quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A REAFIRMAÇÃO DA UNIÃO HUMANA


REGINA DINIZ

“Ações, pensamentos e sentimentos que são propícios ao funcionamento e expansão adequados de nossa personalidade total, provocam uma sensação de aprovação íntima, de retidão, característica da “consciência tranqüila” humanista. Por outro lado, atos, pensamentos e sentimentos nocivos a nossa personalidade total provocam uma sensação de desassossego e mal-estar, característica de uma consciência culpada. A consciência é, pois uma reação de nós face a nós mesmos. É a voz do verdadeiro eu que nos convoca para nós mesmos, para viver produtivamente, para desenvolvermo-nos ampla e harmoniosamente – isto é, para tornarmo-nos aquilo que somos potencialmente. Ela é a guardiã de nossa integridade; é a “capacidade de garantir nosso eu com todo o justificado orgulho, e também ao mesmo tempo de dizer sim a si mesmo”. (F. Nietzache – livro: The Genealogy of Morals, 11,3 – l927).

A consciência pode ser denominada a voz de nossa cuidadosa atenção por nós mesmos. A consciência representa não só a expressão do verdadeiro eu; contém a essência de nossas experiências éticas na vida. Nela protegemos as nossas descobertas e mantêm o potencial cognitivo nos objetivos e princípios, que nós mesmos levantamos o véu e iluminamos a nossa alma, e que constatamos como verídicas. Dizemos aos outros, o que devem pensar de nós através de nossas ações e reações, silêncios e decisões...

A consciência é a maneira de exteriorizar pensamentos e sentimentos do interesse próprio. A natureza da consciência é exuberante porque a sua função é ser guardiã do verdadeiro interesse humano. Quanto mais investimos na energia construtiva de ser, tanto mais vigorosa é a nossa consciência.

“Em nosso mundo pós-industrial as pessoas vivem cada vez mais fora da natureza, e cada vez menos com máquinas e coisas; só vivem e encontram umas com as outras... Para a maior parte da história humana, a realidade era a natureza... Nos últimos 150 anos, a realidade tornou-se a técnica, os instrumentos e as coisas feitas pelo homem, que todavia recebem existência independente fora do homem num mundo coisificado... agora a realidade está se tornando apenas o mundo social.” (Daniel Bell – livro Culture and religion  in a postindustrial age, en Ethics in an age of pervasive technology, org.- l980).

Os seres humanos admiraram sempre, por milênios, a natureza de nosso planeta.  A identificação com a beleza natural, como admirar um riacho, uma floresta, uma montanha, um lago, uma praia nos leva a uma interação harmoniosa com todos os elementos das forças vitais, que nos dá a sensação de união com todos os seres vivos. Aprendemos a entrar em contato com a mais profunda essência de nosso ser, o que nos desperta a magia do encantamento com a vida. Mas os lugares paradisíacos recomeçam a ser valorizados, porque queremos acessar ao nosso  verdadeiro eu, a nossa verdadeira natureza de ser.

A contemporaneidade que me perdoe, mas foi acometida de cegueira jamais vista na história da humanidade. Substituíram Deus e sacralizaram, as coisas materiais. Na ausência do conhecimento da fonte infinita de energia e criatividade, as dificuldades da vida afloram. Aproximar-se de Deus através do verdadeiro conhecimento cura o medo da morte, confirma a existência da alma e dá um sentido definitivo à vida. Deus não deixa pegadas no mundo material, mas deixa caminhos abertos para a nossa compreensão. Admirando o universo, apesar de sua imensidão e solidez sentimos a sua presença reconfortante, mais energizante em altos vôos de crescimento espiritual, do que se identificar com objetivos e objetos totalmente sem vida...

“Walter Benjamin se referia à extinção da experiência na modernidade, aludia às implicações do modo de vida instaurado pelo capitalismo urbanos e industriais, que dinamitou as condições necessárias para uma experiência coletiva e partilhada. Dilacerou-se aquela tradição fortemente sedimentada no grupo e, do mesmo modo, se desmoronaram as possibilidades de vivenciar experiências pautadas pela transcendência. Este distanciamento das tradições comunitárias e do além, que alimentou as fabulosas possibilidades abertas pelo individualismo moderno e contemporâneo, mas também fechou outras portas. Nesse saldo negativo seria necessário anotar a solidão”. (Walter Benjamin – livro: A Obra de Arte na Época de sua reprodutividade técnica – primeira verso- Ed.Brasiliense – São Paulo – l986).

Diversos fatores no moderno sistema industrial em geral propiciam o desenvolvimento de uma personalidade, que se sente solitária e impotente, ansiosa e insegura. Estamos constantemente expostos às
opiniões e idéias, que nos martelam vindas de todos os lados: cinema, jornais, rádio, televisão, argumentos frívolos. Nos padrões atuais, os ídolos estão quase sempre longe de casa. Detêm fama, poder ou beleza: normalmente artistas famosos, jogadores e cantores. Ninguém conta mais uma história humana simples, bem diferente do que essas exaustivas repetições midiáticas cansativas.

Indubitavelmente, o ser humano ainda está muito só, e quase sempre deprimido. Sabemos que o isolamento psicológico, para além de certo ponto resulta sempre em ansiedade, pois ele se torna resignado, e perde a vitalidade motivacional, ficando furioso e agressivo.
Entretanto começa a se delinear a personalidade do futuro: estrutura viva, alegre, interessada, ativa, pacífica. Já está diminuindo consideravelmente as estruturas inertes, monótonas, desinteressantes, passivas e agressivas.

Seria providencial, lapidarmos quadros comuns de vivências, de memórias, de tradições com outros seres humanos para minimizarmos a solidão. Nossa vida é influenciada pelos imaginários postos em circulação pelos meios de comunicação nos formatando em autômatos verdadeiros. Não suportamos mais a padronização, desejamos nos descobrir como pessoas, em busca do desenvolvimento do próprio eu.  Como abrir essa caixa de ferro maciço, para que nos libertemos da solidão?

“Cada vez, que um homem abre o coração para um estranho, reafirma o amor que une a humanidade”.( Germaine Greer). A confiabilidade e a intimidade são dádivas que nos unem uns aos outros. Somos cuidadores de nossos familiares, dos nossos amigos, dos nossos colegas, e quando repartimos sentimentos, pensamentos, e valores éticos passamos a entender nossas afinidades e diferenças. Percebemos que os seus temores e mágoas são idênticos aos nossos, e nos revitalizamos com estas descobertas emocionais, ganhando força motivacional.

Tornarmo-nos amigos de alguém é algo extremamente compensador, porque aumenta a qualidade de nossa capacidade de animar, de ajudar as pessoas que fazem parte de nossa vida. O nosso crescimento emocional depende de nossas tentativas de procurar, conservar, e retribuir laços humanos de interação pessoal. A amizade com outra pessoa só é possível quando mostramos a ela aquele que habita dentro de nós, só assim rompemos a caixa de ferro, só assim rompemos o casulo da solidão. Abrindo os braços para os meus semelhantes, jamais sentirei a solidão orquestrada pelo sadismo social dos meus tempos.

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