quinta-feira, 14 de novembro de 2013

NOVAS FORMAS DE SERMOS NÓS O POVO

REGINA DINIZ

“Todo homem tem direito à subsistência: esta verdade fundamental de toda sociedade, e que reclama imperiosamente um lugar na Declaração  dos Direitos do Homem, pareceu ao Comitê ser a base de toda  lei, de toda instituição política que se propõe extinguir a mendicância. Assim, cada homem tendo direito à subsistência, a sociedade deve prover à subsistência, de todos os seus membros que poderão estar carentes dela, e esta benéfica assistência não deve ser encarada como um favor; é, sem dúvida, a necessidade de um coração sensível e humano, o desejo de todo homem que pensa, mas é o dever estrito e indispensável de todo homem que não está na pobreza, dever que não pode ser aviltado nem pelo nome nem pelo caráter da esmola; enfim, ela é uma dívida inviolável e sagrada para toda a sociedade”. (autor: Robert Castells – Livro: As Metamorfoses  da Questão Social – Uma Crônica do Salário – Editora Vozes – 2012).

Aceitando o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus Direitos inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. Abertamente, a contemporaneidade admite que o desconhecimento e o desprezo aos Direitos do Homem que conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e a possibilidade de um mundo em que os seres humanos sejam livres para falar e crer, libertos do terror e da miséria, que foi declarado como a mais alta inspiração do homem. Temos consciência em proclamar a fé nos Direitos Fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade dos Direitos dos Homens e das Mulheres instaurando melhores condições de vida aos excluídos (miséria extrema). A contemporaneidade desrespeita violentamente os Direitos Humanos ao não debater este problema social, que envergonha e marca-o como o mais atrasado de todas as civilizações em todos os tempos.

Estamos no limiar de um grande desafio no século XXI, qual seja manter o respeito à dignidade humana. O direito à vida à vida é inato: quem nasce com vida tem direito a ela. O direito a vida significa o direito à comida, às vestes, aos remédios, à casa. O direito à dignidade humana pressupõe o direito ao salário mínimo que o direito à existência. O Estatuto da Criança e do Adolescente têm a proteção à vida e a saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso em condições dignas de existência.


  “Originalmente, o que prometiam os pensadores da modernidade emergente era uma liberdade ativa, a liberdade de fazer as coisas e refazê-las para  melhor se adequarem a existência humana. O que tinham em mente era a liberdade do ser humano. Liberdade que tinha como elemento primordial a capacidade de dar às coisas uma forma tal que os membros da espécie não fossem mais impedidos de agir de acordo com o mais humano dos seus dons naturais: o poder de fazer juízos racionais e se portar segundo os preceitos da razão. Era na capacidade humana de agir, na capacidade coletiva da espécie de corrigir erros e descuidos da natureza e os seus próprios erros e desleixos do passado que se esperava encontrar um inabalável alicerce para a liberdade individual – liberdade de seguir o caminho da razão, Só dentro da coletividade todo-poderosa o indivíduo poderia ser realmente livre – quer dizer, não ser escravo de suas paixões e desejos pré-humanos ou inumanos”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política – Ed. Zahar – 2000).

O ser humano na sociedade pós-moderna vivencia uma individualidade privatizada que pensando com profundidade, significa essencialmente uma antiliberdade. Luta desesperadamente para fugir à insegurança e incertezas que o assaltam. “Em 1993 Jacques Pradel diagnosticou  – rompemos com o tudo aprendido até então: que as emoções são sinais de fraqueza, que é feio e errado chorar”. Por milênios foi cultuado o direito ao segredo que foi esfacelado pelo direito à publicidade. Tornar público o que quer que desperte ou possa despertar curiosidade virou o cerne da idéia de uma coisa ser do interesse público.

As pessoas ficaram sozinhas para resolver seus problemas e mergulharam na solidão. Hoje, sabem que só podem contar consigo mesmas, com sua própria vontade e determinação. Mas milênios de reflexão ética jamais poderiam ter sido sepultados, ela sobreviveu acima da tudo. Surgiram novas interpretações que procuraram vivificar o que era essencialmente correto, pois somos herdeiros de vasto conteúdo ético. Atualmente, qualquer empresa dispõe de especialistas em comportamento para fazerem a triagem em qualquer trabalho. Os valores éticos são tão atuais como sempre foram.   

“Descrevendo positivamente o rosto, e não apenas de um modo negativo. O senhor lembra-se daquilo que dizíamos: a abordagem do rosto  não é da ordem da percepção pura e simples , da intencionalidade que se encaminha para a adequação. Positivamente, diremos que, desde que o outro me olha, sou por ele responsável, sem mesmo ter de assumir responsabilidades a seu respeito; a sua responsabilidade incumbe-me. É uma responsabilidade que vai além do que faço. Habitualmente, somos responsáveis por aquilo que pessoalmente fazemos. Digo, em  Autrement  qu’être, que a responsabilidade é inicialmente um por outrem. Isto quer dizer que sou responsável pela sua própria responsabilidade”. (Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ética e Infinito – Edições 70, Ltda – Lisboa – Portugal  - agosto de 2010 ).

Não restam dúvidas que o rosto do ser humano me faz uma exigência ética, perante a qual só eu posso responder. Na realidade, quando alguém me dirige um apelo, a resposta a esse apelo é sempre da minha responsabilidade, em todas as solicitações, das mais simples às mais exigentes. Se alguém me diz bom dia devo responder amavelmente. Se alguém me solicita ajuda para atravessar a rua, cabe-me a mim ajudá-lo para atravessar a rua, cabe-me a mim ajudá-lo a atravessar. Se alguém me pede um prato de comida, uma peça de vestuário, uma palavra de conforto, sou a única responsável pela resposta.

“A responsabilidade não é um simples atributo da subjetividade, como se esta existisse já em si mesma, antes da relação ética. A subjetividade não é um para si: ela é, mais uma vez, inicialmente para o outro”. (Autor :Lévinas  - Livro - Ética e Infinito). Trata-se de afirmar a própria identidade, do eu humano a partir da responsabilidade, isto é, a partir da posição ou da deposição do eu soberano na consciência de si, de posição que é precisamente a sua responsabilidade por outrem. A responsabilidade é o que humanamente me incumbe, pois o meu dever, o qual não posso recusar. Este encargo é uma suprema dignidade do único. Sou apenas na medida em que sou responsável.

“Ninguém esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensangüentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de inveja pública a alvos de desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos, lutando pela sobrevivência. Entretanto, nas margens de um mundo que havia chegado ao limite de sua capacidade de propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos, e compartilhar a sua vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para encontrar novas formas de sermos nós, o povo. ( Autor: Manuel Cartells – livro: Redes de Indignação e Esperança – Ed. Zahar Ltda -  1ª. Edição – Rio de Janeiro – 2013).

Np início eram muitos poucos, mas em pouco tempo formaram-se redes de milhares, que ganharam o apoio de milhões e que com os seus apelos justos, desejavam recriar dentro de si a esperança de um mundo melhor para todos ultrapassando ideologias e publicidades demagógicas, para se unir com propostas reais de pessoas reais que foram reivindicadas. Fizeram uma grande
Descoberta que se tornou realidade, surgiram as Redes Sociais da Internet, totalmente autônomas, totalmente livres de governos e empresas, que há séculos haviam monopolizado totalmente os canais de comunicação, implantando alicerces profundos de seu poder. Chegou em tempo de articular mentes, recriar novos significados existenciais, contestando o poder de poucos sobre muitos.


Compartilhando no espaço público da Internet, unido-se com qualidade entre si, planejando projetos a partir de múltiplas fontes de ser, formaram redes, e mediando as suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se, e se ajudaram em nome de Direitos Iguais para Todos. Conseguiram perceber que a dominação ultrajante dos poderes constituídos estava totalmente acabada. Da segurança do ciberespaço, pessoas de todas as idades passaram a ocupar o espaço público, porque desejavam criar, ao reivindicar seu direito de fazer a história numa demonstração de autoconsciência que sempre caracterizou os grandes movimentos sociais.  

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