REGINA DINIZ
“Quinhentos anos depois da chegada dos europeus, repetimos os mesmos vícios, perpetuamos os mesmos problemas. Relatos freqüentes de viajantes estrangeiros que circularam pelo Brasil, sobretudo no século 19, quando a Corte portuguesa já se instalara no país, chamavam a atenção para “o analfabetismo, a falta de cultura e instrução”, escreve o jornalista Laurentino Gomes, autor do memorável l808, que traduz muito da alma brasileira e das raízes daquilo em que viemos a nos transformar”. “O Brasil não é lugar de literatura” afirmou James Henderson, que aqui esteve em l819. “Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua conseqüência natural: o orgulho”. Já botânico inglês William John Burchelf, que percorreu o Brasil entre l825 e 1830, escreveu que neste país de analfabetismo, não se encontra ninguém, que tenha intimidade com a noção de ciência. E assinalou:”Aqui, a natureza tem feito muita coisa – o homem nada. Aqui, a natureza oferece inumeráveis temas de estudo e admiração, enquanto os homens continuam a vegetar na escuridão da ignorância e na extrema pobreza, conseqüência da preguiça”.Exageros à parte, preguiça de nobres e ricos daquela época, sejamos claros, porque os escravos e os pobres sempre trabalharam muito. Como o fazem até hoje. E sem que participem minimamente da distribuição de toda a riqueza.( CelsoVicenzi – caderno cultura – Diário Catarinense – l6/01/2010 ).
O Brasil é o oitavo país com a maior desigualdade social, na frente apenas da Guatemala e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia, segundo o coeficiente de Gini, parâmetro internacionalmente usado para medir a concentração de renda. No Brasil, 46,9% da renda nacional concentra-se nas mãos dos 10% mais ricos, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7% da renda. (Celso Vicenzi – caderno de cultura – Diário Catarinense – 16/01/2010). Como pode o nosso Brasil não se envergonhar perante o mundo, de manter a população escravizada numa condição permanente de pobreza extrema? Já se passaram cinco séculos sem a mínima transformação. Sem nenhuma reação, indica que ainda somos uma cultura abatida.
Em recente entrevista publicada na imprensa, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, traduziu em números essa questão abissal:”Temos uma realidade dantesca na cultura brasileira. A gente não consegue envolver culturalmente 20% da população com única exceção da TV aberta. Só 8% foram a um museu, só 13% vão com alguma regularidade ao cinema, só 17% compram livros, mais de 90% das cidades não têm cinemas. A realidade é muito grosseira e excludente. Ou seja, não dá para garantir desenvolvimento cultural no Brasil nessas condições. E a lei Rouanet aprofunda, acirra essa desigualdade, esta desconcentração, esses privilégios e essas exclusões, por isso tem que mudar”. (Celso Vicenzi – caderno de cultura – Diário Catarinense l6/01/2010) O país está entre as 10 maiores economias do planeta. As pretensões delirantes afirmam chegar em 2020 entre os cinco maiores, mas sem expressivo investimento em educação será impossível.
No livro: As Contradições Culturais do Capitalismo, Daniel Bell defende que a cultura do consumo estimula uma ética do hedonismo e corrói, assim, a disciplina industrial. O capitalismo avançado está em desavença consigo mesmo, na sua visão: necessita de consumidores que procurem gratificação imediata e nada neguem a si próprios, mas precisa também de produtores que se auto-sacrifiquem, desejosos de atirar-se aos seus trabalhos, labutar por longas horas e seguir à risca as instruções. O ponto forte dos argumentos de Bell situa-se em sua compreensão do vínculo entre capitalismo avançado e o consumismo, que tanto observadores atribuem meramente aos educadores e pais permissivos, à decadência moral e à omissão das autoridades. O seu ponto frágil está na equiparação tão estrita entre consumismo e hedonismo. O lançamento das mercadorias depende de desestimular o indivíduo quanto à confiança em seus próprios recursos e julgamentos: neste caso, o discernimento do que ele necessita para ser saudável e feliz.
A demanda por consumo liderada pela indústria americana viu que para dominar o mercado de massa era necessário desencorajar as pessoas de prover as suas próprias necessidades e socializá-las enquanto consumidores. Foi preciso um vasto esforço de reeducação, iniciado nos anos 20, antes que os americanos aceitassem o consumo como um modo de vida e o impusesse principalmente na América latina.
A indústria moderna passou a se basear nos duplos pilares do fordismo e do sloanismo. Ambos tendiam a desestimular e espírito empreendedor e independente e a fazer com que o indivíduo desacreditasse em seu próprio julgamento, mesmo em matéria de gostos pessoais. As suas próprias e incultas preferências, ao que parecia, estariam em atraso diante da moda vigente; elas também tinham que ser periodicamente aperfeiçoadas. É uma proposta de amassamento emocional, liquidando totalmente a auto-estima.
“A história da humanidade é a história da crescente individuação, mas é também a da liberdade crescente. A busca da liberdade não é uma força metafísica e não pode ser explicada por leis naturais; é a resultante necessária do processo de individuação e da expansão da cultura”. (Livro – O Medo à Liberdade – Erich Fromm – Zahar Editores).
Certas qualidades psicológicas e inerentes ao homem, que têm de ser atendidas e que provocam certas reações caso sejam frustradas.A mais importante destas qualidades é a tendência para crescer, para desenvolver e realizar potencialidades que o homem formou através da História, como por exemplo, a faculdade de pensamento criador e crítico e a de variar as experiências emocionais e sensoriais. Cada uma dessas potencialidades possui um dinamismo próprio; uma vez que tenha se formado ao longo da marcha de evolução, tendem a manifestar-se. Se suprimidas e tolhidas surgem reações de aparecimento de impulsos destruidores e simbióticos.
A liberdade de ser é condição fundamental para qualquer crescimento. Observando as lutas que nos confundem e a aceitação da responsabilidade por elas talvez não sirvam para diminuí-las, mas com toda a certeza restauram nosso poder pessoal. Não somos indivíduos indefesos, à mercê de manipulações, mas sim sócios de outros seres humanos e, a qualquer momento, cada um de nós tem o poder de reescrever os termos do contrato da vida.
“Desejo de alguma maneira contar a história de como os espoliados tornaram-se donos de sua própria história sem perder a visão, sem se esquecer do significado ou natureza de sua jornada”. (Sherley Anne Willams). Usarmos o passado sem sermos controlados por ele – essa é a responsabilidade que temos perante a História. Sermos verdadeiros com nós mesmos significa sermos fiéis a nossa história.
As crueldades do passado podem permanecer muito poderosas em nossas vidas. Tornarmo-nos donos de nossa história significa nos libertarmos da servidão aos eventos passados. Nada jamais poderá modificá-los. Se quisermos ter um bom futuro, precisamos extrair ensinamentos do passado, mas nossa liberdade exige que façamos escolhas com base nas necessidades do presente, não do passado. Podemos agir de tal forma a honrar o passado e favorecer o futuro.
Precisamos encarar os nossos desafios como dádivas, compreendermos que sua resolução nos dará um novo horizonte existencial. A vida é uma série de lições e as crises são nossos deveres de casa. O mais triste da vida é enjaular-se no desamparo pela falta de perspectiva de ser. Devemos lutar pela inclusão social de todos os brasileiros. Assumir projetos que assumam abertamente a educação em todos os níveis. A participação não só dos solitários heróicos professores, mas principalmente dos pais e alunos.

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