sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O PRODUTO FINAL DO CRESCIMENTO ÉTICO


REGINA  DINIZ

No verão de 2004, o furacão Charley pôs-se a rugir no golfo do México e varreu a Flórida até o oceano atlântico. A tempestade, que levou 22 vidas e causou prejuízos de 11 bilhões de dólares, deixou também em seu rastro uma discussão sobre preços extorsivos. Em um posto de gasolina, em Orlando, sacos de gelo de dois dólares passaram a ser vendidos por dez dólares. Sem energia para refrigeradores  ou ar-condicionado em pleno mês de agosto, verão no hemisfério norte, muitas pessoas não tinham alternativa  senão pagar mais pelo gelo. Árvores derrubadas aumentaram a procura por serrotes e consertos de telhados. Prestadoras de serviços cobraram 23 mil dólares para tirar duas árvores de um telhado. Lojas que vendiam normalmente pequenos geradores domésticos por 250 dólares pediam agora 2 mil dólares. (Autor:Michael Mclarty  - “After Storm Come the Vultures” – USA Today, 20 de agosto de 2004, p – 6 B)”.

Em tempos de dificuldades sociais, uma sociedade deve se manter unida. Precisamos debater cotidianamente a ética da virtude, como também incentivar as atitudes e disposições, privilegiando as qualidades de caráter das quais humanizam uma boa sociedade. Tentar enriquecer à custa das dificuldades  dos outros sempre foi inaceitável, mas mesmo assim permaneceu este comportamento destrutivo, o qual deve ser banido. A pessoa se torna gananciosa pelo medo de, no futuro, o dinheiro vir a faltar, se preocupa muito com o status. Por trás do ímpeto pelo poder está o medo. São pessoas inseguras.

“O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem caráter, nem dos sem moral. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.(Martin Luther King). Não há problema algum em acumular bens materiais, a não ser quando este desejo passa a ser voraz e inconseqüente, alimentado por uma ganância desmedida. É este um dos problemas de uma sociedade que se pauta pela ganância sem limites: os valores éticos e morais são deturpados. A nossa sociedade capitalista estimula, valoriza e vende cada vez mais a idéia de que ser é ter poder, dinheiro, coisas materiais. O grande problema é quanto isso se torna mais importante que o ser.

Muitas de nossas decisões diante de situações cotidianas e importantes dependem daquilo que consideramos bom, justo ou moralmente correto. E tais julgamentos morais da realidade é que fazem do homem em comparação aos demais seres vivos presentes na natureza, tornando-o completamente distinto porque somente o ser humano tem a compreensão do sentimento do bem e do mal, do justo e injusto e de tantas outras qualidades morais. A Ética é disciplina filosófica que busca refletir sobre os sistemas morais elaborados pelos homens, tentando compreender a fundamentação das normas e das interdições peculiares de cada sistema social e cultural.

“A faculdade de percepção, julgamento, sentimento discriminativo, atividade mental e até mesmo a preferência moral só são exercitadas  quando se faz uma escolha. Aquele que só faz alguma coisa  porque é o costume  não faz escolha alguma. Ele não é capaz de discernir nem de desejar o que é melhor. As capacidades mentais e morais, assim como as musculares, só se aperfeiçoam se forem estimuladas. Quem abdica de tomar as próprias decisões não necessita de outra faculdade, apenas a capacidade de imitar, como os macacos. Aquele que decide por si emprega todas as suas faculdades”. (Autor : John  Stuart Mill – Livro: On Liberty (1859) Stefan Collim, ed.Cambridge University Press, 1989, capit: 1).

O homem é um ser moral, porque avalia  sua ação e sua realidade a partir de valores. Somente quando somos livres tornamo-nos responsáveis pelo que praticamos. É a responsabilidade que pode ser julgada pela consciência moral do próprio indivíduo e pelo seu grupo social. Podemos atuar no sentido de aumentar nossas possibilidades de escolha, e isso será eficiente na medida em que for maior a nossa consciência a respeito desses valores.

A moral é construção humana e social e também histórica. Os sistemas morais não são valores físicos e nem imutáveis, porque são relacionados com as transformações histórico-sociais. A Ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a Ética, embora não possa ser confundida com as leis, está relacionada com o sentimento de justiça social.

O objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos sempre adoram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos  versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a “ética da situação”. O que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer  lei geral.  E sobre a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.

“Para os autores, notadamente, Fromm. Horney, Jung, C.Buhler, Angyal, Rogers, G. Allport, Schdehtel e Lynd, o crescimento, autonomia, auto-atualização, individualização, autodesenvolvimento, produtividade, auto-realização  são todos sinônimos, de uma forma rudimentar, designando mais uma área vagamente percebida do que um conceito nitidamente definido. Na minha opinião, não é possível definir atualmente essa área em termos precisos. Atualmente, há necessidade positiva de teorias e conceitos que sirvam melhor aos nossos sistemas humanistas  de valor que estão surgindo do colapso dos antigos sistemas de valor.” (Autor: Abraham H. Maslow  - Livro: Introdução à Psicologia do Ser).  

O produto final do crescimento ético nos ensina muito sobre os processos de crescimento. É importante o estudo sobre os processos do crescimento. É importante o estudo direto dos indivíduos bons, em vez de maus, de pessoas sadias, em vez de doentes, do positivo em vez do negativo. As pessoas sadias emocionalmente desfrutam de uma observação superior da realidade. Desfrutam de uma abertura crescente do próprio eu, com a compreensão dos outros e da natureza. Aumenta a conscientização em determinado problema até decifrá-lo.

Junto com as pessoas distancia-se emocionalmente para compreendê-las e afetivamente deseja a intimidade. Valoriza a autonomia, busca a renovação de soluções e resiste a enculturação. Privilegia a originalidade de apreciação e riqueza de reação emocional. Identifica-se profundamente com a espécie humana e suas relações interpessoais são melhoradas, deseja sempre ajudá-las.

A individuação é um processo ativo e dinâmico durante a vida inteira, privilegia o Ser em vez de vir a Ser. Procuram desenvolver ao longo da vida os talentos, capacidades, tendências criadoras, potencialidades constitucionais.O crescimento pessoal consiste em despojar-se de inibições e limitações, permitindo ao indivíduo “ser ele próprio”, emitindo comportamento construtivo, permitindo que a sua natureza íntima se expresse...


Porque se fala tanto em moral hoje? Acredito que se fala muito de moral porque os problemas morais assumem dimensões assustadoras na sociedade contemporânea. Influentes pensadores, filósofos, historiadores, políticos e literatos de todas as épocas nos fornecem um vasto material que comprova a constante preocupação com a Ética e a Moral. O tempo atual vive grandes e rápidas transformações que afetam não só o exterior, mas também os fundamentos do ser e do pensar, as formas de julgar e decidir, as normas e valores. Em qualquer lugar da sociedade contemporânea, as decisões e ações podem ter efeitos ameaçadores não só para os indivíduos, mas para a sociedade como um todo. Acredita-se que só a Educação pode ajudar a reduzir a barbárie, e se coloca como responsabilidade maior para aqueles que pensam e fazem educação. 

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