quinta-feira, 22 de abril de 2010

O SENTIDO HUMANO DE IDENTIDADE

REGINA DINIZ

“Na medida em que não sou diferente, na medida em que sou como os demais, e em que estes me consideram uma pessoa “normal”, posso sentir-me a mim mesmo como “eu”. Eu sou “como tu me queres”. (Pirandello – no título de uma de suas peças teatrais – citação no livro – Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Erich Fromm – l979 – Zahar Editores). Surge uma nova identidade gregária na qual o sentimento de identidade descansa no sentimento de vinculação indubitável com a multidão. Em nada modifica as coisas o fato de essa uniformidade e essa conformidade não serem muitas vezes, reconhecidas como tais e permanecerem cobertas pela ilusão de individualidade.

A problemática maior do sentimento de identidade não é, como se supõe um mero problema filosófico, o que afeta com exclusividade a mente e o pensamento. A necessidade de experimentar um sentimento de identidade nasce da condição da existência humana e é fonte dos mais intensos impulsos. Como não posso ser mentalmente sadia sem o sentimento do “eu”, sinto-me compelida a fazer qualquer coisa para adquiri-lo.

Explode uma forte paixão pela conformidade, sendo por vezes mais forte até do que a necessidade de sobrevivência física. Haverá algo mais convincente do que o fato de os indivíduos se mostrarem dispostos a arriscar suas vidas, a renunciarem a liberdade, a sacrificarem suas idéias para sentirem-se parte do rebanho. Justifica-se tal fraqueza de ser? A contemporaneidade tornou-se um exército de robôs sem usar a inteligência criativa. O ser humano depende fundamentalmente do desenvolvimento de sua razão e de seus conhecimentos.

“Aqueles que chamamos de autônomos são capazes de transcender sua cultura em qualquer tempo e a qualquer respeito. A pessoa torna-se consciente de que lhe é dada, a possibilidade de mudar, de que existem muitos papéis acessíveis, papéis que outros indivíduos adotaram no decorrer da história ou em seu próprio meio”. (Filósofo G.H. Mead). Atualmente, em níveis culturais mais elevados, a combinação de tecnologia e lazer ajuda a familiarizar os indivíduos com outras soluções históricas, e abastece-os com uma variedade crescente de modelos sociais, estimulando a individualidade de ser.

Inúmeros pensadores estudam os fenômenos sociais da cultura de massa consumista, procurando a saída para a falta de emoção e vacuidade de expressão. Nota-se que o amortecimento de sentimento torna-se um sintoma clínico. O indivíduo alterdirigido (manipulado de fora para dentro) se esforça para alcançar um estilo pessoal de tolerância, drenado de emoções, humor e impertinência.

A pessoa autônoma, vivendo em um ambiente cultural, emprega o seu caráter e a sua posição para se afastar da média ajustada pelo mesmo ambiente. A pessoa autônoma, numa sociedade dependente da introdireção (motivação de dentro para fora) possui objetivos nítidos internalizados e é disciplinada para árduos combates com o mundo em mudança. É admirável a pessoa “escolher-se a si mesma” seja no trabalho, seja no lazer. Empobrecemos cognitivamente, quando procuramos nos tornar parecidos com os outros. Precisamos exercer a nossa proposta de renovação.

“A responsabilidade” é uma das experiências humanas que perdeu o seu significado original, sendo normalmente usada como sinônimo de dever. O dever é um conceito no âmbito da não-liberdade, ao passo que a responsabilidade é um conceito no âmbito da liberdade. Essa diferença entre dever e responsabilidade corresponde à distinção entre a consciência autoritária e a humanista. A consciência autoritária é essencialmente a disposição de seguir as ordens das autoridades a quem a pessoa se submete: é obediência glorificada. A consciência humanista é a disposição para ouvir a voz da própria humanidade e independe de ordens dadas por qualquer outra pessoa. (Erich Fromm – Psicanálise da Sociedade Contemporânea).

A consciência humanista é um dos maiores pedestais do crescimento da personalidade, pois envolve sentimentos, afetos e atitudes. A palavra responsabilidade atualmente esmaeceu o seu significado original, sendo usada como sinônimo de dever.
Embalar a decisão própria só em valores construtivos fortalece a identidade, e ajuda a enfrentar a manipulação da sociedade consumista, que transforma os homens em objetos, anulando a sua identidade.

A identidade no sentido humano é a experiência que permite “o eu” como centro idealizador das próprias atividades reais ou potenciais. Este “eu” “ativo” deixa as pessoas em prontidão cognitiva e despertas para cuidar de suas vidas. Entra em jogo a leitura atenta do contexto, a memória e a motivação para compreender. A crise do nosso tempo é baseada essencialmente na alienação do homem, que só é solucionada na medida em que ele se torna novamente ativo.

A saúde mental não pode ser definida em termos da “adaptação” do indivíduo à sua sociedade, mas que, pelo contrário, deve ser definida como adaptação da sociedade às necessidades do homem, e pelo seu papel em impulsionar o desenvolvimento da saúde mental e cultural. Uma sociedade sadia desenvolve a capacidade do homem para amar o próximo, para trabalhar criativamente, para desenvolver sua razão e sua objetividade, para ter um sentimento de si mesmo baseado em suas próprias capacidades. Uma sociedade doente é aquela que cria hostilidade mútua e desconfiança, que transforma o homem em instrumento de uso e exploração para outros, que o priva do sentimento de si mesmo, salvo na medida em que se submete a outros ou se converte em um autômato.

“É fácil ver que um só sentimento de identidade baseado na sensação de capacidade própria pode proporcionar vigor, enquanto todas as formas de identidade baseada no grupo tornam o homem dependente e, por conseguinte fraco. Apenas na medida em que o homem capta a realidade, pode ele tornar este mundo seu”. ( Erich Fromm - A Revolução da Esperança). A mais elevada sensação de identidade é baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das próprias capacidades pela captação da realidade interior e exterior. Para ajudar-se e auxiliar os outros é preciso saber com clareza qual a nossa posição na vida.

“Você é feliz. Portanto, você ´solicitado a dar muito. Tudo que você recebeu mais que os outros em saúde, em talento, em capacidade, numa infância feliz, em harmonia no lar, você não pode tomar tudo isso como se fosse seu por direito. Você precisa pagar. Em troca você deve sacrificar muita coisa na sua vida pela vida de outros”. (AlbertSchweitzer). É possível desenvolvermos todo nosso potencial quando nos comprometemos a avançar direto para os desafios. Nenhum deles está além de nossa capacidade.Cada um deles promete maior evolução e certa dose de serenidade. Nossa busca de segurança, pela valorização nos motiva a enfrentarmos mudanças, que nos ensinarão o que estivermos preparados para aprender.

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