REGINA DINIZ
Por
mais freqüente e disseminado que se tenha tornado o uso da palavra “crise” em nossa época, o estado mental que
ela designa foi e é mais freqüente ainda. A sensação de que as coisas “vão
mal”, de que não batem com o que era esperado, e a desorientação resultante
sobre a maneira de prosseguir são freqüentes, comuns, talvez um acompanhamento
universal da experiência existencial humana. Todo ser no mundo humano é
reflexivo, sempre implica a recapitulação e análise, não pode durar muito sem
autocrítica. O que é levado em conta com menos freqüência, porém, é o fato de
que, a cada momento, na história várias gerações convivem, interagem, fazem
intercâmbios e enfrentam assim a tarefa de coordenar suas ações e comunicar-se.
Por esta razão a sociedade está permanentemente em “estado crítico” e as
gerações mais velhas, pessoas que estão no mundo há mais tempo e tiveram mais
tempo para desenvolver hábitos e expectativas, tendem a ser as primeiras a
perceber o estado atual de coisas como um “estado de crise”. (Autor: Zygmunt
Bauman Livro – Em Busca da Política – Ed.Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de
Janeiro – 2000).
A
sociedade humana em si é uma entidade inventada, idealizada em modelos muito
diferentes, e não facilmente compreensíveis. Avaliá-la e considerá-la na sua
pluralidade, para compreender as suas novas propostas, acompanhar e discutir o
seu sistema humano e social é grande acerto. São normais as invalidações das
possibilidades e somos atingidos por profundas incertezas de como organizar o
próprio código ético, o que é o estado normal da sociedade humana.
“Estar
em crise” é a maneira costumeira e talvez a única concebível de
autoconstituição (Castoriadis) ou autopoiesis (Luhmann), de auto reprodução e
renovação, e cada momento na vida da sociedade é um momento de
autoconstituição, reprodução e auto-renovação. A harmonização com a razão
sempre aconteceram. Mas há algumas
décadas a sociedade entrou em desequilíbrio e ainda não conseguiu voltar ao
estado de equilíbrio. É grande a preocupação pública atual com a “crise de
ordem mundial”, a “crise de valores” a “crise da cultura”, a “crise das artes”
e outras crises diariamente descobertas.
“O
homem vive, toma partido, crê numa multiplicidade de valores, hierarquizá-os e
dá assim sentido à sua existência mediante opções que ultrapassam
incessantemente as fronteiras do seu conhecimento efetivo. No homem que pensa,
esta questão só pode ser raciocinada, no sentido em que, para fazer a síntese entre
aquilo que ele crê e aquilo que ele sabe, ele só pode utilizar uma
reflexão, quer prolongando o saber, quer opondo-se a ele num esforço crítico
para determinar as suas fronteiras atuais e legitimar a hierarquização dos valores que o ultrapassam. Esta síntese
raciocinada entre as crenças, quaisquer que elas sejam, e as condições do
saber, constitui aquilo que nós chamamos uma “sabedoria” e é este que nos
parece ser o objeto da filosofia”. (Jean Piaget – Sageza e Ilusão da
Filosofia).
A
“Crise de Valores” é percebida nos dias de hoje como um imenso perigo,
detonando a moralidade que não é exercitada, por ser desacreditada a idéia da
própria responsabilidade autônoma do sujeito moral. Na ausência da proposta
ética (os regimes totalitários retiram o estudo da Ética dos bancos escolares e
universitários como 1º. Ato) os indivíduos são confrontados com as próprias
opções de acordo com o nível do julgamento moral, sentem-se inseguros e
desorientados, porque não tiveram oportunidades de se desenvolverem. Esta
“crise de valores” ou seja, a ausência do conhecimento ético é observada com preocupações.
O
grande equívoco que a “crise de valores” propõe é a definição dos sujeitos
morais por sua conformidade à norma, e não na certeza pela opção da conduta
responsável. A prática da educação ética prima pela reflexão para que todos os
indivíduos vivam de acordo com este preceito. A natureza da moralidade na qual
a responsabilidade é ensinada e refletida ocupa um lugar de honra. A reflexão
sobre a moralidade sempre motivou idéias favoráveis para os indivíduos, que
admitiram que o caminho mais correto seria a prática da responsabilidade pelas
escolhas morais.
Anthony
Giddens, chega a ponto de descrever a modernidade como “uma cultura de risco”.
O conceito de risco torna-se fundamental para a maneira como tantos agentes
leigos como especialistas organizam o mundo moral... O mundo moderno tardio... é
apocalíptico, não porque esta se dirigindo inevitavelmente rumo à catástrofe,
mas porque introduz riscos que gerações precedentes não tiveram que enfrentar”.
(Modernity
and self – identity: Self and society in the late modern age, Polity Press,
Cambridge – 1991, pp,3-4 ). Mas em seu
estudo pioneiro dos riscos e perigos que a “ação cega” ( e nas sociedades
contemporâneas ultracomplexas as ações estão, por assim dizer
institucionalmente de olhos tapados) não pode senão gerar, Ubrich Beck observou
que “o que prejudica a saúde e destrói a natureza não é reconhecível ao sentido
do tato ou da vista”. Os efeitos escapam inteiramente às capacidades humanas de
percepção direta. ( Risk Society: Towards a new modernity, Sage, Londres, 1991,
p.27).
Nestes
últimos trinta anos, a ausência do debate ético no sistema educacional e a
retirada total do ensino ético na própria sociedade desnortearam a identidade
humana. Tornaram-se desacreditadas as normas éticas, testadas e confiáveis que
herdamos do passado e que nos ensinaram a importância do respeito e
consideração para com os demais e para consigo mesmo. Imediatamente teremos de investir e zelar
para que não se destrua a dignidade que é o principal dos valores. Os pilares
éticos não são coisas nem simples idéias que adquirimos, mas conceitos que
traduzem nossas preferências.
Os
valores éticos que se referem às normas ou critérios de conduta que afetam
todas as áreas da nossa atividade como, por exemplo, -Solidariedade, -Honestidade, -Verdade, -Lealdade, -Bondade, -Altruísmo,
são valorizados e procurados. Na hora de
tomar uma decisão, cada um de nós, hierarquiza os valores de forma muito
diversa. Os valores são as razões que justificam ou motivam as nossas ações.
Os
valores individuais atualmente são definidos como crenças duradouras sobre
formas específicas de comportamentos sociais ou sobre estados abstratos de
existência. Atualmente, presta-se muita atenção em três componentes
considerados básicos e universais da natureza humana: -necessidades biológicas,
-necessidades de interação social estável –necessidades de sobrevivência dos
grupos. Os valores e expectativas levam em consideração o universo do relacionamento
e seu desempenho, que é avaliado quanto ao seu esforço no cumprimento de suas
responsabilidades, lembrando que o indivíduo deve investir continuamente no seu
desenvolvimento ético.
Hoje,
para as pessoas, o reconhecimento do eu é tão importante quanto o de outros
fatores do ambiente cultural, procurar a verdade sobre o eu é tão valioso
quanto a procura da verdade em outros aspectos da vida. Devido a degradação dos
costumes o indivíduo deveria saber se a sua introspecção é construtiva ou
fútil. Podemos dizer que é construtiva quando direcionada para atender o desejo
de tornarem-se seres humanos melhores, mais fecundos e mais fortes, cujo
objetivo final seria a auto-aprovação.
Conforme
nos lembra Freud (1930-1981), nossa felicidade e mesmo a nossa saúde depende
diretamente da capacidade de amar. Em uma cultura que desencoraja e mesmo
impede esse tipo de vínculo, teremos indivíduos cada vez mais frágeis e
solitários. O indivíduo contemporâneo deve vivenciar a verdadeira felicidade. “As
ciências mais relacionadas com as demandas humanas, são chamadas ao papel de
questionar os aspectos de uma cultura que por estar mais submetida às leis de
valorização do capital do que aos princípios éticos e a proteção dos seres
humanos, perde sua característica fundamental de ser um processo de humanização,
que prima pelos objetivos da pulsão de vida”. (Pedrossian – 2008).

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