sexta-feira, 8 de junho de 2012

A CONVIVÊNCIA EM VALORES DE CIVILIDADE

REGINA DINIZ


Emerson, escritor que não tem fama de admirador das cidades, certa vez referiu-se a Paris como “o centro social do mundo, acrescentando que este mérito supremo” residia em ser ela a “cidade das conversas e dos cafés”.Mais do que muita gente, Emerson valorizava a solidão, mas também reconhecia,  os “imensos benefícios” da sociabilidade, “e o único evento que nunca perde o seu fascínio”, ele citou em “Society and Solitude, era o “encontro com pessoas superiores em situações que permitam conversas muito agradáveis”. (Emerson, Ralph Waldo – Livro: Society and Solitude – l870 – Em Selected Writings of Emerson, org. Donald McQuade. – Nova York – 1981).

A sociabilidade, ou seja, o intercâmbio proveniente da relação civilizatória é riquíssimo, pois dele brotam percepções, que favorecem a compreensão da complexidade da interpretação da vida. Quando nos encontramos com os mestres da vida sábia, que nos oferecem as possibilidades de captar a essência da vida, nós nos encantamos. Percebemos que o nosso objetivo existencial é ver em movimento as virtudes essenciais da união entre as pessoas.

Somos cosmopolitas por natureza, somos naturalmente cidadãos do mundo. Atualmente podemos nos distribuir pelo mundo, pois somos de todas as nações e convivemos com valores de civilidade como a lealdade, confiança e responsabilidade. Somos exigentes, desejamos uma cultura de elevadas experiências em convívio pessoal. Hoje convivemos em bairros com centros comunitários, e nos encorajamos a propor exigências de qualidades urbanas difíceis de alcançarmos.

“Podemos preferir um grupo selecionado, Mary Parker Follet escreveu certa vez, mas “a satisfação e contentamento que acompanham as coisas sempre iguais indicam pobreza de personalidade”. “O bairro, por outro lado, oferece o efeito revigorante das múltiplas experiências e ideais diferentes”. Estas diferenças, pode-se argumentar, dão assunto para conversas animadas, em contraposição à admiração mútua e à unanimidade incontestada”. (Mary Parker Follet – The New Follet – The New State, Nova York – 1918).

A arte do diálogo, a troca de idéias, e de experiências incentivam conversas amigas em praças, em academias, sendo o objetivo maior a renovação da essência da vida. A arte da conversação tende a crescer nestes locais de reuniões informais, onde as pessoas conseguem conviver com a liberdade de expressão. Hoje a troca de idéias é a razão de ser, porque motivam o imaginário urbano.

Embora já tenha sido valorizada a busca de como ser integrado no debate do crescimento da personalidade, ainda estão faltando em nossa cultura as comodidades urbanas: - bibliotecas, - convívio, - conversas – políticas - em resumo o que faz com que a vida valha a pena ser vivida. De repente o mercado se apropriou de quase todos os espaços públicos e a sociabilidade se retirou para clubes privados, ficando ameaçados de perder a capacidade de se entreterem e até de se governarem. A tendência suburbana em nossos tempos, é recolocar o cidadão no seu lugar de direito, ou seja, no centro dos acontecimentos.

“A impotência e insegurança do indivíduo isolado, na sociedade moderna, que se libertou de todos os liames, que outrora davam sentido e segurança à vida. Vimos que o indivíduo não pode suportar este isolamento: como um ser isolado ele é absolutamente inerme em comparação com o mundo exterior e, por isso, profundamente temeroso dele; e, por causa deste isolamento, a unidade do mundo rompeu-se para si e ele perdeu qualquer ponto de referência. Por conseguinte, é tomado de dúvidas, ao seu próprio respeito, do significado da vida e, afinal de contas, de qualquer princípio segundo o qual possa nortear suas ações”.(Erich Fromm – O Medo À liberdade – 14 ed. – 1983 – Zahar Editores – Rio de Janeiro).

Todos os seres humanos querem ser felizes, mas para descobrir o que torna a vida feliz não é muito fácil. Ao longo da caminhada, é importante que encontremos amigos com os mesmos objetivos de crescimento pessoal, então nos completaremos, confirmando valores éticos de crescimento, então a nossa vida ficará mais rica em humanismo. É fácil ficar a vida inteira à deriva, porque as manipulações padronizadas com o objetivo de aniquilar a nossa individualidade e nos reduzir a seres irracionais, nos separando um dos outros,
são verídicas em nossos tempos. A nossa salvação depende do esforço de cada ser humano valorizar a sua contribuição com idéias de aproximações construtivas.

A realização do eu é alcançada por decisão do pensamento de nossa personalidade total, pela fluidez permanente das potencialidades emocionais e intelectuais. É importante prestarmos atenção na qualidade da própria vontade. Quando aceitamos investir na saúde das emoções com certeza deslanchamos. Ficamos em paz quando só nos desejamos o bem, e o desejamos para todas as outras pessoas.

“Com meu irmão Severo aprendi a amizade pelo próximo. O amor da verdade e da justiça. Conheci, por seu intermédio, Tráseas, Helvídio, Catão, Dião. De  ter concebido a idéia de um Estado com leis iguais para todos, assegurando igualdade aos cidadãos e seus direitos. Estima sincera e constante pela filosofia. Generosidade, liberalidade bem equilibrada, esperança sem desfalecimento, confiança na afeição dos amigos”. (26/04/121 – 17/03/180 – Autor: Marco Aurélio – Meditações – Editora Martin Claret – 2002 ).

Há 18 séculos, Marco Aurélio mostrava o desejo de revolucionar-se e revolucionar culturalmente o mundo em nível ético avançadíssimo. A história da Humanidade se valoriza, ao longo de séculos e milênios, por discutir e transmitir idéias e conceitos renovados, que consideraram significativos, no momento histórico cultural em que viveram. Deixaram um precioso legado social fornecendo dados para a análise de sua sociedade.

A nossa democracia requer uma vigorosa troca de idéias e opiniões, sobre a problemática da ausência da educação, que deveria ser colocada em primeiro lugar em nosso país e no mundo. Saem governantes e entram governantes sem jamais compreenderem que o mais importante é o capital social, que sustenta uma sociedade, mensurada por indicadores qualitativos e não apenas quantitativos. A mais humana decisão é aceitar ajudar pela educação a pobreza, promovendo a justiça e a solidariedade, levando às mais nobres conseqüências. Queremos atitudes qualitativas hoje.

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