quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DIREITOS, RESPONSABILIDADES PESSOAIS E SOCIAIS


               
 REGINA DINIZ

Tanto a sensação de desamparo quanto a dúvida paralisam a vida e, para poder viver tenta fugir da liberdade. É impelido para uma nova escravidão: esta difere dos vínculos primários, de que, embora dominado por autoridades ou pelo grupo social, ele não estava inteiramente separado. A fuga não restaura sua segurança perdida, mas apenas ajuda-o a esquecer o seu ego como entidade independente. Encontra uma nova e frágil esperança a expensas de sacrificar a integridade do ego individual. Opta por perder seu ego já que não pode tolerar viver sozinho. Assim, – a liberdade - como liberdade de - leva a um novo cativeiro. Não tenho identidade, não há ego que não aquele que é o reflexo do que os outros esperam que eu seja: “Eu sou” como você me quer”. (Autor: – Erich Fromm – Livro: -  O Medo à Liberdade – Zahar Editores – 1983 – Rio de Janeiro).

Todos nós deveríamos nos perguntar: - até que ponto somos livres para optar e praticar as responsabilidades pessoais e sociais? Talvez sugestões renovadas, humanistas sobre o sentido da existência, seria o de encontrar no dia a dia, espaços para soluções de caminhos criativos, que sempre estão presentes em nosso interior à espera de confirmações. A opção de liberdade de escolha nos torna mais humanos e com certeza é o nosso maior triunfo.

É de impressionar o número de pessoas que sacrificam prazeres, riquezas e muitas vezes a própria vida para a preservação desse bem maravilhoso. A capacidade de sentir espanto e reverência, escrever poesias, conceber teorias científicas e grandes obras de arte pressupõe a liberdade, que podemos chamar a concretização dos dons. Todos estes predicados são essenciais à capacidade humana de refletir. A liberdade é tão importante que é a mãe de todos os valores.     

“Os Direitos e Liberdades Individuais, fatores vitais na origem da sociedade industrial perdeu o sentido e conteúdo tradicionais, pois uma vez institucionalizados compartilham do mesmo destino da sociedade integradora. A liberdade individual na sociedade tecnológica tornou-se, sobretudo, uma liberdade de morte, de ausência de valores, alienação do indivíduo e degradação social. Tudo contribui para transformar os instintos, os desejos e pensamentos humanos em canais que alimentam o aparato tecnológico. O homem médio, dificilmente importa-se com outro ser vivo com a intensidade e persistência que demonstra por seu automóvel. A máquina adorada não é mais matéria morta, mas se torna algo, semelhante a um ser humano. Herbert Marcuse fala em “mecânica do conformismo”, afirmando que, diante da satisfação das suas próprias necessidades, o homem deixa de contestar o atual sistema capitalista de consumo”. (Herbert Marcuse – A Ideologia da Sociedade Industrial – 5ed. – Rio de Janeiro – 1979).

O momento histórico de nossa civilização pode ser definido como a sociedade tecnológica do artificialismo e que com facilidade dominam e manipulam a cultura, exercendo um verdadeiro fascínio sobre as consciências humanas. Os pensadores existencialistas contemporâneos consideram que a liberdade é a qualidade mais ameaçada, com a sua objetivação de linha de montagem das subjetividades humanas. Todos sabemos que a subordinação a um senhor golpeia a essência da dignidade. Nós precisamos investir e privilegiar a nossa liberdade de ser.

Mesmo com a padronização cultural, e por que não dizer da escravização da sociedade de consumo, de acordo com estudos estatísticos, muitas pessoas colocou a liberdade em posição mais elevada de sua lista de valores. Muitos indivíduos preferem baixar o seu padrão de vida como cidadãos livres do que serem bem cuidados como escravos. Sempre me impressionei com as maravilhas criativas das pessoas, que para se defenderem da opressão   cultural da padronização, ousaram ser diferentes, e venceram.    

  “De fato, como a mídia nos infantiliza, diminui nossa atenção e capacidade de pensamento, inverte a realidade e ficção, e promete, por meio da publicidade, colocar a felicidade imediatamente ao alcance das nossas mãos, transformando-nos num público dócil e passivo. Uma vez que nos tornamos dóceis e passivos, os programas de aconselhamento, longe de divulgarem informações (como parece ser a intenção generosa dos especialistas) torna-se um processo de inculcação de valores, hábitos, comportamentos e idéias, pois não estamos preparados para pensar, avaliar e julgar o que vemos, ouvimos e lemos. Por isso, ficamos intimidados, isto é, passamos a considerar, que nada sabemos, que somos incompetentes para viver e agir se não conseguirmos a autoridade competente do especialista. Dessa maneira, um conjunto de programas e publicações, que poderiam ter verdadeiro significado cultural, torna-se o contrário da Cultura e de sua democratização, pois se dirigem a um público transformado em massa inculta, desinformada e passiva”.  Marilena Chauí – Convite à Filosofia  - Ed. Ática – 2000 – São Paulo).

O principal objetivo da mídia é “civilizar os seus receptores para o consumo”, integrando a sociedade industrial moderna todos aqueles que tenham as mínimas condições de consumir. Surgiram mudanças de comportamento, alteração de hábitos de lazer, como também relações políticas e de poder, modo de vestir etc... A modernidade planejou a massificação das culturas introduzidas pela indústria cultural, num processo que modificou as identidades, na medida que novas formas de pensar e de existência fossem atributos indispensáveis para o convívio social. Antony Giddens na apresentação da obra “Modernidade e Identidade”, nos alertava para esta realidade, pois segundo ele “a modernidade altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana e afeta os aspectos mais pessoais de nossa existência”. (Giddens, 2002, p.9).

As avaliações culturais devem repensar a sociedade no processo de redescobrir as identidades nacionais e formas novas de apreciação destas culturas. É preciso considerar a cultura no sentido antropológico, refletindo sobre o vínculo cultura-nação, incentivando o conhecimento dos grupos sociais. “A questão primordial é entender a cultura de um grupo e principalmente das classes populares, porque contestam a ordem social”.
(Mattelard, 2004, p. 13 e 14).

“A liberdade está continuamente criando a si mesma. Como diz Kierkegaard, liberdade é expansibilidade. A liberdade possui uma qualidade infinita. A liberdade de ser é essencialmente um estado interior. Esse“núcleo”, esse “lugar secreto”, é absolutamente necessário para a nossa sobrevivência como seres humanos. É o que proporciona à pessoa um senso de ser; permite a experiência de autonomia, identidade, a capacidade de usar o pronome “Eu” com toda a sua amplitude de significado”. (Autor: Rollo May – livro: Liberdade e Destino – Editora Rocco – Rio de Janeiro – 1987).

Neste período histórico, de desintegração  da preocupação com o bem público e com a honra particular, nesta época de extinção de valores, nossa recuperação deve ser baseada na liberdade construtiva, que é a fonte de todos os valores. Desenvolvemos a nossa cognição baseando-nos na experiência de autonomia, senso da descoberta das próprias possibilidades, e tudo o que decorre da livre escolha. “Liberdade é a possibilidade de “realização pessoal” baseada na opção pessoal”, no contato livre e no empenho espontâneo ou na iniciativa individual”.

As propostas de questionamentos culturais sempre aconteceram e continuam a se atualizar, em países adiantados, que desfrutam de espaços em horários nobres de discussões de como crescer como pessoa, numa sociedade justa e progressista. Em países subdesenvolvidos onde a massificação das identidades, dentro de uma cultura, é cuidadosamente implantada pela sociedade de consumo, requer um plano de reação construtiva, que repense valores, sentidos e significados, que resgatem a liberdade que fortalece a criatividade, que é a maior realização de um povo. NoamChomski em seu livro com o título “For Reasons of State” em 1973 argumenta: O pensamento de fazer a liberdade de escolha, proporcionou à ciência, em todos os seus aspectos, uma reorientação mais poderosa do que qualquer revolução anterior”.  

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