terça-feira, 1 de maio de 2018

A SOBREVIVENCIA COM BOA QUALIDADE DE VIDA



 A  dieta mediterrania não difere daquela das cidades costeiras italianas, mesclando vegetais com boa dose de carboidratos e de proteína animal, além do vinho tinto. Por outro lado, confirmou que muitos trabalharam até os 90 anos, ou mais na cidade e nas encostas da montanhosa região, o que lhes garantiu atividade física moderada e constante. O único fator comum na vida de todos os visitados é sua vida social, o contato e o cuidado diário que recebem de familiares, dos vizinhos e dos demais membros da comunidade. Há um forte senso de pertencimento aquela vida, aquela comunidade, todos parecem sentir-se incluídos.

Essa marca cultural é tradição e os que hoje cuidam dos mais velhos, sejam filhos, sobrinhos ou netos o fazem       verdadeiramente motivados. Interagir, conversar e viver em família, apesar de serem hábitos simples, podem ter efeitos poderosos sobre o organismo, especialmente sobre o cérebro. Estudos da neurociência demonstram que ao interagir face, áreas específicas do cérebro envolvidas com a atenção, a inteligência social e a recompensa emocional são ativadas. Ainda, o contato face a face causa a liberação de hormônios como a oxitocina, associada a confiança, e a betaendorfina, uma da mediadoras da sensação de bem-estar bem como diminui os níveis  de cortisol, o hormônio de estresse. É possível inferir que, além de alimentação, água e soro, o genuíno contato humano é necessário para sobreviver com boa qualidade de vida. Ao voltar o olhar para o cotidiano e observar como as pessoas a nossa volta se relacionam, nos damos conta de que há muito que aprender com os centenários italianos. Paradoxalmente, ou nem tanto, nesta área digital dominada pelas mídias sociais, é comum observar grupos de adolescente ou casais muito jovens em restaurantes conversando com os olhos fixos nas telas dos telefones celulares. Pesquisas de opinião revelam que as pessoas passam até 10 horas diárias nas redes sociais e navegando na internet. Assim não surpreende o fato de que, na Inglaterra um terço das pessoas com mais de 65 anos declara não ter outra pessoa a recorrer em caso de necessidade, e que percentual semelhante de jovens com menos de 25 anos se sinta desconectado das pessoas ao seu redor. É o silencio ensurdecedor da solidão.

A doutora Susan Pinker defende que o contato pessoas e a consciência de não estarmos sós são um imperativo biológico e que todos podem construir ´´sua própria vida’’. Construir relações pessoais em todos os ambientes e cultivá-los pelo contato frequente e afetivo, usando as tecnologias para aproximar-se e aumentar as interações face a face. Talvez seja esse o segredo para viver mais e melhor.

Em Porto alegre para uma palestra no Fronteiras do Pensamento no começo de dezembro, a psicóloga conversou com Zero Hora no carro a caminho do aeroporto, onde embarcaria para São Paulo. Confira as seguintes redes sociais são boas ou ruins...

-Os dois. Uso as redes sociais da mesma forma como leio o jornal;  para descobrir quem nasceu, quem morreu e o que aconteceu de novo com o mundo. Mas não para o contato pessoal.

Aliás, é incorreto chamá-las de redes ‘’sociais’’. Elas não conectam você de fato. Pesquisas mostram que em vez de fazerem os usuários se sentirem bem, as redes fazem as pessoas se sentirem mal em relação a si mesmas, Ao acessar esses sites, vemos o que acontece na vida de todos e, assim, sentimo-nos sozinhos e inadequados. Uma pesquisa recente  da Sociedade Real para Saúde Pública do reino unido mostrou que o Instagram é a rede social que mais faz mal.

O paradoxo é; em vez de nos conectar, as redes sociais fazem com quem sintamos que há algo de errado conosco. Esse estudo mostrou, assim como outras pesquisas, baseados em imagens são os piores, particularmente no caso de adolescentes, que que estão desenvolvendo as suas identidades. Eles precisam descobrir quem são e aprender a como se integrar a uma tribo. E as redes sociais os fazem se sentir alienados e inadequados.

A chave do contato social é que nós humanos precisamos sentir que pertencemos a algum lugar. Mas pesquisas mostram que as pessoas que usam redes sociais não sentem que pertencem a algo em uma rede social na qual você acumula  700 amigos. É mais uma coleção. Algumas pessoas coletem rochas, outras conchas e outros contatos. Uma coisa que me surpreende foi descobrir que, em média, homens tendem a ter redes de contato mais abrangentes, enquanto as mulheres tem re- des menores e mais íntimas.

Susan Pinker diz que não pode predizer o futuro, mas posso dizer que, agora, as pesquisas mostram que jovens adultos se sentem muitos sozinhos.  Se posso prever algo, acho que haverá uma reação dos millenials. Vejo uma tendência, entre eles, de busca de autenticidade por experiências reais.

Eles querem cervejas artesanais, feitas de forma original, picles a moda antiga, blusões customizados, singularidade e autenticidade. Eles pagam bastante para não serem artificiais. Isso vai ocorrer também com o contato social no futuro. Os jovens vão se dar conta de que estão
perdendo algo. Não acho que ninguém vá se livrar dos smartphones e de enviar mensagem por texto.

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