sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O RESPEITO PELA AUTONOMIA DO OUTRO

                   REGINA  DINIZ

“Eles são menos excluídos do que abandonados, como se estivessem encalhados na margem, depois que a corrente das trocas produtivas se desviou deles. Tudo se passa como se redescobríssemos com angústia uma realidade que, habituados com o crescimento econômico, com o quase pleno emprego, com os progressos da integração e com a generalização das proteções sociais, acreditávamos esconjuradas: a existência, novamente, de inúteis, de “inúteis para o mundo”,  pessoas e grupos que se tornaram supranumerários diante da atualização das competências econômicas e sociais. Esse estatuto é de fato, completamente distinto daquele que ocupavam até mesmo os mais desfavorecidos na versão precedente da questão social. Assim, o trabalhador braçal ou operário especializado das últimas grandes lutas operárias, explorado sem dúvida, não lhe era menos indispensável. (Autor: Robert Castel
- livro:As Metamorfoses da Questão Social – Editora Vozes – 2012).

Os excluídos, a pobreza extrema ocupa o último lugar da sociedade e nunca foi pensado em todo o mundo uma maneira de inseri-los no quadro de uma possível integração. Este plano reformista em termos de redução das desigualdades, de política de salários, de promoção de oportunidades sociais e de meios de participação cultural nunca foi discutido. Nunca esta vertente humanística em termos de transformação total da estrutura social para garantir a todos uma real igualdade de condição foi sugerida.

Por milênios e milênios o nosso planeta demonstrou uma indiferença humana inexplicável pelos chamados supérfluos. Tão desprezados e humilhados não representam um potencial de luta política e não possuem condições de pedir ajuda. Podemos dizer sem condições nenhuma de pedir socorro para uma vida mais humana. São considerados supérfluos porque não fazem nada de socialmente útil, portanto não existem socialmente. Eles estão bem presentes e isso é o maior problema, pois são numerosos demais.     

“Sempre que a questão do reconhecimento é levantada, é porque certa categoria de pessoas se considera relativamente prejudicada e não vê fundamento para essa privação. Como sabemos pelo estudo clássico da injustiça de Barrington Moore Jr., as queixas de privação raramente eram manifestadas no passado simplesmente porque grupos de pessoas se encontravam em condições de desigualdade (se isso aconteceu, o número relativamente pequeno de rebeliões ao longo da história humana seria um mistério). Baixos padrões de vida, por mais infames, miseráveis e repulsivos para um observador de fora, foram em geral, suportados com humildade e não levaram à resistência quando duraram por longo tempo e foram incorporados pelas vítimas como “naturais”. Os despossuídos se rebelaram não tanto contra o horror de sua existência como contra  uma “volta do parafuso, contra terem que enfrentar mais  demandas ou receber menores recompensas do que antes; em uma palavra, não se rebelaram contra condições repugnantes, mas contra a mudança abrupta  das condições a que estavam acostumados e suportavam. A “injustiça” contra a qual estavam prontos a se rebelar era medida em relação às suas condições de ontem e não pela comparação invejosa com as outras pessoas à volta”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Comunidade – a busca por segurança no mundo atual – Ed. ZAHAR – 2003). 

Ao longo de sua história, os homens se colocaram certos objetivos, em que não apareciam os desejos de felicidade baseada na riqueza. No que diz respeito à sobrevivência, da estruturação de um grupo social, das operações ou ideologia técnica, a preocupação com a felicidade não aparecia. (Foi uma novidade proclamada pela revolução moderna) a possibilidade de produção de abundância e de garantia de uma vida material melhor, uma vida mais fácil, longe dos perigos, do cansaço, da doença e da fome.

A sociedade moderna proclama, que a felicidade não era só a melhoria do padrão de vida, mas o grau de felicidade dos homens e mulheres envolvidos, que devia justificar (ou condenar caso aquele grau se recusasse a chegar a níveis cada vez mais altos) a sociedade e todos as suas obras. Nesta procura desesperada pela felicidade a esperança de sucesso tornou-se a motivação principal da participação do indivíduo na sociedade. Esta busca de felicidade materialista tornou-se até os dias de hoje num dever, e no supremo princípio ético. Os obstáculos responsabilizados ou suspeitos de bloquear essa busca  passaram a constituir o sistema de injustiça e uma causa legítima de rebelião.     

“Eu sou para o outro, quer o Outro, seja para mim ou não; o seu ser para mim é, por assim dizer, problema dele, e se e como ele trata este problema não afeta minimamente o meu ser para Ele (da mesma forma que o meu ser para o Outro inclui respeito pela autonomia do Outro, que por sua vez inclui meu consentimento de não chantagear o Outro para ser-para-mim, nem interfere de qualquer outra maneira com a liberdade do Outro). O que quer que possa conter a mais o “eu para ti”, não contém uma exigência de repagamento , espelhado ou “contrabalançado” no “tudo-para-mim”. Minha relação ao Outro não é reversível; se acontece ser respondida na reciprocidade não passa de acidente  do ponto de vista do meu ser-para”. (Autor: Zygmunt Bauman – livro: - Ética Pós-Moderna – Ed.Paulus – 4ª edição – 2010).

Nos relacionamentos humanos não podemos chegar como alguém a quem possamos conhecer, representar, reduzir a uma imagem, dominá-lo como pessoa, mas tratá-lo como alguém a quem podemos acolher, dar abrigo, permitindo, que tome a palavra para nos dizer, pedir, propor o que entender. Sendo o outro completamente exterior a mim, resta-me  acolhê-lo e esperar que ele me fale convidando-me à relação ética. Acolher o outro é, então, a apreensão, sem choque, daquilo que o outro tem para dizer, vindo de uma distância da qual nada sei e sobre o qual nada posso.

O acolhimento pacífico do outro tem a ver com as condições do próprio encontro: o eu está disponível para acolher, sem ocupar o primeiro plano, sem ditar leis, sem impor interesses ou vontades próprias; e o outro chega desarmado, despojado dos seus bens, dos seus títulos e dos seus contextos. Portanto quando acolhemos alguém, não importa que seja rico ou pobre, desta ou daquela etnia, cultura, religião, ideologia etc..., exercendo esta ou aquela profissão, desempenhando este ou aquele cargo, com este ou aquele passado, com este ou aquele presente, uma vez que nada disso é importante, porque nada disso conta. O ser humano significa por si mesmo, e isso chega. 

“Ser pessoa moral significa que eu sou guarda de meu irmão. Mas também significa que eu sou guarda de meu irmão quer o meu irmão veja, quer não seus próprios deveres fraternos da mesma forma que vejo; e que eu sou guarda de meu irmão não importando o que os outros irmãos, reais ou putativos, fazem ou podem fazer. Pelo menos, eu só posso ser adequadamente seu guarda se ajo como se eu fosse o único obrigado, ou mesmo apto, a agir dessa maneira. Eu sou sempre aquele que carrega aquela palha que quebrará as costas do camelo da indiferença moral. É essa unicidade (não “generabilidade”), e essa não- reversibilidade de minha responsabilidade, que me coloca no relacionamento moral. Isso é o que conta, quer façam, quer não todos os irmãos do mundo por seu próprio irmão o que eu estou a ponto de fazer. Seu eu fosse buscar padrões pelos quais deva ser medida minha responsabilidade moral para se ajustar a meu impulso moral, eu não os encontraria nas normas que posso exigir razoavelmente que os outros sigam.  “ O eu sempre tem uma responsabilidade a mais que todos os outros”. (Autor: Emmanuel Lévinas – livro: Ethics and Infinity – 1985 – Pittiburgh).

A minha responsabilidade é sempre um passo a frente, sempre maior que outro. Sinto o conforto das normas éticas já existentes, que serve para guiar-me, para assegurar-me de que atingi o limite do meu dever e assim me livrar da ansiedade a qual chamo de consciência culpada. O padrão pelo qual eu (somente eu) meço a minha própria responsabilidade é o padrão da justiça ética, é um plano que só eu posso estabelecer para mim e não posso impor perante outras pessoas como a medida de sua moralidade. O padrão da justiça ética é um padrão além e acima da medida da medida de decência moral, medida que é partilhada e universal.


“O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que a minha responsabilidade sente. A simples regra de respeitar a privacidade de outrem e tornando o respeito visível é fundamental. O resto do tempo, estou em situações carregadas  moralmente, e isso significa que estou  no que me é próprio. Pensar nas situações-limite é estar no solo em que as morais germinam, crescem, florescem, murcham e renascem. “A lógica da evolução, a forma que a evolução deu à sobrevivência, pode afiançá-la: se há vantagens em ser participante de uma troca recíproca, e se é mais provável que alguém seja relacionado como participante se tem genuíno interesse por outros, há vantagem evolutiva em ter genuíno interesse por outros”. (Autor: Peter Singer – Livro: The expanding circle: Ethics and sociobiology, - 1981).        

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