REGINA DINIZ
“A
tomada de consciência de uma vulnerabilidade de massa, que torna cada vez mais
fictícia a propensão a reduzir a questão social ao tratamento de dois grupos
extremos: os indigentes incapazes de trabalhar, que são assistidos, e os
vagabundos, que são reprimidos. De outro lado, uma transformação da concepção do
trabalho, que não é mais só um dever que responde a exigências religiosas,
morais ou mesmo econômicas. O trabalho torna-se a fonte de toda a riqueza, e,
para ser socialmente útil, deve ser repensado e reorganizado a partir dos
princípios da nova economia política”.( autor: Robert Castel – livro: As
Metamorfoses da Questão Social – Ed. Vozes – 2012).
Uma
parcela da população acredita que a condição de miséria de milhares de pessoas
espalhadas pelo mundo é causada pela preguiça, falta de interesse pelo
trabalho, acomodados à espera de
programas sociais oferecidos pelo governo, acham que só não trabalha quem não quer,
mas isso não é verdade. Segundo os órgãos internacionais existem hoje,
aproximadamente, 850 milhões de pessoas desempregadas, algumas profissões foram
superadas, outras completamente extintas, o crescimento constante de
tecnologias provoca alterações no mercado de trabalho em todo o mundo. Tantas
tecnologias e avanços não trazem benefícios a todos, a robotização e a
constante evolução colocam em risco milhões de postos de trabalho, provocando
uma exclusão gigantesca.
Várias
são as conseqüências negativas do estágio tecnológico, que a atual sociedade
presencia e certamente o desemprego é um dos piores, se continuar retirando
postos de trabalho o mundo poderá entrar em colapso. Em países desenvolvidos já
são visíveis os problemas decorrentes do desemprego, como o aumento da
criminalidade. As autoridades ainda não propuseram soluções que aliem
tecnologia e empregabilidade já que as pessoas sobrevivem da renda de seu
trabalho. A solução momentânea é a requalificação profissional, quem perde o
seu emprego deve passar por treinamentos e reciclagens. Só assim poderão
encontrar uma outra atividade e assumir uma nova vaga no concorrido mercado do
trabalho moderno.
“Direita
e esquerda propõe dois conjuntos de reflexões. A afirmação central é que a distinção entre
esquerda e direita continua viva e saudável, pois está baseada em duas visões
fundamentalmente diferentes de
igualdade, que separam de forma permanente a esquerda e a direita. Na
caracterização, a esquerda vê a desigualdade natural entre os seres humanos
como menor que sua igualdade, a maior parte das formas de desigualdade como
sendo socialmente alterável, que poucas
- se é que alguma – são positivamente funcionais e que demonstrarão cada
vez mais sua própria efemeridade histórica. A direita está comprometida com a
visão de uma desigualdade natural entre seres humanos maior que sua igualdade,
com a idéia de que poucas formas de desigualdade são alteráveis, que a maioria
delas é socialmente funcional e que sua evolução não pode ser direcionada”. (
Autor: Perry Anderson – Livro: Espectro – Ed. Boitempo – 2012).
É
possível acreditar que os seres humanos são mais iguais que desiguais e que,
apesar disso muitas desigualdades sociais podem e devem ser eliminadas. A
esquerda na história humana é incentivada por um sentido mais duradouro do
movimento na direção da igualdade. No âmbito da política o conceito de
igualdade descreve a ausência de diferenças de direitos e deveres entre os
membros de uma sociedade. Para Anderson, o marxismo é a forma de explicação que
permite a revisão dos valores sociais básicos como a defesa da igualdade, da
democracia e de uma sociedade livre sem desigualdades: nenhum movimento
político realizou exatamente aquilo que se propõe levar a cabo e nenhuma teoria
social prevê jamais o que irá justamente ocorrer.
Atualmente,
fala-se na terceira reinvenção da democracia, que surge como um movimento
reforçado pelos apelos dramáticos da juventude. Acontece uma forte pressão para
a democracia se reformar numa direção mais humana. Pesquisas confirmam que
democracias não guerreiam entre si. Com a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) as nações tornaram-se economicamente
interdependentes. O Estado de bem-estar social pacificou os antagonismos de
classe. ONGS e cúpulas internacionais sobre população e meio ambiente mostram
que uma esfera pública mundial está se reformando.
“Todos
nós, em maior ou menor grau, entendemos o mundo em que habitamos como cheio de
riscos, incerto e inseguro. Nossa posição social, nossos empregos, o valor de
mercado de nossas habilidades, nossas parcerias, vizinhanças e redes de amigos
em que podemos nos apoiar, são todas instáveis e vulneráveis, portos inseguros
para ancorar nossa confiança. Na verdade, a vida está repleta de ansiedade e
medos, e poucas pessoas diriam que não
mudariam nada nela se tivessem chance. Nossa sociedade de risco enfrenta uma
tarefa assustadora, quando se trata de conciliar seus membros com os riscos e
pavores da vida cotidiana. É essa tarefa que os pobres apresentados como uma
subclasse de proscritos, tornam um pouco mais fácil. Se seu tipo de vida é a única alternativa
para “permanecer no jogo”, então os riscos e os horrores de um mundo flexível e
com uma incerteza perpétua parecem um pouco repulsivos e insuportáveis, isto é,
eles se sentem melhor do que em qualquer outra opção possível”. (Autor:Zygmunt
Bauman – Livro: A Sociedade Individualizada – Ed.Zahar – 2008).
“O
encarceramento no Brasil está funcionando a todo vapor. O nosso país como solução fecha escolas e inaugura novos
presídios. Segundo os levantamentos realizados pelo Instituto Avante Brasil, em
apenas 6 meses (dez | 2011) – jun \ 2012), a população carcerária cresceu 6,8%,
crescimento assombrosamente expressivo. O crescimento no Brasil na última
década (2003 – 2012) aumentou para 78% no montante de encarcerados do país. O
número de presos explodiu e gera superlotação. O Brasil está em quarto lugar no
mundo com o total de 549.577 com a taxa de ocupação de 184 %.
A Ética no período da modernidade foi alijada das
relações humanas, das questões do convívio humano pela ciência positivista,
pela racionalidade técnicas e científicas, utilitaristas e promotoras do poder e
do poder do dinheiro, da produção. Reféns do mundo sistêmico, do poder e do
dinheiro, o desenvolvimento econômico e tecnológico tem beneficiado um pequeno
número de pessoas no mundo, em detrimento de condições mínimas de vida, sendo
uma máquina de exclusão social. As tragédias decorrentes da ganância, e da
incompetência social e de corrupções estruturais e pessoais, continuam ceifando
vidas e impedindo dignidade e educação para a maioria da população mundial. É
urgente a redistribuição dos Bens Educacionais e dos Bens Culturais. Precisamos
aprender a socializar as recompensas.
“Aquele que chega ao encontro é absolutamente outro
– é outrem – em relação a mim, em relação a nós, em relação a mim, em relação a
nós, em relação a qualquer conhecimento e, até, em relação a si mesmo, pois há
nele uma verdade no ato do encontro, a que ele próprio assiste. Nesta medida, o
outro da relação face a face é também uma revelação para si próprio. Mas será
esse encontro inevitável ainda que seja a única maneira de o poder conhecer? Na
verdade, não é. O encontro face a face é uma decisão minha, não é um acidente,
não acontece por acaso, apenas se eu o desejar e se decidir fazê-lo. Sem desejo
e decisão éticas, nunca nos encontraremos
com ninguém no sentido da proximidade ética, ainda que possamos viver
fisicamente muito próximos de outras pessoas e nos relacionemos todos os dias
com muita gente”. (Autor: Emmanuel Lévinas – Livro: Totalidade e Infinito –
Edições 70. Ltda. – Lisboa – Portugal -
2010).
A
primeira questão da ética de Lévinas é desvendar que desejo é este que nos faz
iniciar um movimento em direção ao outro. Diz o autor que: “O outro
metafisicamente desejado não é o “outro” como o pão que como, como o país que
habito, como a paisagem que contemplo, como, por exemplo, eu para mim próprio,
este “eu” esse outro”. Dessas realidades, posso nutrir-me, e, em grande
descoberta, satisfazer-me, como simplesmente me tivessem faltado. Surge a
alteridade que é a compreensão do pressuposto básico de que todo o homem social
interage e interdepende de outros indivíduos.
Para
que haja respeito entre todos é necessário que em todos haja um muito de alteridade.
Pensando profundamente a sua alteridade que é a capacidade de se colocar no
lugar do outro na relação interpessoal, relação com grupos, família, trabalho,
lazer é a relação que temos com os outros, com consideração, identificação e diálogo.
Para nos relacionarmos com outras pessoas ou grupos é preciso conhecer a
diferença, compreender a diferença e aprender com a diferença, respeitando o
indivíduo como ser humano psicossocial.

Nenhum comentário:
Postar um comentário