REGINA DINIZ
Novos
incrementos na renda não aumentam o volume de felicidade. O que essas
descobertas indicam é que, ao contrário da promessa vinda lá do alto e das
crenças populares, o consumo não é um sinônimo de felicidade nem uma atividade
que sempre provoque sua chegada. O consumo visto na esteira hedonista, não é
uma máquina patenteada para produzir um volume crescente de felicidade. O
contrário parece ser válido: como os relatórios coligidos com muito cuidado
pelos pesquisadores deixam implícitos, entrar numa “esteira hedonista” não faz
aumentar a soma total da satisfação de seus praticantes.” (Autor:Zygmunt Bauman
– Livro: Vida para o consumo – a
transformação das pessoas em mercadoria – Ed. Zahar – 2007 – Rio de Janeiro).
Além
de ser um excesso e um desperdício econômico, o consumismo também é, por essa
razão, uma economia do engano, atingindo massas culturalmente atrasadas e
manipuláveis. Ela aposta na irracionalidade dos consumidores, e não em suas
estimativas sóbrias e bem informadas; estimula emoções consumistas e não
cultiva a razão. O descarte de sucessivas ofertas de consumo das quais se
esperava a satisfação dos desejos estimulados e de outros ainda a serem
induzidos deixa atrás de si toneladas crescentes de expectativas frustradas.
A
possibilidade de aumentar o mundo com pessoas mais afetuosas e induzi-las a serem solidárias com as outras não figura
nos objetivos criados pela utopia
consumista.. Os indivíduos da opulência (falsa) não se encontram rodeados, como
sempre acontecera, por outras pessoas, mas por objetos. O indivíduo pobre é
forçado a uma situação na qual tem de gastar o pouco dinheiro ou os parcos
recursos de que dispõe com objetos de consumo sem sentido, e não com suas
necessidades básicas, para evitar a total humilhação social e evitar a
perspectiva de ser provocado e ridicularizado. A violência explode em todas as
culturas consumistas.
“A
aceitação do eu, do destino, da vocação própria, está a conclusão de que o
principal caminho para a saúde e a auto-realização das massas é através da
satisfação e não da frustração das necessidades básicas que é interpretada como
se significasse objetos, coisas, possessões, dinheiro, roupas, automóveis
etc... As necessidades básicas são: 1 – proteção e segurança; 2 – pertença,
como numa família, uma comunidade, um clã, um bando, amizade, afeição, amor: 3
– respeito, auto-estima, aprovação, dignidade, amor-próprio: 4- liberdade para
o mais pleno desenvolvimento dos talentos e capacidades da pessoa, individuação,
realização do eu. Isso parece muito simples e, no entanto, poucas pessoas
parecem capazes, em qualquer parte do mundo, de assimilar o seu significado.”
(Autor: Abraham H. Maslow – Livro Introdução a Psicologia do Ser –
Livraria:Eldorado Tijuca Ltda – Rio de
Janeiro.”).
As
necessidades menores e mais urgentes são materiais (alimento, abrigo, vestuário
etc...) que tendem a generalizar para uma motivação preponderantemente
materialista, esquecendo que assim como existem as necessidades básicas também
existem as superiores não materiais. Para sermos seres humanos realizados
devemos adquirir a capacidade de amar outras pessoas incondicionalmente e se
comprazer tanto na satisfação dos outros, quanto na satisfação de nós próprios.
Os
nossos dons, os nossos talentos pressionam para serem usados. A
autodescoberta requer coragem, vontade,
deliberação e vigor no indivíduo, assim como proteção, complacência e
encorajamento do meio, especialmente no caso da criança. O ser humano necessita
de uma estrutura de valores, uma filosofia da vida, uma religião ou um
substitutivo da religião para que possa pautar sua vida e compreensão. As
teorias do crescimento, da individuação e da competência afirmam que o futuro
existe agora na pessoa, sob a forma de ideais, esperanças, deveres, tarefas,
planos, metas, potenciais irrealizados, missão, e fé.
“As condições que decidimos instituir, fazem
prever conseqüências no comportamento como as seguintes: O indivíduo torna-se
mais autônomo no seu comportamento, menos rígido, mais aberto ao testemunho dos
sentidos, mais bem organizado e mais integrado, mais semelhante ao ideal que
adotou. Em outras palavras estabelecemos condições que, segundo as nossas
previsões, serão acompanhadas por um controle
interior do indivíduo sobre si próprio nos seus esforços para atingir os
objetivos que interiormente escolheu. Estabelecemos as condições que fazem
prever diversas espécies de
comportamento: comportamentos de autodireção, sensibilidade às
realidades interiores e exteriores, capacidade para se adaptar com
maleabilidade – comportamentos que são, pela sua própria natureza imprevisíveis
na sua especificidade. Estas condições estabelecidas por nós prevêem um
comportamento que é essencialmente livre.” (Autor:Carl Rogers – livro: - Tornar-se
Pessoa. Ed. Livraria Martins - Fonte Editora Ltdas – São Paulo – 11/ 1985).
Foram
surgindo comportamentos, que demonstravam maior maturidade no comportamento, de
menor dependência em relação aos outros, de um progresso na capacidade de se
exprimir como pessoa na mediação, na variabilidade, na maleabilidade, na
capacidade de se adaptar, de assumir as próprias responsabilidades e de se
orientar a si mesmo. Podemos acreditar na conceituação de John Dewey: -“ A
Ciência foi avançando pela libertação, e não pelo esmagamento dos elementos de
variação, de inovação e de novas criações nos indivíduos”. Atualmente temos
certeza de que o progresso na vida pessoal e na vida de grupo se consegue da
mesma maneira, expandindo a
variação,
a novidade, o espírito de criação, e a liberdade.
O
indivíduo contemporâneo tem a possibilidade de optar pelo processo de devir,
que procura se realizar a si mesmo e de priorizar a criatividade em que o
conhecimento acaba por se transformar. O objetivo de continuar a descobrir,
através dos métodos científicos por intermédio de novas experiências, procuram
meios mais aperfeiçoados de atingir
esses objetivos. Os indivíduos ou grupos têm a possibilidade de atingir a
criatividade sem o mínimo de poder e controle. Segundo os atuais conhecimentos,
a única autoridade necessária é o que sugere determinadas qualidades de
relações interpessoais.
“Todas
as tentativas dão a entender que o conhecer-se a si mesmo é coisa fácil. Isso é
uma ilusão, uma crença baseada nos próprios desejos, e, por isso mesmo, uma
ilusão positivamente nociva. As pessoas que tomam esse caminho, que promete ser
fácil, ou adquirem uma falsa presunção, julgando conhecer tudo a respeito de si
mesmas, ou então desanimam ante o primeiro obstáculo sério, tendem a abandonar
a busca da verdade julgando-a um trabalho inútil. Nada disso acontecerá tão
facilmente quando se tem consciência de que a auto-análise é um processo lento
e porfiado, com probabilidades, às vezes, mostrar-se doloroso e desconcertante,
exigindo todas as energias construtivas de que dispõe.” (Autora: Karen Horney –
Livro: Conheça-se a si mesmo -
Editora Difel – São Paulo –
1984).
Debatendo
em termos mais gerais, é antiqüíssima esta pergunta: - pode alguém, conhecer-se
a si mesmo? Evoluímos quando nos defrontamos abertamente para resolver um
problema nosso. Sempre procurei tornar-me uma pessoa livre das cadeias interiores,
libertar-me para o desenvolvimento de minhas melhores potencialidades. A
determinação de assumir a responsabilidade, que teria de interpretar-me como
também de questionar-me em qualidade de ser, que na realidade é a vontade de melhorar.
Segundo
minha experiência, quanto mais eu fosse autêntica, tanto mais o meu eu real se
revestia de interesse e quanto mais questionasse surgia o incentivo para
desabrochar, libertando-me dos grilhões interiores, para viver uma vida melhor
conforme as circunstâncias existentes. É normal o desejo de
auto-aperfeiçoamento, pois sentimos certos ganhos de caráter mais espiritual,
menos tangíveis mas muito mais compensadores. Todos estes investimentos de
crescimento interior podem ser sintetizados como um incremento do vigor
interior e da confiança em si mesmo.

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