sábado, 1 de setembro de 2012

O RESPEITO À SINGULARIDADE HUMANA


REGINA DINIZ


“Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens  pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém, para fazer essa lista ou refletir sobre a sua incompletude. Amar o próximo pode exigir um salto de fé. O resultado, porém, é o ato fundador da humanidade. Também é a passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade. Essa passagem torna a moralidade uma parte, talvez condição sine qua non, da sobrevivência. Com esse ingrediente, a sobrevivência de um ser humano se torna a sobrevivência da humanidade no humano”. ( Autor: Zigmunt Bauman – Livro – Amor Líquido ( sobre a fragilidade dos Laços Humanos) – Ed. Zahar – 2003).

Um dos documentos mais antigos, que vinculou os Direitos Humanos é o Cilindro de Ciro, que contêm uma declaração do rei persa (antigo Irã) Ciro II depois de sua conquista da Babilônia em 539 a.C.. Foi descoberto em 1879 e a ONU traduziu em 1971 a todos seus idiomas oficiais. Nele era declarada a liberdade de religião e a abolição da escravatura. Tem sido até hoje valorizado, positivamente por seu sentido humanista e foi descrito como a primeira declaração de Direitos Humanos. O primeiro documento dos Direitos Humanos, na época moderna, é a dos Direitos da Virgínia de 12 de junho de 1776, escrita por George Mason e proclamada pela Convenção de Virgínia.

A Cultura Pós Moderna tem sério compromisso com a defesa permanente dos valores humanistas em todo o mundo. O reconhecimento de que o ser humano é a essência maior, e que necessita do amparo das leis em permanente atua- lização, é fundamental para que avancemos como civilização. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um código de alta importância, mas não contemplou, e ainda não contempla os ideais presentes na História que brada por justiça de sobrevivência de homens, mulheres e crianças, sobretudo daqueles que por qualquer circunstância se encontrem numa  situação de opressão, numa situação de miséria extrema.   

“É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural confiança. Só em função de alguma circunstância especial desconfiamos antecipadamente de um estranho... Em circunstâncias normais, contudo, nós aceitamos a palavra do estranho e não duvidamos dele até que tenhamos uma razão particular para isso. Nunca suspeitamos da falsidade de uma pessoa até que a tenhamos apanhada numa mentira”. ( Knud Logstrup, Etiske fordring. (Ed.ing: The Ethical Demand. Notre Dame, University of Notre Dame Press, 1997, p.8 ).

Na situação de sobrevivência, a confiança, a compaixão, e a clemência  são portas de entrada de relacionamentos humanizados plenos de emoções construtivas. A presença imediata de outro ser humano, sofrendo e precisando de socorro nos sensibiliza intensamente. Ajudar, defender, aliviar, salvar nos gratifica emocionalmente e ficamos em estado de alegria pela responsabilidade afetiva praticada. “Que cada homem diga o que considera a verdade, e que a própria verdade seja confiada a Deus”. ( Hannah Arendt. – On humanity in dark teines, p. 31).

A Modernidade diante de inumeráveis conflitos bélicos (lembrar 2ª. Guerra Mundial) mais os conflitos bélicos atuais, mais os conflitos urbanos em todos os países já deveríamos praticar, já deveríamos vivenciar, com elevada compreensão social, a vida como valor supremo do ser humano. Precisamos descobrir um modo mais seguro de visão de civilização, para que valorizemos o direito à vida, que é terminar com a infantilizada descriminação e investir profundamente na união construtiva  social. O grande desafio é acreditar que só o relacionamento fraterno garantirá a prática real da vida, substituindo os valores fratricidas, que tanto nos assustam e nos deprimem.   

“Os ensinamentos de Epicteto ( 55d.C. – 135d.C.) referentes à virtude nada tem a ver com a beatice ou servilismo e submissão. Virtude, felicidade e tranqüilidade não são experiências isoladas ou distintas, mas estados estreitamente relacionados. Ao mesmo tempo, que defendia a idéia de que se deve ser bom por princípio, Epicteto observava na prática que uma vida virtuosa, de excelência moral, leva à coerência interior e à harmonia exterior. Há uma grande sensação de alívio em ser moralmente coerente: a alma é pacificada e podemos então levar adiante as nossas atividades de modo mais eficaz e proveitoso ou, como dizia Epicteto “sem impedimentos”. (Autor: Epicteto – Livro: A Arte de Viver – Nova interpretação de Sharon Lebell – Ed.Sextante – Rio de Janeiro – 1957).

Para o filósofo Epicteto, Deus é sabedoria, é inteligência e como tal segue a razão, que é o supremo bem que nos dá liberdade e nos tornam  independentes das coisas, que estão no exterior de nós mesmos. Os bens materiais não podem monopolizar ou dominar os nossos pensamentos, porque roubam o espaço de nossa consciência criativa. Quem escolhe viver segundo as normas do conjunto das coisas, deprecia a sua liberdade interior e torna-se escravo dos bens materiais. Quem investir no desenvolvimento saudável de suas emoções cognitivas torna-se livre e encontra a paz espiritual.

Segundo Epicteto, é preciso lutar para conseguir algo da vida, e a liberdade é fundamental para sermos donos de nós mesmos. A virtude é considerada como único bem. A noção do dever, de viver segundo a razão significa praticar o senso de responsabilidade introduzido na Ética pelos filósofos estóicos. Vida feliz e vida virtuosa são sinônimas, e felicidade e realização pessoal são conseqüências naturais de bem pensar e da prática permanente de atitudes virtuosas. A questão não é agir bem para conquistar os favores dos deuses ou a admiração dos outros, mas adquirir serenidade interior e, conseqüentemente, liberdade pessoal duradoura.

“O consumismo atua para manter a reversão emocional do trabalho e da família. Expostos a um bombardeio contínuo de anúncios graças a uma média diária de três horas de televisão (metade de todo o seu tempo de lazer), os trabalhadores são persuadidos a “precisar” de mais coisas. Para comprar aquilo de que gostam necessitam, de dinheiro. Para ganhar dinheiro, aumentam sua jornada de trabalho. Estando fora de casa  por tantas horas, compensam sua ausência do lar com presentes, que custam dinheiro. Materializam o amor. E assim continua o ciclo”. (Arlie Russel Hochschild – The Commercialization of Intimitate Life, p.208ss).

Milênios de reflexão ética, privilegiando a visão humana do valor do autoconhecimento, que  impulsionaram séculos e séculos de realização pessoal e social, de repente após as duas grandes guerras  há 70 anos atrás, empobreceram consideravelmente a civilização em todos os aspectos éticos, como também foram pauperizados  as economias de todo de todo o mundo. Mas diante do empobrecimento global, jamais se imaginaria a possibilidade do surgimento de um raciocínio engenhoso na transformação dos consumidores em mercadorias como a principal característica, que é o segredo mais profundo e bem guardado da sociedade de consumo. A sociedade contemporânea sucumbiu passivamente, optando por um modelo de consumo fratricida, e que é regida por uma filosofia-padrão de toda a vida moderna.

Mas no horizonte contemporâneo uma nova utopia nasceu, ou seja, enfrentar os desafios da vida, que é a oficina em que a autoconfiança, o senso de dignidade humana e a auto-estima dos indivíduos são formados  e solidificados. Debate-se intensamente no momento a implantação do Estado social com direitos sociais para todos, resgatando o compromisso e a solidariedade, o direito ao respeito e à dignidade humana. “Todo mundo é frágil em algum ponto do tempo. Precisamos uns dos outros. Vivemos no aqui e no agora, juntamente com outros, envolvidos de forma involuntária pelas mudanças que ocorrem. Seremos mais ricos se todos pudermos participar e ninguém for deixado de fora. Seremos todos mais fortes se houver segurança para todo mundo e não apenas para uns poucos”. (Programa Social Democrata Sueco de 2004).    

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