quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

AS GRANDES CONCENTRAÇÕES DE TRABALHADORES

REGINA DINIZ

“As grandes concentrações de trabalhadores sempre supuseram o trabalho forçado. Os grandes trabalhos e as minas da Antiguidade, como o sistema colonial de plantações, basearam-se na escravidão. As riquezas do Novo Mundo foram extraídas graças ao trabalho forçado dos indígenas que, muito freqüentemente, dele morreram. Privadas de escravos, pelo menos em suas metrópoles, e também do equivalente de reservas de índios onde se abastecer de mão de obra, as sociedades do Ocidente, cristãs além do mais, tiveram que resolver um problema difícil: encontrar e mobilizar trabalhadores para certos tipos de tarefas que ninguém aceitaria, se pudesse fazer outra coisa ou não fazer outra coisa ou não fazer absolutamente nada. Independentemente mesmo das motivações morais, que sempre incitam a punirem pobres coitados, supostos viciosos e perigosos, compreende-se a concentração do interesse sobre algumas categorias de outcastes, vagabundos, condenados a trabalhos forçados, condenados à galera, para executarem um tipo de trabalho que qualquer homem  de bem só pode recusar.”( Autor: Robert Castel – Livro:AS Metamorfoses da Questão Social – Uma Crônica do Salário – 10 Ed. – Editora Vozes – 1998).

Os afros-descendentes têm sua origem a partir dos escravos que vieram para o Brasil entre os séculos XVI e XIX, fato que se caracterizou como uma migração involuntária, foram forçados, não vieram por livre e espontânea vontade. No decorrer dos séculos citados, o país recebeu cerca de 4 milhões de africanos. Atualmente, esse grupo étnico se concentra na região Nordeste e Sudeste, áreas onde se encontram as principais fazendas de cana-de-açúcar e café. Tardiamente foi sancionada em agosto a Lei número 12.711/2012 que garante a reserva de 50% das matrículas  por curso e turno nas 59 universidades federais de educação, ciência e tecnologia e alunos oriundos integralmente do ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência.

As vagas reservadas às cotas (50% do total de vagas da instituição) serão subdivididas – metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capta e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior e um salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também será levado em conta percentual mínimo correspondente ao da soma de afros-descendentes e indígenas no estado, de acordo com o último senso demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Já no fim dos períodos vitoriano e edwardiano, argumenta Ferdinand Mount, esse duplo dogma – simplificação de classes e degradação das classes inferiores – havia se transformado em idéia fixa entre a intelligentsia britânica, desencadeando as visões pesadelares de massas abrutalhadas e imbecilizadas que encontramos nos textos de  Gissing, Wells, Woolf, Lawrence,  Eliot e similares. Ao final, essa montanha de negligência  inevitavelmente afetaria aqueles que eram objeto de tal desprezo. Mais grave ainda, contudo, foi o impacto desses mitos sobre as elites obcecadas, por eles, que passaram a acreditar que as classes inferiores, desamparadas e ao mesmo tempo perigosas, precisavam desesperadamente  de salvação. Se deixadas na escuridão, poderiam um dia levantar-se e destruir o templo da sociedade, com elas dentro. Era, portanto, obrigação do Estado  intervir e melhorar suas condições de vida. Assim foi que, após um longo e impiedoso bombardeio intelectual, comprometendo a confiança e a auto-estima da classe trabalhadora, um regimento de panzers burocráticos avançou sobre as defesas enfraquecidas, passando por cima ou suprimindo as instituições populares que havia criado.”Autor::Ferdinand Mount – Livro: Mind the Gap). – Citação feita por Perry Anderson – Livro: Espectro  - Ed.Boitempo Editorial  -   Janeiro de 2012)”.

No livro “Vigiar e Punir” Michael Foucalt se dedica à análise das funções jurídico-políticas da pena do absolutismo. É interessante mostrar como as penas físicas (suplícios que causavam marcas de poder no corpo) e os rituais organizados estavam na realidade, representando mais do que relações de justiça, mas sobretudo relações de força (entre o soberano e o povo). No Brasil, que é marcado por profundas desigualdades sociais combinadas com recuo das proteções coletivas, precarização do trabalho e Estado Penal, se torna necessário refletir sobre como vem se consolidando os sistemas punitivo neoliberal, que por todas as razões expostas, repercute de forma bastante cruel sobre os mais pobres, seja pela violência direta (ações policiais) ou pela violência indireta, exclusão do mercado de trabalho, do sistema de saúde, da educação, da cultura etc...

 Pierre Bordieu, em se livro Contra Fogos são citadas táticas para enfrentar a invasão neoliberal, que mostra como vem sendo montado pelo programa neoliberal um novo exército de  reserva  de mão de obra docilizada  pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego, no qual o fundamento último de toda essa ordem econômica sob a chancela invocada da liberdade dos indivíduos é efetivamente a violência estrutural do desemprego, da precariedade e do medo inspirado pela ameaça de demissão. A condição de funcionamento “Harmonioso” do modelo micro-econômico individualista e o princípio da “motivação individual” para o trabalho residem, em última análise, num fenômeno de massa, qual seja, a existência do exército de reserva dos desempregados. Nem se trata a rigor de um exército, pois o desemprego isola, atomiza, individualiza, desmobiliza e rompe com a solidariedade.

“Na vida humana, tudo conta, porque os seres humanos são mortais e sabem disso. Tudo o que os mortais humanos fazem tem sentido devido a esse conhecimento. Se a morte algum dia fosse derrotada, não haveria mais sentido em todas aquelas coisas que eles laboriosamente juntam, a fim de injetar algum propósito em sua vida ab surdamente breve. Esta cultura que conhecemos  - as artes, a política, a intricada teia de relações humanas, ciência ou tecnologia foi concebida no ponto do trágico, mas fatal, encontro entre o período finito da existência  física humana e a infinitude da vida espiritual humana. O ponto crucial da questão é que o conhecimento da mortalidade significa, ao mesmo tempo, o conhecimento da possibilidade de imortalidade. Em conseqüência, não se pode estar ciente da mortalidade sem encarar a inevitabilidade da morte como uma afronta e uma indignidade, e sem pensar nas maneiras de corrigir o erro. Estar ciente da mortalidade significa imaginar a imortalidade, sonhar com a imortalidade, trabalhar com vistas à imortalidade ainda que seja somente esse sonho que enche a vida de significado”. (Zygmunt Bauman – livro: O Mal-Estar da Pós-Modernidade – Ed.Zahar – 1997).

Pergunta-se: Alma e consciência são sinônimas? A alma é imortal? Se sim, para onde ela vai depois que morremos? Sem respostas definitivas da ciência, o homem busca nas crenças religiosas, explicações para o fenômeno da morte. Para uns, trata-se de uma passagem, uma transição desta vida para outra, mais plena e mais feliz. Para outros é o momento máximo de iluminação, uma forma de libertação do sofrimento. Pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independente das crenças tem menos medo da morte. A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à idéia da finitude. Na religião o indivíduo convive melhor com a finitude, porque lá encontra certezas sobre por que morre e o que acontece após a morte.

Se há uma outra vida que se segue a morte, existiria uma continuidade da mente ou do espírito. Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis pelas conseqüências de nossos atos. A visão espiritual da morte implica profundo desapego. É por meio da aceitação da impermanência humana que a religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a idéia de transcendência do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim e ao propor que ele perdure em algum lugar, existindo de alguma outra maneira.

“Movimentos sociais conectados em rede espalharam-se primeiro no mundo árabe e foram confrontados com violência assassina pelas ditaduras locais. Vivenciaram destinos diversos, incluindo vitórias , concessões, massacres repetidos e guerras civis. Outros movimentos ergueram-se contra o gerenciamento equivocado da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, por governos que se colocavam ao lado das elites financeiras responsáveis pela crise à custa de seus cidadãos: Espanha, Grécia, Portugal, Itália (onde mobilizações de mulheres contribuíram para por fim à bufa comedia de Berlusconi), Grã-Bretanha (onde a ocupação de praças e a defesa do setor público por sindicatos e estudantes e se deram as mãos)e, com menos intensidade, mas simbolismo semelhante, na maioria dos outros países europeus. Em Israel, um movimento espontâneo com múltiplas demandas tornou-se a maior mobilização de base da história do país, obtendo a satisfação de muitas de suas reivindicações. ( Autor:Manuel Castells – Livro: Redes de Indignação – Zahar – 2012 ).

Que milagre foi este? O que foi que aconteceu para que mais de 1 milhão e meio de pessoas em 19 capitais e mais de 100 cidades brasileiras saíssem às ruas protestando? Qual é a natureza e o sentido das manifestações que tomaram o país, configurando o maior movimento popular da história do Brasil? Para qual direção apontam? São interrogações que persistem em nossas interpretações. Como fenômeno complexo, os atuais movimentos sociais desafiam analistas que desejam às interpretações definitivas, já que a velocidade vertiginosa dos acontecimentos impede inferências sobre as tendências futuras. É desafiador refletir sobre as perspectivas abertas pela dinâmica dos movimentos neste tempo de redes sociais ativas.


Manuel Castells disse: Tenho dito que pensar a democracia  para além do voto não é mais coisa de “esquerdista radical” é coisa de gente que enxerga o óbvio. Algum partido brasileiro está enxergando isso? Não. É necessário levar para as ruas daqui e de todo o mundo a idéia de que é necessária uma reconstrução da democracia. Não uma destruição, mas uma reconstrução da democracia. Mas essa reconstrução não pode ser realizada por aqueles que representam a democracia, neste momento, por isso vai contra o seu interesse enquanto grupo profissional, enquanto grupo político e se há um político bem intencionado dentro do partido ele é logo podado. Então o problema não é meramente individual desse ou daquele político – mas de um sistema entranhado por interesses poderosos. É esse sistema que está bloqueando as mudanças. Em tempos de discussão da reforma política no Brasil vale o questionamento. Quais interesses estão bloqueando as grandes mudanças? Se as instituições – incluídas aí os partidos políticos – já não dão conta de absorver e dar resposta aos  anseios e angústias dos indivíduos (que por vezes sequer podem ser chamados cidadãos), um novo modo de fazer política surge no horizonte. Como será esta nova política? Isto dependerá apenas de nós. Não temos nada a perder a não ser o nosso medo. 

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