quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OS BENEFÍCIOS DE UNS PARA OS OUTROS

                           
 REGINA DINIZ


“Moisés desceu as montanhas. Debaixo do braço trazia as leis gravadas em granito que lhes foram ditadas “por Deus”. Moisés era apenas um mensageiro, o povo - populus – era o destinatário... Aqui nasceu a ”justiça piramidal”. Agora o outro quadro: mulheres reunidas na fonte, em volta do poço ou em algum lugar de reunião ao longo do rio... Buscar água, lavar as roupas, trocar informações e opiniões. O ponto de partida para a conversa serão sempre atos e situações concretas. São descritos, comparados e avaliados, belos ou feios, fortes ou fracos. É por esse processo que são criadas as normas. É um caso clássico de “justiça igualitária”. (Nils Christie, - Civilityy and State – manuscrito inédito) – Citação de Zygmunt Bauman – livro: Globalização – as Conseqüências Humanas – Editora Zahar – 1998 ).

Desde quando Moisés desceu as montanhas com as leis gravadas em granito,  implantou a justiça piramidal, que foi decretada por milênios e milênios e nunca foi sequer questionada ou avaliada... A justiça piramidal encontra-se mais forte do que nunca, mais atual do que nunca. O erro social de nossa civilização é a dominação social psicótica de grupos, que por motivos de insegurança e desequilíbrio emocional, que por motivos de sadismo incurável desejam serem melhores que todos...

É inexplicável que a justiça horizontal não tivesse sido discutida socialmente  até os dias de hoje. Fomos isolados uns dos outros. Há urgência de lugares acolhedores para bate-papos com a finalidade de rever padrões sociais ultrapassados, para renovar padrões culturais. É preciso conversar, pensar, ouvir, analisar, renovar algumas possibilidades de crescimento pessoal, discutir alguma coisa além de adorar objetos em exposição.

“Edward Wilson da Universidade de Harvard, considerado o criador da sociobiologia e um dos mais respeitados acadêmicos da atualidade afirma, que o processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Assim, grupos de pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefícios dos outros e de forma coletiva alcançam mais sucesso”. (Edward Wilson – livro: A Conquista Social da Terra – W.W.Norton & Company – 2012 ).

Charles Darwin desenvolveu a teoria da seleção natural na metade do século XIX, dizia ter encontrado a solução da evolução da vida no planeta. A competição constante embora silenciosa entre os indivíduos preservava as melhores linhagens, afirmava o naturalista britânico. O filósofo Herbert Spencer, no início do século XX, afirmou que sobreviveriam só os mais fortes.

O comportamento altruísta é a chave da teoria de Edward Wilson em seu livro, que arrebatou importantes publicações internacionais, como “The New York Times”, e também as prestigiadas revistas científicas como “Nature” e “Scientific American”. A Conquista Social da Terra surgiu para debater e repensar a importância da cooperação entre os indivíduos”. “Nos seres humanos existem três aspectos importantes para explicar a evolução: o corpo físico, os pensamentos e a psique. Darwin foca o seu trabalho na evolução do corpo, por isso a explicação fica incompleta, afirma Robert Cloninger”.

“Universitários de cinco continentes estão mais preocupados com seu progresso pessoal do que em contribuir com a vida em sociedade, apontam os resultados iniciais de pesquisas sobre o perfil de estudantes de instituições de Ensino Superior Católicas divulgadas ontem (27-07-2012), durante encontro da Federação Internacional de Universidades Católicas (FINC). Foram entrevistados 17 mil jovens com idades entre 16 e 30 anos de 34 países. Dentre as principais razões apontadas pelos pesquisados para ingressar na universidade, 91% escolheram a necessidade de conquistar trabalho. Os outros itens mais citados foram: - gosto pelo estudo (43%) e vontade de obter uma melhor posição social (25%). Apenas 18 % citaram a necessidade de ser útil à sociedade. Envolver-se em projeto social (5%)”.(Artigo: Foco Universitário – Preocupação Maior é com o próprio sucesso – Zero Hora – Porto Alegre – RS).

As transformações sociais pelas quais passamos nas últimas décadas desencadearam profundas mudanças  nas relações pessoais, nas relações sociais e nas relações de trabalho. O conceito de competência humana evoluiu muito, e atualmente não basta provar o conhecimento técnico exigido pela profissão, é preciso mostrar autonomia criativa para solucionar problemas. É importante a disposição de interagir construtivamente no grupo, oferecendo ótimas decisões e dividindo responsabilidades com as outras pessoas.

É imprescindível a qualificação humanizada no conjunto das capacidades técnicas que se entrelaçam na capacidade de organizar, coordenar, inovar, motivar e cooperar,  fortalecendo o grupo de indivíduos. Essas competências humanas tornaram-se indispensáveis para as pessoas alcançarem êxito não só no trabalho, mas na vida pessoal, social e cultural. Acreditamos que as palavras mais apropriadas seriam as de que são processos positivos, construtivos, realistas e dignos de confiabilidade, portanto muito bem vindos.

“Com a sua abertura sensível ao mundo, a confiança na sua própria capacidade para formar novas relações com o seu ambiente, devia ser o tipo de pessoa de quem provêm as produções e vivências criativas. Não devia estar necessariamente “adaptada” à sua cultura com toda a certeza, não devia ser um conformista. Mas, em qualquer época e em qualquer cultura, viveria de uma maneira construtiva, numa grande harmonia com o seu meio cultural para conseguir uma satisfação equilibrada das suas necessidades. Em determinadas situações culturais, poderia em alguns aspectos ser uma pessoa muito infeliz, mas continuaria a progredir  para ser ela própria e para se comportar de tal forma que satisfizesse de um modo tão completo quanto possível as suas necessidades mais profundas”.( Carl R.Rogers – livro: Tornar-se Pessoa – Livraria Martins Fontes – Ed.Ltda – novembro de 1985).

A capacidade técnica, pessoal, social e participativa são competências inerentes a todos os seres humanos, que  exigem habilidades de como saber se comunicar, de negociar no grupo, de apresentar as próprias idéias, de debater,  de saber ouvir, de valorizar a opinião das pessoas e de perceber como a variedade de interpretações sobre um mesmo problema enriquece  uma discussão e as próprias pessoas participantes do grupo. É imperioso acreditar, que modernamente não há mais espaço para individualismos em qualquer  situação. Atualmente toda atividade  é compreendida como resultado de um esforço conjunto, todas as vitórias e todas as derrotas são de responsabilidade de todos os membros da equipe e não de uma única pessoa. Quando todas cooperam, as propostas ganham em produtividade e qualidade.

Na justiça horizontal, debatem-se o equilíbrio e a motivação do ser humano em crescimento emocional, colocando na pauta conceitos tais como a  atualização num contínuo vir a ser. Estamos fazendo grandes progressos na compreensão das tensões interpessoais e intergrupais. O mais importante é que estamos a procura de uma compreensão mais adequada das relações humanas. Já possuímos conhecimentos, que aplicados preventivamente, poderão ajudar no desenvolvimento de pessoas equilibradas, não-defensivas e compreensivas, que possam enfrentar de maneira construtiva as tensões do dia a dia.

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