quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A INDIVIDUALIDADE E O SIGNIFICADO DA LIBERDADE


 REGINA DINIZ

 Seria um erro grave, contudo, supor que o impulso que leva à exibição pública do “eu interior” e a disposição de satisfazer esse impulso sejam manifestações de um vício/ anseio popular , puramente geracional e relacionado aos adolescentes, por natureza ávidos como tendem a ser, para colocar um pé na “rede” (termo que está rapidamente substituindo “sociedade”, tanto no discurso das ciências sociais quanto na linguagem popular) e lá permanecer, embora sem muita certeza quanto à melhor maneira de atingir tal objetivo.  Desde que não se esqueça que o que antes era invisível – a parcela de intimidade, a vida interior de cada pessoa – agora deve ser exposta no palco público (principalmente nas telas de TV, mas também na ribalta literária), vai-se compreender que aqueles que zelam por sua invisibilidade tendem a ser rejeitados, colocados de lado ou considerados suspeitos de um crime. A nudez física, social e psíquica está na ordem do dia. (Eugène Enriquez – “L’ideal type de l’individu hyppermoderne: l’individu pervers?” in Nicole Aubert (org.), L’individu hipper moderne, Erès, 2004, p.49. pág.9 ).

A necessidade de satisfazer o desejo audiovisual é própria do ser humano de todas as épocas. Entretanto com a explosão das tecnologias digitais, surgiram aumentos multiplicados de uma nova visibilidade, reforçando aquela necessidade. É o moderno “Voyeur” seduzido pela contemplação da vida erótica alheia, e que é a personalidade que a sociedade contemporânea reforçou: espectador passivo, como também uma personalidade indiferente e apática aos eventos sociais (como a Sociedade de Consumo gosta). Indivíduos que se realizam no universo alheio, e substituem a ação pela visão que se tornou em um fim. Quanto isolamento!...

Sentado confortavelmente frente à tela de televisão, ou do computador, o sujeito contemporâneo satisfaz o seu desejo, o seu sonho visual. Se o anseio, se a aspiração de olhar, está subentendida na natureza do homem a avalanche de imagens, que planejou a era digital foi consumada ao infinito. Hoje por todas as mídias o espectador é cada vez mais seduzido em destruir a discrição. Desde sempre o homem sentiu a necessidade de satisfazer seu desejo audiovisual. A modernidade destruiu advertências como a de Santo Agostinho sobre os êxtases da visão, “a concupiscência dos olhos” pretendendo instalar um plano melhor, centrado na imagem religiosa, e no mundo com o texto divino. Não restam dúvidas de que o objetivo mais construtivo é a interação afetiva com outros indivíduos, com outros grupos, só assim conseguiremos afugentar a solidão.

“O ser humano é movido pelo impulso de transcender o papel da criatura, o caráter acidental e a passividade na sua existência, procurando tornar-se um “criador”. O homem pode criar vida. É uma qualidade miraculosa que ele, em verdade, compartilha com todos os seres vivos, mas com a diferença de somente ele tem a consciência de ser criado e de ser criador. O indivíduo pode criar pela semeadura, pela produção de objetos materiais, pela criação artística, pela criação de idéias, e pelo amor recíproco. No ato da criação o homem transcende a si mesmo como criatura, eleva-se acima da passividade e do caráter acidental de sua existência até à esfera de iniciativa e liberdade. Na necessidade de transcendência, que tem o homem, estão as raízes do amor,  bem como da  arte, religião e produção material. ( Erich Fromm Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1979.)

A melhor escolha que podemos fazer é participar ativamente da formação de nosso presente que deverá primar por qualidade de ser. A característica mais distintiva, mais presente no ser humano, é influenciar com suas idéias criativas a evolução por meio do reconhecimento consciente, insistindo em modelar  uma sociedade mais justa e humana. É possível lançar mão de toda a coragem necessária para preservar nossos sentimentos, nossa consciência, e nossas responsabilidades diante de renovações, ou seja, realizar algo novo, penetrar na floresta cultural onde ainda não há trilhas feitas pelos homens.  

Kierkegaard e Nietzche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero. A coragem é vital para expressarmos nossas idéias originais, e para ouvir o nosso eu interior, só assim estaremos contribuindo para nós mesmos, para a comunidade e para o mundo. A coragem origina-se no interior de nosso eu, pois em sentido contrário nos sentimos vazios. Só preenchemos este vácuo assumindo o compromisso de nos engajarmos no que é autêntico, quando originado no interior de nosso eu.

“Brian, o herói cujo nome compõe o título do filme da série Monty Python, furioso por ter sido proclamado o Messias e ser acompanhado aonde quer que fosse por uma horda de adoradores, em vão fez o possível para convencer seus seguidores a pararem de se comportar como um rebanho de ovelhas a se dispersarem. “Todos vocês são indivíduos!”, gritou. “Nós somos indivíduos!”,
gritou. ”Nós somos indivíduos!”, respondeu devidamente em uníssono o coro dos devotos. Só uma longínqua voz solitária objetou: “Eu não sou...” Brian tentou outro argumento. “Vocês têm que serem diferentes!”, gritou. “Sim, todos nós somos diferentes”, concordou o coro, extasiado. Mais uma vez, só uma voz contestou: ”Eu não sou...” Ouvindo isso a multidão olhou em volta com irritação, ávida por linchar o dissidente assim que o encontrasse em meio à massa de pessoas parecidas. (Zygmunt Bauman – Vida Líquida – Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de Janeiro – 2007).

A liberdade tem sido considerada, ao longo das histórias humanas, tão admiravelmente preciosas, que centenas de milhares de seres humanos morreram de bom grado por ela. A liberdade tem em seu interior um significado profundo, que se mostra como a essência do ser humano, por isso ela é prestigiada com tanta devoção. As grandes guerras, os conflitos bélicos que até hoje acontecem no mundo inteiro, e que nos colocam em situação civilizatória inferior, mas sempre as pessoas estiveram prontas a morrer pela liberdade.

Desde o início da história até o nosso século, o princípio da liberdade é considerado o bem mais precioso do que a própria vida. Jean Jaques Rousseau
sentiu-se profundamente sensibilizado,  pelo fato de que  as pessoas podem “suportar fome, fogo, a espada, e a morte para preservarem a sua independência. Atualmente no convívio face a face, a individualidade é afirmada e renegociada diariamente na atividade contínua da interação. Cada membro da Sociedade Individualizada encontra obstáculos no seu caminho para a individualidade de fato, pois significa uma luta para toda a vida. Os movimentos do – mercado de consumo – desafiam a lógica, mas não a lógica da luta pela individualidade. A propaganda maciça  como “Seja você mesmo”
- prefira Pepsi - dá para pensar e avaliar profundamente a cultura padronizada... A luta pela singularidade agora se tornou o principal motor da produção e do consumo de massa...    

“Cogitamos muitas vezes por que haverá tanta ansiedade, e tantos protestos de que se perderá a liberdade caso não conservemos os velhos hábitos do laissez-faire. Uma das razões não será o fato de que o homem moderno renunciou completamente à liberdade psicológica e espiritual interior em benefício do trabalho rotineiro e dos padrões massificados das convenções sociais, a ponto de sentir que o último vestígio de liberdade, que lhe resta é a oportunidade de progresso econômico? Terá transformado a liberdade de competir economicamente com seus semelhantes num último remanescente de individualidade que, portanto, deve representar todo o significado da liberdade? ( Rollo May – O Homem à Procura de Si Mesmo – Editora Vozes Ltda – Petrópolis – Rio de Janeiro – 2005).

A liberdade deve ser apreciada como a bandeira principal do ser humano. A liberdade política está entrelaçada à liberdade interior dos indivíduos, que constituem os países, certamente não há liberdade em uma nação de conformistas, não há liberdade em uma nação livre transformada em robôs. O nível cultural de um país é visualizado pela liberdade pessoal de pensar, sentir e falar com autenticidade, e esta consciência os destacam como seres humanos. O destino pessoal superior, esta liberdade inata fundamenta a escolha de valores éticos como o amor, a coragem e a honestidade...

Da luta para construir a própria liberdade, para construir o próprio destino nasceram a criatividade e as nossas civilizações. A liberdade é conquistada minuto a minuto enriquecendo a subjetividade. Para que fique cada vez mais presente em nossos atos é obrigatório que a renovemos em todos os dias de nossas vidas. O primeiro grande passo é optar por si mesmo, e nos exigir auto-responsabilidade para não nos deixarmos manipular por ninguém. Nada é mais importante do que as nossas próprias opções fundamentais. A adesão
à competição imposta pela sociedade de consumo parece revelar o quanto perdemos da verdadeira compreensão da liberdade.       

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