REGINA DINIZ
Na primeira cena de Sábado,
romance publicado em 2005, o neurocirurgião
Henry Perowne observa Londres
através da janela do quarto. Se antes Perowne acreditasse atravessar uma
sucessão de dias “desconcertantes e
assustadores, naquele momento, insone, examinando o entorno, a cidade
semiadormecida lhe parece “um sucesso, uma invenção genial, uma obra-prima
biológica – milhões de pessoas que formigam em torno das conquistas de séculos”.
A despeito do que está por vir, o personagem sente uma pontada de otimismo em
relação às conquistas humanas.
Esta pequena cena fornece um bom
panorama da segunda fase da obra de Ian McEwan. A primeira, marcada por
romances perturbadores na linha de O Jardim de Cimento valeu ao autor a
conhecida alcunha de “Ian Macabro. De alguns anos para cá – ainda mais frio e
analítico, mas menos afeito ao lúgubre e menos inclinado ao pessimismo – McEwan tem se
dedicado a recriar o mundo moderno em toda a sua complexidade.
Se é fácil ver aí um projeto
ambicioso, também é fácil constatar que o autor, mesmo ainda em atividade, foi
bem-sucedido em sua execução. Isso se deve, em parte, ao fato de que McEwan
desenvolve seus personagens e temas de forma meticulosa, quase obsessiva. A
reunião das qualidades que o definem – o domínio técnico, o rigor, a própria
vontade de compor um quadro mais completo da atualidade – não é compartilhada
por nenhum outro escritor vivo. Segundo a trilha
aberta pelo bom e velho romance inglês os livros do Ian McEwan embaralham os
opostos e as distâncias, medindo bem as nuances e as escalas. Em outras
palavras, sem enredos procuram conciliar o externo e o interno. O todo e o
detalhe. O maior e o menor.
O esforço de elaborar elementos
tão diversos invariavelmente resulta em dilemas éticos e morais difíceis de
resolver. McEwan já deixou clara a vontade de sondar questões políticas e
culturais – passadas e atuais – que ultrapassam as fronteiras de seu próprio
país. Em Solar, trata do aquecimento global; Em Serena tangencia a época da
Guerra Fria; no já mencionado Sábado, analisa o terrorismo. Já no estupendo
Reparação, um punhado de períodos e circunstâncias importantes são
escrutinados. Os conflitos entre os personagens, como na novela na praia, a
realidade dos anos de repressão sexual está subtendida – não como algo
incidental, mas como ruído de fundo assinado por autor experiente.
Os conflitos entre os
personagens, sempre presentes, não raro misturam interesses particulares e
coletivos. Amstersdam, livro que rendeu ao autor o prestigioso Prêmio Man
Booker, é um bom exemplo do artifício. Dois amigos de longa data, um jornalista
e um compositor, brigam por ciúme e vaidade, mas também para garantir alguma
glória e dignidade. O equilíbrio perfeito entre impulsos mesquinhos e outros
nem tanto não só cria personagens complexos como reflete um cenário caótico e
igualmente prenhe de potencialidades e nuances.
Como um bom regente – as
referências musicais, sobretudo à música erudita, são frequentes ao longo de
toda a obra do autor –McEwan sabe conciliar e modular o tom, o tempo, o ritmo.
Seus romances são cerebrais sem deixar de ser viscerais. Mesmo a balada de Adam Henry, visto por alguns
críticos como um retrato daquilo que seria uma oposição (descabida) entre o
pensamento lógico e religioso, é muito mais do que isso. Com notável sutileza,
McEwan mostra que não é possível assimilar e defender um sistema de crenças sem
fazer uso da razão.
Os dilemas propostos pelo autor
não cessam de desafiar os leitores, que não raro têm de assumir uma posição ou
outra diante da engenhosidade das tramas. Não restam dúvidas de que o
olhar afiado de McEwan como Henry Perrowne à janela, capaz de enxergar luz e sombra
continua a ver o que poucos veem. Segui-lo é um movimento essencial para
começar a entender o nosso tempo.(Autora: Camila Von Holdefer – Crítica
literária – Fronteiras do Pensamento- 2016).
Ian MCE Wan (1948), escritor
britânico é um dos mais importantes ficcionistas de sua geração. Em (1998),
ganhou o prêmio Man Booker pelo romance Amsterdam. Seu livro mais conhecido,
Reparação, alcançou grande sucesso mundial e foi escolhido como o melhor
romance de 2002 pela revista TIME, indicado ao prêmio Booker de Ficção e vencedor do British Book
como livro e autor do ano. A balada de Adam Henry, livro mais recente publicado
pela Companhia das letras.
Desejo e Reparação é convite para
ler mais IanEwan. Ele é um dos maiores
nomes da Literatura britânica e sua obra vem sendo lançada no Brasil há mais de
uma década. Ainda assim, um novo público de leitores veio conhecer Ian McEwEwan
graças à bem-sucedida adaptação
cinematográfica “Desejo e Reparação”. Autor de dez romances vários já
transpostos para o cinema (nenhum com
tamanho sucesso), McEwan estreou com duas coletâneas de contos, em 1976 e 1978. A edição
brasileira uniu ambas em “Primeiro Amor,
Último Sacramento e Entre Lençóis”. Nessas histórias predominam personagens
adolescentes e os ingredientes que renderiam ele o apelido de Ian Macabro:
sexo, violência e morte, sem meias palavras.
Embora o tom sinistro tenha
esmaecido com o passar dos anos, os temas dos contos, perda da inocência ,
sexualidade e perversão, crime e culpa – podem ser entendidos a quase toda a
obra do autor, que certamente vale a pena conhecer. O primeiro romance, “O
Jardim de Cimento (1978), é a história de quatro irmãos, três deles
adolescentes, que perdem pai e mãe num curto intervalo. Para evitar a adoção
enterram com cimento o cadáver da mãe no porão de casa e passam a viver sem qualquer
influência adulta. O livro foi adaptado para o cinema em 1993, estrelando
Charlotte Gaensbourg, e um trecho do roteiro virou introdução da música “What
it Feels Like for a girl” de Madonna. Em
“ao Deus Dará” (1981), considerado um
dos livros mais tenebrosos do autor, um entendiado casal britânico em férias
acaba envolvido em práticas extremas de sadomasoquismo. Novamente o livro deu
origem a um filme, “Uma estranha passagem em Veneza”, com roteiro do prêmio
Nobel de Literatura Harold Pinter e direção de Paul Schrader. O romance
seguinte só viria seis anos mais tarde com A Criança no tempo”, no qual um pai,
escritor de livros infantis, ”perde” sua filha de cinco anos num supermercado
de Londres.
Em 1989, sai o “inocente”, ficção
histórica ambientada na Alemanha dos
anos 1950 em que um jovem britânico tem sua iniciação sexual e política em meio a circunstâncias bizarras. Foi levado
às telas por John Schlesinger. “Cães Negros” (1992) tem como pano de fundo a
queda do muro de Berlim e coloca em primeiro plano o embate entre misticismo e racionalismo, outro
dos temas marcantes do autor.
