento para os homens –
Demanda possibilidades de renda e de trabalho para todos, a fim de poderem conseguir um modesto padrão de vida. Como indicador para tanto, recorre-se ao produto interno bruto (PIB) por cabeça, padronizando segundo o poder de compra”. O crescimento econômico se vincula a certas necessidade coletivas (bem-estar social), as quais não dependem apenas das utilidades de determinados grupos da sociedade”. (Norberto Bobbio – Dicionário de Política – Brasília – Editora Universidade de Brasília – São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002).
É preciso que a sociedade desperte para o valor da significação da liberdade humana de vivenciar a qualidade de vida digna. Dependemos de ordenamentos sociais atrelados a ordenamentos econômicos. Os serviços de educação, de saúde, de direitos políticos e civis, como os incentivos nas participações comunitárias devem surgir nos debates políticos e nas decisões públicas. O verdadeiro desenvolvimento e crescimento qualitativo aumentam as escolhas e as oportunidades das pessoas para exercerem a sua capacitação e sua condição de agentes participativos no rumo de seu país.
De nada adiantou até agora só estimular a crescimento quantitativo. O crescimento e desenvolvimento qualitativo resultarão em modificações radicais de comportamento pelos responsáveis coletivos, em suas decisões na inclusão social. Necessitamos da atividade econômica compartilhada com o ambiental, com o educacional, com o crescimento qualitativo. A paz supõe uma dimensão ética, ou seja, a qualidade de vida digna. Em nosso país verificam-se profundas desigualdades no acesso à educação e à saúde, mostrando absoluta indiferença pela pobreza. É preciso considerar que o crescimento humano qualitativo é o verdadeiro fim e o crescimento econômico um meio para atingi-lo.
“Desde sua origem, as cidades foram lugares onde era possível conviver com o outro. Essa característica do espaço urbano é um de seus maiores atrativos, porque significa uma existência diversificada e favorece o compartilhamento de experiências díspares. A cidade do nosso tempo, contudo, tornou-se o espectro do medo e da insegurança. Nela, o “estrangeiro” passou a ser apartado por marcas urbanas da diferença: bairros próprios, grades, câmeras, guardas, muros e todos os mecanismos possíveis de segregação”.( Zygmunt Bauman – livro: Confiança e Medo na Cidade – Zahar – Rio de Janeiro – 2005.)