sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O DIREITO HUMANO DE SER DIFERENTE



REGINA  DINIZ

Como princípio da “dignidade humana” entende-se a exigência enunciada por Kant como segunda  fórmula do imperativo categórico: - Age de forma que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa  de qualquer outro, sempre também como um fim e nunca como um meio. Este imperativo estabelece, na verdade, que todo homem, aliás, todo ser racional, como fim em si mesmo, possui um valor não relativo, mas intrínseco, isto é a dignidade. Substancialmente, a dignidade de um ser racional consiste no fato de que ele não obedece a nenhuma lei que não seja também instituída por ele mesmo? A filosofia Kantiana mostra que o homem como ser racional, existe como fim em si e não simplesmente como meio. Os seres racionais estão submetidos à lei segundo a qual cada um deles jamais se trate a si mesmo ou aos outros  simplesmente como meio, mas sempre e simultaneamente como fins em si. Isso, em suma, quer dizer que só o ser humano, o ser racional, é pessoa.


As nações capitalistas supervalorizaram o princípio de igualdade e os socialistas supervalorizaram a igualdade. A fraternidade foi enfocada com a idéia de caridade por filantropia. Os movimentos religiosos cristãos, através de seus trabalhos adotaram os despossuídos do mundo em nome da fraternidade. Diante dos grandes desafios colocados pela humanidade: as violações de Direitos Humanos, as barbáries das guerras étnicas, a indiferença social produzida pela globalização e pelo neoliberalismo, não precisaríamos debater o lugar da fraternidade numa perspectiva de reconciliação do tripé da Revolução Francesa (Igualdade, Liberdade e Fraternidade). Não seria o momento de pensar: solidariedade, responsabilidade social, gestão honesta dos recursos públicos, respeito à diversidade, a alteridade, a multiculturalidade,  e meio ambiente como aspectos da fraternidade universal?

Todos este valores citados nos tornam membros da comunidade de seres humanos. A discussão da fraternidade  como princípio político nos mostra um rumo eticamente possível de repensar valores civilizatórios, em um mundo pautado pelo consumo numa perspectiva: local, regional, nacional e internacional. O tema Direitos Humanos tem sido, na atualidade objeto de inúmeros debates e estudos embora há vários séculos, os homens já tivessem consciência de que a pessoa humana tem Direitos Fundamentais, cujo respeito é indispensável para a sobrevivência do indivíduo em condições dignas e compatíveis com sua natureza.

Nas palavras de G.H.Von Wright, a nação-estado parece que está se desgastando ou talvez “definhando”. As forças erosivas são transnacionais. Uma vez que as nações-estado continuam sendo as únicas estruturas para um balanço e as únicas fontes de iniciativa política efetiva, a “transnacionalidade” das forças erosivas coloca-as fora do reino da ação deliberada, proposital e potencialmente racional. Como tudo o que elide dessa ação, tais forças, suas formas e ações são ofuscadas na névoa do mistério; são objetos de adivinhação e não de análise confiável. As forças modeladoras do caráter transnacional são em boa parte anônimas e, portanto, difíceis de identificar. Não formam um sistema ou ordens unificadas. São uns aglomerados de sistemas manipulados por atores em grande parte “invisíveis”. O mercado não é uma interação de barganha de forças competidoras, quantas pressões de demandas manipuladas, artificialmente criadas, e desejo obsessivo de lucro fácil.(Georg Henrik Von Wright, “The crisis of social science and the withering  away of the nation state” Associations, 1 (1997), p.49-52).

A “globalização dos valores” resulta da penetração dos valores da economia de mercado nas relações sociais (produtivas, culturais e até familiares). A tensão que se verifica entre os princípios éticos comuns e a extensão das relações de mercado para o campo dos valores está implícita no conceito de sociedade de mercados. Na verdade a globalização ataca e promove, ao mesmo tempo, a diversidade cultural, pois segmentos inteiros da humanidade sentem ameaçados as suas próprias histórias e os valores que regem nas comunidades.

A globalização procura estreitar as relações entre tradições culturais e modos de vida distintivos e mistura uma pluralidade de interpretações sobre a ordem do mercado global. Mas a extensa história dos movimentos sociais vem adquirindo, nos últimos anos, uma nova dimensão: a luta pelo direito á identidade de povos e grupos sociais, que se sentem ameaçados pela tendência à homogeneização cultural, à padronização imposta pela globalização. Este “Direito a ser diferente” mantém uma forte relação com os Direitos Humanos, no sentido tradicional que reconhece a igualdade dos cidadãos, entre si e seu estado. Igualdade e Identidade se movem numa complexa e intrincada relação no mundo global.

A sensação de incômodo, uma reação que era de esperar numa situação sem alavancas de controle óbvias, foi captada de maneira clara e incisiva no título do livro de Kenneth Jowitt – A Nova Desordem Mundial. Ao longo de toda a era moderna nos acostumamos com a idéia de que a ordem é equivalente  a “estar no controle”. É dessa suposição – quer bem fundada ou meramente ilusória de “estar no controle” que mais sentimos falta. A “nova desordem mundial” nos dias de hoje não pode ser explicada meramente pela circunstância que constitui a razão mais óbvia e imediata da sensação de pasmo e perplexidade.

No acesso às novas tecnologias, como no âmbito comercial, a globalização dos mercados oferece aos países em desenvolvimento amplas oportunidades para uma melhor integração na economia mundial. Nesta perspectiva, o crescimento persistente do comércio internacional e o fortalecimento das regras multilaterais e das práticas de solução de controvérsias, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), são elementos propícios. Mas as aberturas incompletas das economias desenvolvidas, através das práticas protecionistas predominam no mundo. Conclui-se que a parte mais importante não é praticada, porque não está presente a verdadeira igualdade de oportunidades no âmbito internacional, por isso pode-se dizer que as normas globais não são justas e geram grandes disparidades.

Os países em desenvolvimento ainda não se deram conta do valor enorme da educação para o seu crescimento cultural no mundo globalizado. Esta disparidade educativa faz parte de grandes perigos para a segurança econômica e social dos indivíduos, que enfrentam uma situação de debilidade dos sistemas de estimulação e proteção educativa, desde os de formação familiar até os de responsabilidade do Estado. A globalização representa no terreno não-econômico grandes oportunidades inéditas como a expansão dos valores globais, a luta pelo Direito a ser diferente e a criação de mecanismos internacionais e da defesa da Cidadania são acontecimentos espetaculares, que se refletem nos avanços, sem dúvida ainda insuficientes, dos Direitos Humanos, da Democracia, da Igualdade entre os sexos e do Respeito à Diversidade Étnica.

O rompimento de estruturas arcaicas de dominação e o controle do abuso de poder no âmbito nacional devem ser considerados como avanços da era global, embora não isentos de tensões associadas à ausência total de canais que permitam, legitimar as ações internacionais e atenuar os imensos desequilíbrios de poder no âmbito mundial. Concomitantemente, a globalização dos meios de comunicação e seu controle radicado em poucas mãos geraram problemas sérios, porque cria poderosas tensões entre homogeneidade e diversidade cultural e enormes distâncias entre integração simbólica ao mundo global e escassa capacidade de integração material, dadas as amplas desigualdades existentes. Tudo isto sublinha a necessidade de um novo planejamento internacional baseado numa agenda ampla e num processo de negociação representativo e plural no mundo todo.

“Depois de ter sido premiada com o Nobel da Paz, a União Européia viveu ontem um dia de confronto de idéias. Tradicionais inimigas nos campos de guerra da história continental nos séculos passados, a Alemanha e a França se digladiam na reunião de cúpula realizada em Bruxelas, com a primeira defendendo a austeridade para combater a crise financeira e a segunda se opondo a métodos que estrangulem as economias nacionais”. (Depois do Nobel Líderes Europeus trocam farpas – ZERO HORA – 19- 10 - 2012 ).

É bom recordar que os dois países cultivaram durante 80 anos uma rivalidade pela hegemonia continental, que serviu de combustível para três guerras. A União Européia não acalenta o amor e procura desencorajar o ódio – e em matéria de ódio mútuo, Alemanha e França tem uma larga folha corrida. No atual debate Merker e Hollande são partidários da austeridade (no caso da chanceler) versus defensores do Estado de bem-estar social (Hollande). Merker propõem aperto fiscal e reforma na legislação social e previdenciária, especialmente nos países mais atingidos pela crise, com Grécia, Espanha e Portugal. Hollande alerta para os riscos políticos dessas medidas num contexto de desemprego crescente. Uma das principais conseqüências do momento difícil vivido pela Europa é a taxa de desemprego que fomenta protestos. Quase um em quatro jovens (22,7%) está desempregado nos 27 países da União Européia. Em agosto de 2012  havia 5,46 milhões de jovens desempregados – 3,39 milhões dos quais nos 17 integrantes do Euro. Torcemos para que através dos caminhos pacíficos da paz resolvam este problema com sabedoria construtiva.        

Nenhum comentário:

Postar um comentário