quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A UNIVERSALIDADE DA EXPERIÊNCIA ÉTICA



REGINA DINIZ

Por mais freqüente e disseminado que se tenha tornado o uso da palavra  “crise” em nossa época, o estado mental que ela designa foi e é mais freqüente ainda. A sensação de que as coisas “vão mal”, de que não batem com o que era esperado, e a desorientação resultante sobre a maneira de prosseguir são freqüentes, comuns, talvez um acompanhamento universal da experiência existencial humana. Todo ser no mundo humano é reflexivo, sempre implica a recapitulação e análise, não pode durar muito sem autocrítica. O que é levado em conta com menos freqüência, porém, é o fato de que, a cada momento, na história várias gerações convivem, interagem, fazem intercâmbios e enfrentam assim a tarefa de coordenar suas ações e comunicar-se. Por esta razão a sociedade está permanentemente em “estado crítico” e as gerações mais velhas, pessoas que estão no mundo há mais tempo e tiveram mais tempo para desenvolver hábitos e expectativas, tendem a ser as primeiras a perceber o estado atual de coisas como um “estado de crise”. (Autor: Zygmunt Bauman Livro – Em Busca da Política – Ed.Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de Janeiro – 2000).

A sociedade humana em si é uma entidade inventada, idealizada em modelos muito diferentes, e não facilmente compreensíveis. Avaliá-la e considerá-la na sua pluralidade, para compreender as suas novas propostas, acompanhar e discutir o seu sistema humano e social é grande acerto. São normais as invalidações das possibilidades e somos atingidos por profundas incertezas de como organizar o próprio código ético, o que é o estado normal da sociedade humana.

“Estar em crise” é a maneira costumeira e talvez a única concebível de autoconstituição (Castoriadis) ou autopoiesis (Luhmann), de auto reprodução e renovação, e cada momento na vida da sociedade é um momento de autoconstituição, reprodução e auto-renovação. A harmonização com a razão sempre aconteceram.  Mas há algumas décadas a sociedade entrou em desequilíbrio e ainda não conseguiu voltar ao estado de equilíbrio. É grande a preocupação pública atual com a “crise de ordem mundial”, a “crise de valores” a “crise da cultura”, a “crise das artes” e outras crises diariamente descobertas.

“O homem vive, toma partido, crê numa multiplicidade de valores, hierarquizá-os e dá assim sentido à sua existência mediante opções que ultrapassam incessantemente as fronteiras do seu conhecimento efetivo. No homem que pensa, esta questão só pode ser raciocinada, no sentido em que, para fazer a síntese  entre  aquilo que ele crê e aquilo que ele sabe, ele só pode utilizar uma reflexão, quer prolongando o saber, quer opondo-se a ele num esforço crítico para determinar as suas fronteiras atuais e legitimar a hierarquização  dos valores que o ultrapassam. Esta síntese raciocinada entre as crenças, quaisquer que elas sejam, e as condições do saber, constitui aquilo que nós chamamos uma “sabedoria” e é este que nos parece ser o objeto da filosofia”. (Jean Piaget – Sageza e Ilusão da Filosofia).

A “Crise de Valores” é percebida nos dias de hoje como um imenso perigo, detonando a moralidade que não é exercitada, por ser desacreditada a idéia da própria responsabilidade autônoma do sujeito moral. Na ausência da proposta ética (os regimes totalitários retiram o estudo da Ética dos bancos escolares e universitários como 1º. Ato) os indivíduos são confrontados com as próprias opções de acordo com o nível do julgamento moral, sentem-se inseguros e desorientados, porque não tiveram oportunidades de se desenvolverem. Esta “crise de valores” ou seja, a ausência do conhecimento ético é observada com preocupações.

O grande equívoco que a “crise de valores” propõe é a definição dos sujeitos morais por sua conformidade à norma, e não na certeza pela opção da conduta responsável. A prática da educação ética prima pela reflexão para que todos os indivíduos vivam de acordo com este preceito. A natureza da moralidade na qual a responsabilidade é ensinada e refletida ocupa um lugar de honra. A reflexão sobre a moralidade sempre motivou idéias favoráveis para os indivíduos, que admitiram que o caminho mais correto seria a prática da responsabilidade pelas escolhas morais.

Anthony Giddens, chega a ponto de descrever a modernidade como “uma cultura de risco”. O conceito de risco torna-se fundamental para a maneira como tantos agentes leigos como especialistas organizam o mundo moral... O mundo moderno tardio... é apocalíptico, não porque esta se dirigindo inevitavelmente rumo à catástrofe, mas porque introduz riscos que gerações precedentes não tiveram que enfrentar”. (Modernity and self – identity: Self and society in the late modern age, Polity Press, Cambridge – 1991, pp,3-4 ). Mas em seu estudo pioneiro dos riscos e perigos que a “ação cega” ( e nas sociedades contemporâneas ultracomplexas as ações estão, por assim dizer institucionalmente de olhos tapados) não pode senão gerar, Ubrich Beck observou que “o que prejudica a saúde e destrói a natureza não é reconhecível ao sentido do tato ou da vista”. Os efeitos escapam inteiramente às capacidades humanas de percepção direta. ( Risk Society: Towards a new modernity, Sage, Londres, 1991, p.27).

Nestes últimos trinta anos, a ausência do debate ético no sistema educacional e a retirada total do ensino ético na própria sociedade desnortearam a identidade humana. Tornaram-se desacreditadas as normas éticas, testadas e confiáveis que herdamos do passado e que nos ensinaram a importância do respeito e consideração para com os demais e para consigo mesmo.  Imediatamente teremos de investir e zelar para que não se destrua a dignidade que é o principal dos valores. Os pilares éticos não são coisas nem simples idéias que adquirimos, mas conceitos que traduzem nossas preferências.

Os valores éticos que se referem às normas ou critérios de conduta que afetam todas as áreas da nossa atividade como, por exemplo, -Solidariedade,  -Honestidade, -Verdade, -Lealdade, -Bondade, -Altruísmo, são valorizados  e procurados. Na hora de tomar uma decisão, cada um de nós, hierarquiza os valores de forma muito diversa. Os valores são as razões que justificam ou motivam as nossas ações.

Os valores individuais atualmente são definidos como crenças duradouras sobre formas específicas de comportamentos sociais ou sobre estados abstratos de existência. Atualmente, presta-se muita atenção em três componentes considerados básicos e universais da natureza humana: -necessidades biológicas, -necessidades de interação social estável –necessidades de sobrevivência dos grupos. Os valores e expectativas levam em consideração o universo do relacionamento e seu desempenho, que é avaliado quanto ao seu esforço no cumprimento de suas responsabilidades, lembrando que o indivíduo deve investir continuamente no seu desenvolvimento ético.

Hoje, para as pessoas, o reconhecimento do eu é tão importante quanto o de outros fatores do ambiente cultural, procurar a verdade sobre o eu é tão valioso quanto a procura da verdade em outros aspectos da vida. Devido a degradação dos costumes o indivíduo deveria saber se a sua introspecção é construtiva ou fútil. Podemos dizer que é construtiva quando direcionada para atender o desejo de tornarem-se seres humanos melhores, mais fecundos e mais fortes, cujo objetivo final seria a auto-aprovação.

Conforme nos lembra Freud (1930-1981), nossa felicidade e mesmo a nossa saúde depende diretamente da capacidade de amar. Em uma cultura que desencoraja e mesmo impede esse tipo de vínculo, teremos indivíduos cada vez mais frágeis e solitários. O indivíduo contemporâneo deve vivenciar a verdadeira felicidade. “As ciências mais relacionadas com as demandas humanas, são chamadas ao papel de questionar os aspectos de uma cultura que por estar mais submetida às leis de valorização do capital do que aos princípios éticos e a proteção dos seres humanos, perde sua característica fundamental de ser um processo de humanização, que prima pelos objetivos da pulsão de vida”. (Pedrossian – 2008).  

Nenhum comentário:

Postar um comentário