quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A EXPRESSÃO DO POTENCIAL AFETIVO

REGINA DINIZ

“É o gesto ético de  assumir a responsabilidade. Nossa inerradicável responsabilidade pelo destino e pelo bem-estar do Outro; e que, quanto mais fraco e menos capaz de exigir, litigar e processar for o Outro, maior é nossa responsabilidade. Somos todos guardiões de nossos irmãos; mas o que isto significa está longe de ser claro e dificilmente pode ser tornado transparente. A clareza e a falta de ambigüidade podem ser o ideal de um mundo em que a “execução processual” é a regra. Para o mundo ético , no entanto, a ambivalência e a incerteza são seu alimento diário e não podem ser apagadas sem destruir a substância moral da responsabilidade, o fundamento sobre o qual aquele mundo descansa.” (Zygmunt Bauman – Livro: A Sociedade Individualizada – Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 2008).

Ser o guardião de seu irmão é uma sentença perpétua de trabalho árduo e de impulso afetivo moral, e que nenhuma tentativa será capaz de anular. A responsabilidade pelo outro é o fundamento de toda moralidade, e se impõem por conta própria em nosso imaginário ético. A construção da paz baseia-se no amor universal, no altruísmo, no sentimento de pertencer e celebrar a comunidade dos seres humanos e da vida. Funda-se no vigor e na ternura generosa do cuidador.

E como poderíamos propor possíveis soluções na ausência marcante da responsabilidade humanística em nossos tempos? Precisamos renovar a prática de nossos conhecimentos sobre comunicação positiva e relação construtiva. O esforço, a prática da ética em minimizar conflitos conosco e com os outros é fundamentada em princípios (valores universais) com respeito às diferenças. Honestidade e altruísmo são princípios universais a serem praticados no plano interpessoal. Fortalecimento da estabilidade democrática, existência digna, igual liberdade e igualdade de oportunidades são princípios universais no plano social a serem promovidos.Com fundamentos nesses princípios poderemos construir a cultura da paz.

Somos seres de relação, convivendo irmanados em grupo. A arte de se relacionar com outras pessoas é desafiante, é a mesma coisa que nos atirarmos nas ondas do mar revolto. Achamos, que sempre estamos correndo riscos, mas são oportunidades de qualidade humanística. Expressar nossos pensamentos, nossas idéias, nossos sentimentos e nossas emoções nos gratificam, pois damos vazão ao nosso potencial afetivo.

A litigiosidade crescente no Brasil, em grande parte fruto de seculares desigualdades e em parte conseqüência das conquistas democráticas, não é matéria a ser resolvida exclusivamente através do poder do estado. Estudos indicam que o avanço democrático, em sociedade fortemente consumista como a nossa, escancara os efeitos de incompatibilidade entre as aspirações
populares e os meios de acesso aos bens da vida, agravados pelas nossas históricas desigualdades sócio-econômicas. A omissão social por séculos nos deixou numa situação insustentável de violência extrema.

Precisamos assegurar os direitos e as condições necessárias a uma sociedade fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica da exclusão. Os conhecimentos socialmente compartilhados através das modernas tecnologias da informação, acentuam a contradição entre o sentimento de eqüidade e a real possibilidade de acesso justo aos bens e direitos. A busca desesperada por tal acesso se expressa num movimento de emancipação, que acomete especialmente os jovens das comunidades de baixa renda.

A sociedade brasileira vem passando por um longo processo evolutivo, que inclui transformações tecnológicas, culturais, econômicas, sociais, entre outras. Entretanto já são séculos e séculos de ausência total de investimentos em educação para preparar os jovens em geral, como também, principalmente para preparar os jovens de baixa renda, a fim de que aprendam a lidar com novos paradigmas da era dos conhecimentos, para afastá-los da prática de uma cultura da violência.

A sociedade brasileira de hoje vivencia cada vez mais o surgimento de novos conflitos, frutos de transformações de ordem política, social, econômica e cultural, além de um enorme crescimento populacional urbano, gerando um aumento no desemprego e, conseqüentemente, no nível de violência. Essas mudanças causam aumento na quantidade de conflitos interpessoais especialmente nas camadas sociais menos favorecidas. Elas são totalmente privadas dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal Brasileira tais como os direitos à saúde, à educação, à alimentação, à moradia, e ao acesso à justiça.

Há na realidade uma exclusão social na qual alguns vivem totalmente marginalizados. A inabilidade no trato desta questão acarreta confrontos e violência. Na minha compreensão o problema não é raça, não é cor e sim a falta total de investimento do governo federal em educação, que permita a conquista de um emprego, e a formação profissional para adquirir experiências em cursos de apoio.

O “problema dos pobres” é remodelado como a questão da lei e da ordem, e os fundos sociais outrora destinados à recuperação de pessoas temporariamente desempregadas (em termos econômicos a reacomodação da mão-de-obra) são despejados na construção e modernização tecnológica das prisões ou outros equipamentos punitivos e de vigilância. A mudança é mais acentuada nos Estados Unidos, onde a população carcerária triplicou entre l980 e l993, alcançando em junho de 1994 o total de 1.012.851 (o crescimento médio foi de mais de 65.000 por ano) onde a parcela mais pobre da “classe baixa” constitui aproximadamente a metade dos sentenciados a um ano e mais de prisão, e onde o aumento sistemático de gastos com a polícia e as prisões segue de mãos dadas com os cortes sistemáticos de fundos e auxílios assistenciais”.( Zygmunt Bauman- Livro O Mal-Estar da Pós-Modernidade – Editora Zahar – Rio de Janeiro – l998).

É preocupante o tema carcerário, porque ninguém acredita, que mais prisões solucionarão este grave problema social. Na conjuntura atual estes presídios se constituem no principal foco de reprodução e organização do crime, cuja conseqüência é conhecida em outras grandes metrópoles do nosso país. Inexistem projetos para sanar esta situação, a fim de que este ser humano não volte a ser preso novamente. A punição sem propostas de recuperação comprova ódio, sadismo sem precedentes, e que não soluciona nada, ao contrário afundamos cada vez mais.

A sábia decisão é admitir, é aceitar a inclusão social, como a solução desta triste conjuntura que nos abala profundamente. Vejo a educação, a saúde, a profissionalização e a segurança como pontos de partida para a construção do bem comum. Educar, profissionalizar o excluído deve ser o primeiro dever estatal e federal. O resto será conseqüência. Posso estar equivocada, mas sempre seguirei apostando na educação.”O pior pecado que cometemos com nossos semelhantes não é odiá-los, mas sermos indiferentes a eles; essa é a essência da desumanidade”. ( George Bernard Shaw).

Nenhum comentário:

Postar um comentário